Dizem que, nas noites de profundo desejo, os poetas retornam à terra, arrastando correntes de versos e promessas enfeitiçadas, mas jamais cumpridas.
Eu os ouço quando o vento desliza sobre tua pele, quando o ar se curva em tua nuca e murmura meu nome num arrepio.
Teu corpo escuta antes de entender. Treme. Há algo profano em desejar assim. Tua pele verte calor, teu olhar me prende em silêncio, e a boca se abre lentamente, suspiro entre prece e delírio.
Eu me confesso inteiro: pecador e servo do teu toque, minha respiração se perde entre teus ombros e umbigo.
O amor, dizem, é divino… mas o que sinto por ti nasceu dos segredos que os anjos guardam só pra si.
Assim como no Dia dos Namorados, há promessas que se desfazem na boca, palavras que se vertem como vinho, e suspiros que se tocam no escuro.
Trocaremos maldições antigas, selos de alma, poemas que nunca deveriam ser declamados.
E quando a noite enfim se derramar sobre nós, deixa que eu te leia em voz baixa, como fazem os poetas amaldiçoados, que amam sabendo que todo amor é também um feitiço que escorre, gota a gota, da boca ao coração.
Me deixa te ler devagar, sem pressa, Folhear teus silêncios, desvendar tua promessa. Teu corpo é poema que perfuma o ar, Com ritmo, melodia e cheiro de mar.
Tua pele é página escrita em desejo, Teus olhos, dois versos que guardam um beijo. Me empresta tua história sem fim, Para eu escrever um crossover em mim.
Me deixa te ler no escuro da sala, Com os dedos nos traços da tua fala. Te ler com a boca, com o corpo e com a mão, Ser tinta, ser verbo, ser tua canção.
Te ler no compasso do teu arrepio, No sopro ofegante, no toque tardio. Descobrir teus segredos sem censura, Beber tua alma na minha loucura.
Eu posso ser o homem que te envolve Que sussurra baixinho, te comove Posso ser o mistério que te instiga Ou a calma de um beijo que acaba com a briga
Posso ser aquele que te guia na estrada Ou o par de braços que te envolve na madrugada Posso ser o riso que explode do nada Ou o silêncio bom na tua caminhada
Eu posso ser o forte que te segura Ou o frágil que confessa a ternura Posso ser o dono do teu desejo Com toque firme, uma palavra, um beijo
Posso ser o ousado, o provocante Ou só teu abrigo mais constante Te amar no escuro sem desviar E te fazer tremer desde um olhar
Mas no meio de tudo o que posso ser, Se você olhar bem vai perceber: Por trás do homem, do charme, do jeito maduro... Eu ainda sou apenas um menino… Querendo brincar em teu mundo seguro
Te vi passar, e juro pelo que há de sagrado, que o mundo ficou de joelhos. Tinhas nos passos a delicadeza das virgens e no olhar o crime perfeito.
Uma rosa, sim. Mas daquelas que sangram. Rosa com espinho envenenado, plantada no jardim das mulheres impossíveis, que beijam como quem morde a jugular do destino.
Teu perfume? O pecado no confessionário. Tua pele? Novena sem perdão. A flor que brota do túmulo das santas, e, ao mesmo tempo, o estopim de uma tragédia grega.
Delicada? Sim. Como a lâmina que corta a alma. Feroz? Como a noiva apaixonada em noite de núpcias.
Ah, se eu te arrancasse do jardim e te roubasse para mim! Seria absolvido por qualquer tribunal, porque mulher assim não se resiste: é rosa feita de amor e penitência.
Na neblina da minha memória – espessa, úmida, impura — há vultos que não me perdoam Pernas cruzadas atrás de portas fechadas Pálpebras que tremem quando deviam dormir
Cada passo que dou nesse nevoeiro me leva a um quarto que jurei ter esquecido Ali, há um espelho embaçado, e no fundo dele meu próprio olhar, sem os olhos
Ouço risos. Contidos. Quase piedosos Ou seriam soluços? A neblina, às vezes, tem cheiro de confissão Outras, de carne molhada e promessas partidas
Digo a mim mesmo que não fui eu Mas há marcas nas paredes da mente e uma cadeira virada no centro do quarto Alguém esperava. Alguém não veio Ou veio e nunca saiu
O que se esconde na neblina não é o passado É o desejo que finge ter morrido E espera, imóvel, de véu e luvas, que eu volte a tropeçar no mesmo abismo