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O giro de Vênus demora mais que uma volta ao Sol

Radar mediu uma rotação de cerca de 243 dias terrestres, mas o intervalo entre dois meios-dias segue outra conta.

avatar por Ellen
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Vênus completa uma volta ao redor do Sol antes de terminar um giro sobre o próprio eixo. O ano venusiano dura aproximadamente 225 dias terrestres, enquanto a rotação leva cerca de 243. A comparação parece simples, mas esconde uma pergunta importante: quando dizemos “dia”, estamos contando o movimento do planeta em relação às estrelas ou o intervalo entre dois meios-dias?


São medidas diferentes. A primeira recebe o nome de dia sideral. A segunda, dia solar, depende também do caminho percorrido na órbita. Vênus gira em sentido contrário ao da maioria dos planetas, inclusive a Terra. Essa rotação retrógrada, combinada ao movimento orbital, faz o ciclo solar durar aproximadamente 117 dias terrestres. Portanto, dizer apenas que “um dia em Vênus é maior que seu ano” exige explicar qual relógio estamos usando.


Na Terra, a diferença entre os dois modos de contar passa facilmente despercebida no cotidiano. Em Vênus, ela muda bastante a comparação. Um calendário baseado na posição do Sol e outro baseado na orientação do planeta diante das estrelas não marcariam a mesma duração. Os números não se contradizem: descrevem movimentos relacionados, observados a partir de referências distintas.


Medir esse giro com precisão também exige mais do que acompanhar uma mancha pela janela de um telescópio. A superfície fica escondida sob uma atmosfera espessa e coberta de nuvens. Para investigar o movimento do terreno, uma equipe liderada por Jean-Luc Margot, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, utilizou sinais de radar enviados da Terra.


Em 21 ocasiões entre 2006 e 2020, a antena de Goldstone, na Califórnia, apontou ondas de rádio para Vênus. Os ecos foram recebidos ali e no observatório de Green Bank, na Virgínia Ocidental. O sinal refletido produz um padrão irregular, comparável a manchas, que atravessa os dois receptores em momentos diferentes. Comparar os registros permite calcular características da rotação.


O trabalho, publicado em 2021 na revista Nature Astronomy, encontrou uma duração média de 243,0226 dias terrestres para o giro sideral. A precisão do resultado não significa que o planeta funcione como um relógio perfeitamente regular. As observações também revelaram variações equivalentes a aproximadamente 20 minutos na duração desse giro. Uma média detalhada e um movimento variável podem coexistir.


A atmosfera oferece uma explicação física para parte dessa irregularidade. Ao circular, ela troca momento angular com o corpo sólido do planeta. Essa troca pode acelerar ou desacelerar ligeiramente a rotação. O estudo investiga justamente essa ligação entre o ar e o terreno; não é necessário imaginar que o planeta esteja mudando de trajetória ou que seu ano tenha adquirido a mesma variação.


Há ainda uma diferença entre medir a rotação e descobrir tudo sobre o interior de Vênus. Os dados ajudam a impor limites aos modelos de sua estrutura, mas não resolvem sozinhos todas as perguntas sobre o núcleo. Esse cuidado evita transformar um resultado específico em uma descrição completa do planeta.


A curiosidade sobre um giro mais longo que o ano acaba mostrando duas coisas: escolher a referência faz parte de qualquer medida, e até um número aparentemente fixo pode resultar de um sistema em movimento. Em Vênus, contar o tempo também é uma maneira de estudar a interação entre atmosfera, superfície e órbita.


Imagem: hemisfério norte de Vênus em um globo simulado por computador, construído principalmente com mosaicos de radar da missão Magellan. As cores são simuladas; não se trata de uma fotografia óptica da superfície. Crédito: NASA/JPL, PIA00271. Reutilização conforme a política de imagens do JPL.

Fonte da imagem: https://www.jpl.nasa.gov/images/pia00271-venus-computer-simulated-global-view-of-the-northern-hemisphere/

Política de uso: https://www.jpl.nasa.gov/jpl-image-use-policy/


Fontes

NASA, Venus Facts: https://science.nasa.gov/venus/venus-facts/

UCLA, Cracking the mysteries of Venus, 29 de abril de 2021: https://newsroom.ucla.edu/releases/cracking-the-mysteries-of-venus

Margot e colaboradores, Spin State and Moment of Inertia of Venus, Nature Astronomy (2021), registro NASA NTRS: https://ntrs.nasa.gov/citations/20220003058

NASA, The Planet Venus (1976), comparação entre dia sideral e solar: https://ntrs.nasa.gov/api/citations/19760015040/downloads/19760015040.pdf

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