@calorliterario_
há 11 meses
Público
Roubaram-me a respiração. Não sei dizer quando começou. Talvez tenha sido naquela noite em que deitei a cabeça no travesseiro e percebi que o ar estava pesado demais. Ou no dia em que caminhei por entre as pessoas e senti que todas tinham para onde ir, menos eu.
Ar rarefeito. Tento puxar, mas não vem. O peito sobe e desce, desesperado, buscando um alívio que não chega. Dói. A ausência de ar, a presença da falta. A falta de quê? De quem? Pergunta tola, eu sei a resposta. Sempre sei.
O peito aperta. Como se mãos invisíveis me segurassem e dissessem: “não se mexa, não vá, não esqueça”. Como se a dor fosse um lembrete cravado nas costelas, nos pulmões, no tempo.
O corpo todo dói. A memória dói. As palavras que eu queria dizer e não disse pesam nos ombros. Os olhares que não segurei o suficiente ardem nos olhos. O vazio que finjo não ver se enrosca em mim, mantendo - me aqui.
Roubaram-me a respiração. Mas, no fundo, eu sei: fui eu que entreguei.
Comentários (1)
@eliz_leao
· há 11 meses
🫂🩷
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