Imagem de destaque: astrolábio construído por ‘Umar ibn Yusuf no Iêmen, em 1291, de latão com incrustações de prata. Objeto 91.1.535a–h, coleção Edward C. Moore, legado de Edward C. Moore, 1891. The Metropolitan Museum of Art. Imagem e obra em domínio público. Fonte: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/444408
Em 1291, um príncipe do Iêmen deixou seu nome e uma data em um instrumento de latão. A peça tinha discos, marcações e uma rede vazada que ajudavam a representar o céu sobre uma superfície plana. Era um astrolábio, instrumento usado para resolver problemas de astronomia e de medição do tempo.
O exemplar pertence hoje ao Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Sua inscrição atribui a fabricação a ‘Umar ibn Yusuf ibn ‘Umar ibn ‘Ali ibn Rasul al-Muzaffari. Poucos anos depois, em 1295, ele subiria ao trono da dinastia rassúlida. O objeto, porém, conserva uma parte de sua trajetória anterior como estudioso e fabricante.
O que torna essa peça especialmente bem documentada é a combinação entre o instrumento e um texto. Segundo o museu, ‘Umar reuniu tratados científicos, incluindo um sobre a construção de astrolábios. Uma versão autografada desse tratado, preservada no Cairo, contém certificações de seus professores e uma descrição do próprio exemplar que chegou ao museu.
Um astrolábio planisférico reúne placas circulares em torno de um eixo. Em muitos exemplares, a placa vazada da frente, chamada rede, representa posições de estrelas e pode girar sobre outras superfícies marcadas. Ao alinhar as peças com dados de localização, data e observação, o usuário obtém informações que ajudam a relacionar o céu à hora e ao lugar.
Esses instrumentos foram empregados para diferentes cálculos. Podiam auxiliar na determinação das horas do dia, na previsão da posição de corpos celestes e na identificação dos horários de oração e da direção de Meca. Também foram usados em práticas astrológicas. Cada função exigia conhecimento do instrumento e dos dados disponíveis; não bastava apontá-lo ao céu para receber uma resposta automática.
A história do astrolábio atravessa regiões e séculos. Segundo o material educativo do Met, o princípio do instrumento remonta à Antiguidade grega. Estudiosos e artesãos do mundo islâmico desenvolveram e aperfeiçoaram versões que também influenciaram a produção europeia. Um objeto concreto permite observar uma parte dessa circulação de conhecimento, sem reduzir sua história a um único inventor ou centro cultural.
As medidas do exemplar iemenita também revelam um trabalho cuidadoso em escala de mão. A caixa circular tem cerca de 15,6 centímetros de diâmetro. O museu descreve latão fundido e martelado, com recortes, gravações e incrustações de prata. A peça é formada por vários componentes, incluindo placas, rede e pino.
As superfícies gravadas não eram apenas decoração. Linhas, escalas e nomes ajudavam a organizar informações necessárias ao uso. Ao mesmo tempo, o metal recortado e a caligrafia davam ao instrumento uma aparência própria. Em outro astrolábio do museu, feito no Irã no século XVII, a placa vazada incorpora uma inscrição caligráfica, mostrando como diferentes fabricantes combinaram técnica e composição visual.
Hoje o astrolábio de ‘Umar é uma fonte para estudar técnicas e textos de sua época. Sua inscrição e o tratado preservado permitem fazer uma ligação rara entre uma peça e o conhecimento de quem a produziu. Ainda assim, não precisamos imaginar uma observação específica feita com ela para apreciar o que está documentado: um instrumento de cálculo que sobreviveu acompanhado de parte de sua história.
Fontes: ficha do astrolábio de ‘Umar, Metropolitan Museum of Art: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/444408 ; material educativo sobre astrolábios: https://www.metmuseum.org/ru/learn/educators/curriculum-resources/art-of-the-islamic-world/unit-four/featured-works-of-art/image-16 ; catálogo do departamento de arte islâmica: https://resources.metmuseum.org/resources/metpublications/pdf/Masterpieces_from_the_Department_of_Islamic_Art_in_The_Metropolitan_Museum_of_Art.pdf