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O jogo egípcio que também representava a viagem para o além

Tabuleiros de senet unem lazer e crenças funerárias, mas suas regras completas não chegaram até nós.

avatar por Ellen
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Uma caixa estreita, trinta casas e pequenas peças azuis: à primeira vista, o objeto parece pronto para uma partida. O tabuleiro preservado no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, oferece uma entrada para o senet, jogo praticado no Egito antigo. Sua história passa pelo divertimento cotidiano e por uma pergunta maior: o que aconteceria depois da morte?

O senet aparece em registros egípcios desde o período pré-dinástico. Segundo a pesquisadora Anne-Elizabeth Dunn-Vaturi, do Met, seu tabuleiro característico tem três fileiras de dez casas, com decoração nas cinco últimas. As peças percorriam o conjunto em um trajeto em forma de S. O desenho é simples de reconhecer, mesmo para quem nunca ouviu o nome do jogo.

As jogadas envolviam um componente de acaso. Bastões lançados e pequenos ossos podiam cumprir uma função semelhante à dos dados. Uma caixa do acervo do Met, datada de aproximadamente 1580 a 1458 a.C., conserva oito peças e dois ossos. Esses números descrevem o que sobreviveu naquele conjunto; não constituem uma receita válida para todas as partidas egípcias.

Essa mesma caixa guarda outra surpresa: suas duas superfícies serviam para jogos diferentes. De um lado ficavam as trinta casas do senet; do outro, vinte casas de um jogo que chegou ao Egito pelo Oriente Próximo. Uma gaveta acomodava as peças, e um ferrolho de marfim permitia fechá-la. O formato reunia tabuleiro e armazenamento em um único objeto.

No Reino Novo, aproximadamente entre 1550 e 1070 a.C., o senet ganhou uma associação com a jornada para o além. Seu nome é traduzido como “passagem”. Os obstáculos enfrentados no jogo podiam representar os perigos que o morto precisaria superar. Essa leitura religiosa convivia com sua condição de passatempo, em vez de apagar a dimensão recreativa.

A tumba de Nefertari, principal esposa de Ramsés II, oferece um exemplo visual. Uma de suas pinturas mostra a rainha diante do senet, enfrentando um adversário invisível. O Met conserva um fac-símile dessa cena, pintado por Nina de Garis Davies em 1921 e 1922. É uma cópia moderna de uma imagem antiga, e não um fragmento retirado da parede da tumba.

Outra caixa, feita para Taia e sua família, aproxima o jogo das práticas funerárias por meio das inscrições. Nela aparecem textos de oferendas destinados a Taia e a seus pais. O objeto tem, novamente, duas superfícies de jogo e uma gaveta. Detalhes de uso e referências religiosas ocupam o mesmo suporte, sem exigir que todo tabuleiro tivesse exatamente a mesma função.

A fotografia que acompanha esta matéria também pede atenção. As peças e parte das placas azuis de faiança foram encontradas numa tumba em Abidos. Os componentes antigos são datados de cerca de 1479 a 1425 a.C., mas a caixa de madeira exibida hoje é moderna. Algumas placas perdidas foram substituídas por cópias durante a restauração.

Essa informação muda a maneira de olhar a imagem: o conjunto permite visualizar o tabuleiro, porém não chegou intacto aos nossos dias. A identificação dos materiais antigos e das partes restauradas ajuda a separar o achado arqueológico da apresentação que vemos no museu.

Resta ainda uma ausência importante. O Rosicrucian Egyptian Museum informa que não foram encontradas instruções do jogo e que sua dinâmica foi parcialmente reconstruída a partir de tabuleiros e representações. Podemos reconhecer a organização das casas e investigar seus significados. Reproduzir uma partida com absoluta certeza, como se houvesse um manual original completo, já seria prometer mais do que as evidências permitem.

Imagem de destaque: tabuleiro e peças de senet provenientes de Abidos, com componentes antigos de ca. 1479–1425 a.C. A montagem reúne faiança antiga, madeira moderna e cópias modernas de placas ausentes. The Metropolitan Museum of Art, New York, Gift of Egypt Exploration Fund, 1901, 01.4.1a. Fotografia disponibilizada pelo Met, marcada Public Domain; reutilização CC0. Imagem sem alterações.

Fonte da imagem: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/544775

Política de reutilização: https://www.metmuseum.org/hubs/open-access

Fontes consultadas

Anne-Elizabeth Dunn-Vaturi, Board Games from Ancient Egypt and the Near East, Met (2018): https://www.metmuseum.org/essays/board-games-from-ancient-egypt-and-the-near-east

Met, Game Box for Playing Senet and Twenty Squares, 16.10.475a: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/553268

Met, Game Box Inscribed for Taia and His Family, 12.182.72a, b: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/548482

Met, Queen Nefertari Playing Senet, Nina de Garis Davies, 30.4.145: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/548355

Met, Gameboard and Gaming Pieces, 01.4.1a: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/544775

Rosicrucian Egyptian Museum, Senet Workshop: https://egyptianmuseum.org/workshops/senet-workshop

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