A luz amarelada dos postes transformava a calçada úmida em um palco improvisado. Ela movia-se entre as sombras numa dança para si mesma: saia de vinil negro, curta o suficiente para sugerir o que escondia, justa o bastante para esculpir cada contorno. As meias-arrastão subiam em linha reta, traçadas por costuras formando setas apontando para o corselete vermelho repleto de fitas e rendas pretas, mapas sobre a pele, destacando curvas que o próprio corpo parecia ter inventado. Peruca loira, batom sangrando na boca, as luvas de cetim completavam o figurino da noite.
Ele aproximou-se na cadência de quem sabe que o espetáculo é só para ele. Observava o rebolado, não aquele movimento mecânico de profissional, mas algo mais perigoso: o jeito que os quadris negavam gravidade por frações de segundo, prometendo mundos que a saia mal cobria.
A cantada saiu fácil, quase preguiçosa. A negociação, rápida: matemática simples de esquina, fome com vontade de comer. Mas havia algo no olhar dele, aquele brilho específico de quem acumulou desejo por dias, semanas talvez, que já sussurrava: “esta noite irei me acabar”.
Caminharam até o prédio onde ele estava hospedado. Atravessaram a recepção, um casal clandestino, deixando para trás o porteiro de olhar curioso. Quando as portas do elevador se abriram, uma senhora de meia-idade emergiu com a cara azeda de quem não transa há décadas. Mediu a mulher de cima a baixo com nojo rasgado e soltou entre os dentes:
— Este prédio perdeu totalmente o respeito... Preciso levar isto à reunião do condomínio.
A mulher de vinil e rendas encarou a senhora com um sorriso que era puro deboche. Estalou uma bola de chiclete sem pressa, mastigando com a lentidão de quem tem tempo, e desenfiou a calcinha da bunda num movimento deliberado, olhando fixamente para a velha. Os olhos diziam o que a boca calava: “engole o choro.“
No elevador, ele alisou aquela bunda com a posse de quem já pagou pelo direito. Seu volume era evidente contra o tecido das calças: uma promessa dura, impaciente. As portas se fecharam. A chave girou na fechadura, o tempo ali era dinheiro.
Ele deu passagem. Ela entrou, mal cruzou o limiar, e a porta bateu atrás de si. Ele a puxou pelas fitas do espartilho como quem puxa as rédeas de um cavalo indomável, esfregando-se já rijo contra ela, mordendo o pescoço enquanto a mão descia em queda livre: seios, cintura, para tomar posse daquela carne quente e molhada lá embaixo.
Sem conversa. Piranha não precisa de preâmbulo.
A mão dele era ao mesmo tempo aflita e segura, desfazendo laços, alargando fitas, empurrando tecidos com a pressa dos desesperados. Ela sentiu a fricção, percebeu que ele já estava para fora, tentou olhar para trás, mas ele travou seu queixo:.
— Nada de olhares.
Ele pensou: “Estou pagando para ela dar. O que eu quiser. Não para me admirar. Essa puta acha que tem vontades?“
A saia voou. As calças desceram ao joelho, o relógio cobra por hora, não por gozo. Ele a virou de bruços, admirou aquela bunda aberta,e entrou de uma vez, um golpe bruto, seco. Esperava resistência, mas sentiu a carne ceder fácil. Safada. Tá no cio também. Não olhou no rosto; encarar seria dar nome, e nome estraga o serviço.
Fodia com força, e percebia que ela gostava. As pernas se abriam mais, convidando. Ele a puxou pelos ombros, socando de baixo para cima, firme, metódico. Os gemidos começaram e não eram aqueles gemidos falsos de prostíbulo; eram roucos rasgados, quebrados, vindo do fundo da garganta.
“Essa safada quer gozar também”, pensou. “Mistura prazer e negócios. Foda-se! Se ela quer...“
Alterava os ângulos a cada estocada, ora profundo, ora raso, ora batendo naquele ponto que fazia ela arquear. Quando encontrou o ritmo certo, quando a pressão em cima provocou aquele gemido específico, mais alto, mais desesperado, ele soube. Rápido, ele se afastou, enrolou a peruca loira no punho direito e meteu de novo por trás, puxando a cabeça dela como rédea. Nenhuma resistência. Só tesão, suor e colchão rangendo. Esfregou o pau na entrada, provocando. Sentia a bunda dela rebolar contra a dele, buscando a entrada. O sangue fervia. Socou fundo.
Deixou o pau esbarrando no encontro dos grandes lábios, provocando. Sentiu que ela aumentava o movimento num bailar involuntário de quadril e aumentou também. Sabia que ia chegar, sentia a ansiedade crescer em espiral, socava com mais força. Ela disse "continua!”.
— Puta! Eu que digo: continua!
Ela gemeu alto, esmagando o lençol nas mãos. Ele socou até o fim, travou o quadril e descarregou dentro dela um líquido quente e viscoso.
— Toma, sua vadia!
Soltou o cabelo dela. Ela desabou, satisfeita, espalhada sobre o colchão. Ele se levantou. Jogou o dinheiro sobre a cama, notas que caíram leves sobre o tecido amassado. Foi até o banheiro pensando: “não pode dar trela para vagabunda”.
No quarto, ela se levantou sem pressa. Arrancou a peruca loira. Limpou o batom borrado com um lenço úmido. Deixou os saltos no canto. Vestiu uma camisola de cetim branca: a inocência em tecido. Os bicos dos seios ainda empinados, ainda lembrando.
Ouviu o chuveiro. Observou as marcas no corpo: vergonhas rosadas na pele, fricção do colchão, mordiscos no pescoço. A porta do banheiro destrancou. Ele apareceu na luz fraca, cabelos molhados, pele branca, sorriso largo, usando apenas aquele short azul antigo de pijama, confortável.
Parou encostado no batente, encarando-a com um sorriso bobo de menino, coçando com charme a barba por fazer.
“Como é bom comer uma puta para se divertir e chegar em casa e ter os braços de uma mulher tão pura para me acolher”, pensou ele.
O olhar dele era de enamorado. Ela sentiu aquele arrepio familiar de pertencimento: “sei o homem de valor que tenho” e devolveu o sorriso mais doce que alguém pode esboçar.
Ele sentou-se na cama, acariciou seu rosto, enfiou-se sob o lençol puxando-a para perto. Braços ternos envolveram sua cintura, um beijo na nuca, o cheiro de amor misturado ao resto de perfume que ainda resistia na pele.
Em conchinha, fecharam os olhos.
Ela pensando: “ainda bem que ele não sabe como gosto de brincar.... Saber para quê?”
Ele refletindo: “Todo homem de verdade precisa de uma vadia pra gastar o tesão e de uma santa pra cuidar da alma”.
O silêncio do quarto guardava os dois segredos, iguais e opostos, faces de uma mesma moeda jogada nas sombras da fantasia.
Cris Ribeiro