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@rodrigosantos há 1 ano
Público
Era noite quando o redemoinho se formou na porteira da fazenda. O fazendeiro João tremeu ao ver a sombra surgir no centro da ventania: um homem miúdo, de uma perna só, gorro vermelho faiscando como brasa. — Quem desperdiça, paga o preço. — A voz ecoou na noite. João sabia do que se tratava. Ele mandara os empregados cortarem árvores além do necessário, enquanto os sacos de milho estavam mofando no celeiro por descuido. O velho fazendeiro ria dessas histórias. “Saci não passa de lorota pra assustar criança.” Agora, el via com os próprios olhos: a criatura vinha cobrar. Com um gesto, o Saci fez o vento correr. As ferramentas abandonadas nos campos voltaram para seus lugares. As portas do celeiro rangeram e, dentro dele, os grãos apodrecidos desapareceram, como se jamais tivessem existido. O castigo, porém, não tardou: as mãos de João começaram a formigar. Quando olhou para si, viu seus dedos se transformando em madeira retorcida, como os galhos da árvore derrubadas sem necessidade. — Ordem deve ser mantida! — Foram as últimas palavras do Saci antes de desaparecer em um redemoinho de vento. No dia seguinte, ninguém ousou desperdiçar um único grão ou maltratar um único animal. Os mais velhos sabiam que aquele Saci não podia ser preso em uma garrafa – pois era a própria natureza cobrando o preço. E, sempre que o vento roda estranho perto da bagunça, é sinal de que ele vai voltar.

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