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@rodrigosantos

Rodrigo Santos
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@rodrigosantos
há 9 meses
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Você lê.
Devagar.
Experimentando.

Meu texto desliza.
Palavras invadem.
Fronteiras somem.

Entre linhas.
Você sente.
Finge que não.

Cada ponto.
Suspiro.
Cada vírgula.
Desvio.

Te prendo nas entrelinhas.
E você deixa.
Gosta.

Minha palavra entra.
Te atravessa.
Te faz arder.

Página após página.
Você treme.
É só vontade?

Eu escrevo.
Você se entrega a leitura.
Silenciosa.

Mas eu escuto.
O som do seu corpo lendo.
Ofegante.

Não termine agora.
Leia de novo.
Recomece.

Te espero no próximo parágrafo.
Quer que eu continue?
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@rodrigosantos
há 11 meses
Público
Você sente, não sente?

Essa sensação na sua nuca descoberta, esse arrepio que sobe como um sopro gelado na espinha? Esse peso nos seus passos, como se o chão quisesse te prender? Você finge que não é nada… mas eu sei. Seu corpo me reconhece antes da sua mente entender.

Você me sente antes de me ver.

Perdida nessa trilha, ofegante como se tivesse corrido por horas. Está cansada do quê? Da rotina, do medo ou da vontade? Porque eu sinto seu medo e desejos exalando de você como doce perfume.

Eu te observo, enquanto todas as noites você sonha com dentes, com olhos brilhando na escuridão... Cada vez que acorda molhada e assustada sem saber por quê... Sou eu.

Você me chamou.

Não com palavras. Com o sangue pulsando, com o jeito que olha por cima do ombro, esperando que algo venha. Com seu jeito impulsivo, feroz. Você queria sentir algo real.

Você corre, mas seu cheiro me atrai. A floresta inteira se cala pra te ouvir passar. E todas as trilhas me levam a você.

E agora… agora que estou tão perto, consigo escutar seu coração martelando no peito. Tão rápido. Tão vivo.

Você sabe o que eu sou.

E ainda assim… você não grita. Por quê? Está esperando o quê de mim? Que eu te poupe? Que eu te tome? Que eu te transforme?

Diga. Peça.

Porque quando eu saltar, quando meu corpo cobrir o seu na terra fria, quando meus dentes se cravarem sua pele… não haverá mais volta.

Só você.
Eu.
E a escuridão.

Pra sempre.
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Público
V1C10

Dedos dançam na tela, um toque, um gemido,
um brilho azul pulsa no olhar entorpecido.
Cada like, um sussurro, promessa que embriaga,
um corpo sem toque, que se entrega e se apaga.

O desejo é o mesmo, voraz e sem nome,
um gozo de glória que dura um segundo e some.
Corações piscam, digitais se entrelaçam,
mas no fim do prazer, só vazios se abraçam.

Notificações sussurram promessas suaves,
palavras jogados, trancas sem chaves.
Todas frias, vãs, voláteis, sem gosto ou calor,
ilusões digitais disfarçadas de amor.

E, na ânsia de mais, vem a febre e a espera,
suplicando um olhar, migalha, quem dera.
Mas o vício consome sem nunca aquecer,
só prazer sem calor, só farsa de ser.

E você, a quem serve? O que te devora,
quem dita seus passos? Quem mede sua hora?
No brilho da tela ou nos olhos de alguém,
qual é sua cela? O que te retém?
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Diziam que o canto das sereias era irresistível, que nenhum homem poderia escapar ao seu chamado. Eu, tolo, acreditei. Naveguei por mares perigosos, atento aos sussurros que flutuavam sobre as ondas, esperando pelo momento em que a música me tomaria. Mas nada me preparou para o silêncio dela.
Ela estava ali, sentada sobre as pedras negras, cabelos úmidos caindo em cascatas sobre os ombros. Seus olhos eram mais profundos que o oceano, mas sua boca… fechada. Nenhuma melodia, nenhum convite. Apenas o silêncio.
E esse silêncio me devorou.
As outras sereias cantavam ao longe, tentando me atrair, mas eu já não ouvia nada além da ausência dela. Meu coração batia forte contra o peito, implorando por um som, qualquer som. Uma palavra. Um sussurro. Mas ela apenas me olhava.
Dei um passo na água, depois outro. O silêncio dela me puxava como correnteza. Cada onda fria que quebrava contra minhas pernas era um aviso tardio. O silêncio era um feitiço muito mais cruel que o canto. Um canto prometia prazer e esquecimento. O silêncio dela prometia apenas o vazio.
Meus joelhos cederam quando a água chegou ao meu peito. As sereias cantavam frenéticas agora, como se tentassem avisar. Mas já era tarde. Eu pertencia ao silêncio dela.
O último som que ouvi foi o silêncio das águas me engolindo enfim.
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Se um livro te escolheu para desvendá-lo, rende-te.
Deixa que a capa te seduza como um olhar que convida,
desliza os dedos por suas páginas como quem desvenda um corpo em segredo.

