@rodrigosantos
há 1 ano
Público
Eu odeio cortar cebolas
Elas parecem inofensivas à primeira vista. Apenas camadas lisas e pálidas. Mas basta o primeiro corte para que algo invisível suba aos olhos. Ardem. Queimam. Ainda assim, não se pode parar. Há sempre um prato esperando, uma obrigação para ser cumprida.
Ninguém pergunta se dói, ninguém se importa se os olhos marejam. Apenas esperam que continue, que siga firme, que corte cada pedaço sem hesitar. Dizem que há técnicas para evitar as lágrimas: mastigar pão, resfriar a lâmina, prender a respiração. Mas, no fim, nada impede a ardência. Apenas se aprende a piscar menos, a disfarçar melhor.
"Não seja fresco. É só uma cebola." Claro. Sempre é "só" alguma coisa. Só um problema. Só um peso. Só um homem.
Camada após camada, segue o corte. Raiva, frustração, medo. A cebola não liga. O mundo não liga. Só esperam que eu continue cortando, que eu termine o que comecei.
E no fim, mesmo depois de picada, o cheiro fica nos dedos...
Ah, eu odeio cortar cebolas.
Comentários (0)
Sem comentários ainda.
Entre para comentar.