Uma pequena porção de poeira espacial pode conservar a história de uma água que desapareceu há bilhões de anos. Foi o que pesquisadores encontraram ao examinar material do asteroide Bennu, entregue à Terra pela missão OSIRIS-REx em 2023. Dois estudos publicados em 29 de janeiro de 2025 investigaram aspectos complementares dessa amostra: os minerais e as moléculas orgânicas.
A equipe que estudou os minerais identificou sais ricos em sódio, incluindo carbonatos, sulfatos, cloretos e fluoretos, além de fosfatos. A combinação aponta para a evaporação de uma salmoura, uma solução concentrada de água e sais. Conforme a água diminui, diferentes substâncias podem cristalizar, deixando um registro das transformações do líquido.
Essa história pertence ao corpo maior que deu origem aos fragmentos de Bennu. O asteroide atual é um agregado de destroços. Os minerais permitem investigar processos ocorridos em seu antecessor, no início do Sistema Solar. A identificação dos grãos é uma observação de laboratório; a reconstrução do ambiente antigo depende de suas composições, texturas e relações entre os minerais.
Parte desses vestígios é bastante delicada. No estudo mineralógico, certos grãos guardados em contato com o ar sofreram alterações durante meses. Amostras preservadas em nitrogênio conservaram sais que poderiam desaparecer ou mudar no ambiente terrestre. Por isso, trazer material diretamente do espaço e controlar seu armazenamento faz diferença no que os instrumentos conseguem descobrir.
Uma segunda investigação, publicada na Nature Astronomy, examinou compostos orgânicos solúveis. Os pesquisadores encontraram amônia em abundância e uma variedade de moléculas que contêm nitrogênio. Entre elas estavam 14 dos 20 aminoácidos usados pelos organismos terrestres para construir proteínas, além das cinco bases nitrogenadas encontradas no DNA e no RNA. Essas bases são componentes de moléculas maiores; sua detecção, sozinha, não demonstra a existência de material genético organizado.
Os autores também investigaram características químicas que ajudam a distinguir uma origem extraterrestre de contaminação. A composição isotópica do nitrogênio da amônia, por exemplo, diferia daquela do combustível da espaçonave. O trabalho reuniu análises de diferentes porções do material, procurando compreender tanto a diversidade dos compostos quanto as condições em que poderiam ter se formado.
Muitos aminoácidos possuem duas formas que se relacionam como uma mão e sua imagem no espelho. Nas proteínas da vida terrestre predomina uma delas. Os resultados divulgados para Bennu mostraram misturas equilibradas das duas formas em aminoácidos analisados. Entender como a preferência biológica se estabeleceu continua sendo uma pergunta aberta. O achado acrescenta uma referência concreta para experimentos sobre química anterior ao surgimento dos seres vivos.
A NASA ressaltou que esses resultados não constituem evidência de vida no asteroide. Eles ampliam o conhecimento sobre ingredientes e ambientes disponíveis no Sistema Solar primitivo. Água salgada, minerais e compostos orgânicos podem participar de muitas reações químicas. Descobrir quais delas conduziram aos primeiros sistemas vivos exige outras evidências. Por enquanto, os pequenos grãos de Bennu ajudam a investigar como parte dos materiais necessários pôde surgir, ser transformada e viajar entre corpos celestes.
É também um lembrete sobre a escala dessa investigação: uma amostra pequena, examinada por técnicas diferentes, pode responder a perguntas distintas. Cada resultado precisa ser relacionado às condições de coleta, conservação e análise.
Fontes
McCoy e colaboradores. Nature, 2025. https://www.nature.com/articles/s41586-024-08495-6
Glavin e colaboradores. Nature Astronomy, 2025. https://www.nature.com/articles/s41550-024-02472-9
NASA, 29 de janeiro de 2025. https://www.nasa.gov/news-release/nasas-asteroid-bennu-sample-reveals-mix-of-lifes-ingredients/