Lê-o com a fome de quem deseja, saboreia cada linha como um sussurro entre suspiros.
Não firas sua lombada, não dobres seus cantos, não amasses sua essência...
Pois um livro não se entrega a qualquer um,
é um privilégio ser aquele para quem ele revela seus mistérios.

*Os mais atentos perceberão que este texto não é sobre livros
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Fim do mundo

A chuva ácida martela o capô enferrujado do carro. Estou rodando a dias, sem encontrar nenhuma esperança. O rádio capta apenas chiados e, às vezes, um sussurro de palavras que não reconheço.

Meu combustível está quase no fim, quando vejo a cabana no meio do nada. Ela parece abandonada. Madeira escura, telhado inclinado, uma janela quebrada.

Desço correndo do carro e, assim que empurro a porta, um cheiro podre me atinge, me fazendo sentir os restos de comida que consegui encontrar ontem voltarem por meu esôfago.

O chão range sob meus passos. Observo os móveis cobertos por trapos, formando imagens encurvadas nos cantos. Então percebo: não são trapos, são corpos.

Encostados nas paredes, sentados à mesa, de pé como se tivessem congelado no meio de uma conversa. Pele fina e enrugada como couro velho, olhos afundados em buracos vazios, bocas secas abertas em sorrisos retorcidos. Um deles segura uma caneca, como se ainda bebesse algo. Outro tem os dedos ossudos sobre um prato vazio.

O cheiro e a visão macabra embrulham meu estômago. Engasgo. Nenhum corpo mumifica tão rápido. Nenhum cadáver mantém poses tão naturais.

Então ouço o som de um estalo seco, como madeira quebrando.

Meus olhos disparam para o canto da sala. Um dos corpos mexe a cabeça. Seu pescoço range ao girar na minha direção. A boca rachada se abre devagar.

— Comida.

“Malditos corpos-secos”, penso, sentindo que não posso respirar. Outro corpo vira o rosto. Depois outro. Os sorrisos se alargam demais, rasgando as faces de pele podre sendo puxada.

Corro para a porta. Fechada.

O cheiro pútrido se intensifica. Algo toca minha perna. São mãos secas, com seus dedos curvados. Chuto, tropeço, caio de costas.

Eles avançam. Rangendo. Estalando.

Só consigo pensar em como você está agora? Sozinha, talvez ouvindo a chuva bater na janela, esperando. Me esperando voltar.

Me perdoe, eu não conseguirei voltar para você.
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Era noite quando o redemoinho se formou na porteira da fazenda. O fazendeiro João tremeu ao ver a sombra surgir no centro da ventania: um homem miúdo, de uma perna só, gorro vermelho faiscando como brasa.

— Quem desperdiça, paga o preço. — A voz ecoou na noite.

João sabia do que se tratava. Ele mandara os empregados cortarem árvores além do necessário, enquanto os sacos de milho estavam mofando no celeiro por descuido.

O velho fazendeiro ria dessas histórias. “Saci não passa de lorota pra assustar criança.” Agora, el via com os próprios olhos: a criatura vinha cobrar.

Com um gesto, o Saci fez o vento correr. As ferramentas abandonadas nos campos voltaram para seus lugares. As portas do celeiro rangeram e, dentro dele, os grãos apodrecidos desapareceram, como se jamais tivessem existido.

O castigo, porém, não tardou: as mãos de João começaram a formigar. Quando olhou para si, viu seus dedos se transformando em madeira retorcida, como os galhos da árvore derrubadas sem necessidade.

— Ordem deve ser mantida! — Foram as últimas palavras do Saci antes de desaparecer em um redemoinho de vento.

No dia seguinte, ninguém ousou desperdiçar um único grão ou maltratar um único animal.

