A superfície da Pedra de Roseta está dividida em três faixas de sinais. No alto aparecem hieróglifos; no centro, a escrita demótica; embaixo, o grego. Essa disposição ajudou estudiosos a comparar versões de um mesmo decreto. Há um detalhe importante nessa contagem: as inscrições representam duas línguas, o egípcio e o grego, registradas por três sistemas de escrita. [1]
O documento foi elaborado por sacerdotes reunidos em Mênfis, em 196 a.C., durante o reinado de Ptolomeu V. Seu conteúdo celebra medidas atribuídas ao soberano e estabelece homenagens religiosas a ele. Entre os benefícios enumerados estão reduções de impostos, apoio aos templos e perdão de dívidas. O texto permite acompanhar como a autoridade do rei era apresentada e reconhecida pelo sacerdócio. [2]
A escolha das três escritas está expressa no próprio decreto. Sua parte final determina que a decisão seja gravada em pedra, em caracteres sagrados, nativos e gregos, e colocada nos templos, junto à imagem do rei. A inscrição de Roseta pertence, portanto, a um programa de divulgação de uma decisão política e religiosa. A repetição que mais tarde ajudaria a decifração já fazia parte da finalidade original do documento. [2]
Muitos séculos depois, em julho de 1799, soldados franceses encontraram a pedra durante obras em um forte na cidade egípcia de Rashid, chamada Roseta pelos europeus. O bloco estava entre materiais das fundações. Os três conjuntos de sinais chamaram a atenção, e a possibilidade de relacioná-los passou a orientar pesquisas. A pedra conservava um texto antigo em uma combinação especialmente útil para comparação. [3]
O trabalho exigia ir além de reconhecer que as passagens tratavam do mesmo assunto. Era necessário descobrir como os sinais funcionavam e estabelecer correspondências consistentes entre as escritas. A Bibliothèque nationale de France explica que os estudos de Champollion sobre a pedra, a partir de 1821, permitiram avançar na leitura dos nomes dos reis ptolomaicos e reunir equivalências entre caracteres. [1]
Em 1822, Jean-François Champollion apresentou suas conclusões na Carta a Dacier. Dois anos depois, publicou uma descrição mais ampla do sistema hieroglífico. Ele havia compreendido que a escrita podia combinar elementos figurativos, simbólicos e fonéticos. Assim, reconhecer a imagem desenhada por um sinal era apenas parte do problema: em determinadas situações, importava o som que ele representava. [1]
Para chegar a essas conclusões, Champollion reuniu inscrições de épocas, lugares e tipos diferentes. Estudou documentos multilíngues, dominava várias línguas antigas e aprofundou seu conhecimento do copta. A BnF conserva seus papéis de trabalho, que incluem desenhos, decalques, fichas de leitura e rascunhos. Esse material mostra uma investigação construída por comparação, cópia e revisão de documentos. [4]
A conferência continuou depois do anúncio de 1822. Champollion examinou inscrições em coleções europeias para testar suas leituras e, mais tarde, viajou ao Egito. Seus registros também conservaram detalhes hoje difíceis de observar: segundo as pesquisadoras da BnF, ele anotava com cuidado as cores dos monumentos, algumas das quais perderam intensidade ou desapareceram. [4]
Vista dessa forma, a Pedra de Roseta reúne duas histórias relacionadas. Uma está no decreto que organiza honras a um rei. A outra envolve os métodos desenvolvidos para ler inscrições antigas. O que tornou a peça tão útil foi a possibilidade de confrontar sinais e palavras, num trabalho que dependia também de outros textos e do conhecimento acumulado sobre a língua egípcia. [2][4]
Pedra de Roseta, de 196 a.C., no British Museum, em Londres. Fotografia: © Hans Hillewaert, via Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Reprodução sem alterações; versão reduzida disponibilizada pelo acervo. O artefato antigo está em domínio público. Fonte da imagem. Licença CC BY-SA 4.0.
Fontes
1. BnF: Jean-François Champollion (1790–1832)
2. Decreto de Roseta: tradução da seção grega por Carol Andrews, reproduzida no Attalus
3. British Museum: Hieroglyphs, guia da exposição, seção The Rosetta Stone