@wilcipolli
há 1 mês
Público
Fruta-do-dragão
Já aviso de antemão: isto não é um texto informativo. Já sou crescido, posso até lhe ensinar algo aqui ou acolá, e ainda assim sigo sendo surpreendido por banalidades — o que, convenhamos, é uma forma elegante de dizer que o mundo continua me enganando.
Ultimamente tenho ficado ansioso com uma questão simples: qual será a nova fruta da vez?
Porque isso existe. Não me diga que não. Vinte anos atrás, no interior de São Paulo, ninguém saberia explicar o que diabo era um açaí — e, se soubesse, certamente não teria provado. Bastaram três ou quatro míseros anos e — bum! — açaiteria brotando pelos bueiros. De repente, todo mundo sempre gostou, sempre tomou, sempre soube. Passei a infância inteira sem sequer desconfiar da existência de um creme roxo, doce e gelado que hoje vendem como se fosse patrimônio da humanidade.
Não me entra na cabeça. Como é que uma coisa dessas simplesmente… aparece?
Tudo bem, há quem não goste. Dizem que tem gosto de terra. Respeito, mas discordo. O que não consigo respeitar são aqueles que defendem aquela frutinha amarela, azeda e francamente desnecessária chamada physalis — tão insossa quanto o próprio nome. Passei anos gloriosos da minha vida sem saber que aquilo existia, e sinceramente não vejo o que ganhei ao descobrir.
Mas eis o ponto: se tem quem goste — e aparentemente tem — por que só foram me apresentar isso depois dos meus quinze anos? Onde estavam essas frutas antes? Quem decide o momento exato em que elas entram em circulação? Existe um calendário secreto da agricultura? Um comitê, talvez, que se reúne de tempos em tempos e resolve: “agora é essa aqui”?
Gosto de pensar que sim. Que há um roteiro sendo seguido. Que a cada década lançam uma novidade, como episódio de série, só para manter a gente entretido.
Se for esse o caso, preciso admitir: o episódio mais recente me agradou.
A tal da fruta-do-dragão — que, convenhamos, já começa ganhando pelo nome — é dessas que não pedem licença. Chega chamando atenção, cor viva, aparência quase exagerada, quase artificial. E não é que entrega? Doce na medida, suculenta, textura que desmancha. Um escândalo discreto. Dessas que você experimenta e imediatamente pensa: onde você estava esse tempo todo?
E lá vou eu de novo, com a mesma sensação incômoda: vivi dois terços da vida sem isso aqui. Dois terços. Tempo suficiente para formar caráter, opinião, até arrependimento — mas não para conhecer uma fruta que claramente merecia ter participado de tudo isso.
Recentemente descobri que o caju, por exemplo, apesar de ser nosso, virou celebridade lá fora. Vietnã, Índia — potências na produção da castanha. Faz sentido: o fruto é delicado, não aguenta desaforo, estraga fácil. O mundo acabou ficando com a versão seca, domesticada, exportável. O caju de verdade, aquele que mela a mão e mancha a roupa, ficou restrito a quem pode alcançá-lo antes que apodreça.
Talvez seja sempre assim.
Em algum lugar — no Japão, por exemplo — alguém ainda não faz ideia do que seja um caju. Talvez, daqui a alguns anos, surja por lá uma estufa quente o suficiente, seca o bastante, eficiente como tudo que eles fazem. E então, de repente, alguém vai provar pela primeira vez.
E vai se perguntar:
onde isso esteve esse tempo todo?
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