Os mais velhos sabiam que aquele Saci não podia ser preso em uma garrafa – pois era a própria natureza cobrando o preço.

E, sempre que o vento roda estranho perto da bagunça, é sinal de que ele vai voltar.
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Joaquim nunca foi um homem bom. Desde jovem, aprendeu que o poder está nas mãos daqueles que o tomam à força. Vivia de trapaças, extorquia os pequenos agricultores da vila e caçava sem se preocupar com as regras da floresta.

Não havia bicho, homem ou espírito que o impedisse de fazer o que quisesse. Ria dos velhos que murmuravam sobre luzes traiçoeiras e assombrações na mata. Para ele, tudo não passava de histórias para assustar crianças.

Naquela noite, com a espingarda pendurada no ombro e um cigarro pendendo dos lábios, ele invadiu a mata em busca de uma presa valiosa. Os colonos falavam sobre uma onça que rondava a região e a pele dela valeria um bom dinheiro no mercado negro. Ele já podia imaginar as moedas pesadas em suas mãos, o olhar invejoso dos outros homens da vila e o quanto ele poderia aumentar suas terras e explorar ainda mais o lugarejo.

O silêncio da mata à noite era interrompido apenas pelos passos pesados do jovem caçador. Joaquim caminhava atento, segurando firme sua espingarda e vasculhando cada canto da mata com seu olhar como um verdadeiro predador e nada tomaria dele sua presa.

Foi então que a viu.

No meio da clareira, banhada pela luz prateada da lua, estava uma mulher. Seus cabelos eram longos e negros como a noite, e sua pele brilhava com um tom dourado, como se fosse feita de brasas que ainda não se apagaram. Seus olhos ardiam como pequenas fogueiras, e quando ela sorriu, Joaquim sentiu o corpo inteiro formigar.

— Perdido, forasteiro? — ela disse imponente.

Ela estava coberta por uma túnica quase translúcida, que deixava entrever suas formas, um cheiro de madeira queimada e jasmim exalava dela.

Ele umedeceu os lábios, os olhos percorrendo cada curva exposta sob a luz da lua. O calor do desejo preencheu seu peito com luxúria. Joaquim era um predador e ela, uma presa caída do céu.

Para Joaquim, o olhar da mulher era um convite. Ele sorriu de lado, a mente já arquitetando o que faria com ela ali mesmo, no meio da mata escura. Ninguém para ouvi-la gritar, ninguém para se intrometer. Podia tomar o que quisesse, como sempre fez.

— Quem é você? — ele perguntou com brutalidade.

— Uma guardiã — ela respondeu, aproximando-se ainda mais. — Cuido da floresta... e daqueles que ousam desrespeitá-la.

Ela levou a mão ao rosto de Joaquim com suavidade. Ele segurou o pulso dela, firme, sentindo a pele quente sob seus dedos, pronto para puxá-la contra si.

Ela sorriu e então o calor aumentou e o caçador sentiu a visão embaçar, ao mesmo tempo em que a pele da mulher começou a brilhar mais intensamente, tornando-se incandescente. Ele tentou soltar o braço, mas não conseguiu.

— O que é isso? — rosnou, tentando recuar.

Os olhos dela brilharam em brasas incandescentes. Ela moveu o pescoço e seu tronco começou a se alongar enquanto seus membros iam se fundindo em algo escamoso e brilhante. Até se tornar uma cobra de fogo.

Joaquim tentou lutar, mas a criatura enroscou-se ao redor de seu corpo, apertando-o como uma presa indefesa.

Ele podia sentir o calor o consumindo por dentro. Sua carne queimava, mas não havia chamas visíveis. Apenas a dor avassaladora de ser consumido vivo pelo fogo de dentro para fora.

Ele abriu a boca para gritar, mas só conseguiu soltar um último suspiro antes de tudo se tornar cinzas.

Na manhã seguinte, quando outros caçadores da vila foram procurá-lo, encontraram apenas um círculo de terra queimada no meio da mata. E, à noite, uma nova luz dançava entre as árvores, como uma chama viva, esperando o próximo desavisado.
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O movimento rápido dos meus dedos extrai sons ritmados

O toque e a pressão produzem palavras

Já não sei o que é meu e o que é êxtase

Ao fim da digitação, vejo na tela uma versão incompleta e não lapidada da minha alma
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