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@sylvviarubra há 1 ano
Público
Tão e Ainda

Queria dizer-lhe que continuo a mesma.
Ainda sonho ser bailarina, só estou adiando para os 60.
Ainda me jogo no chão, esperneando, quando não me dão o que eu quero.
Ainda fico pelos cantos da casa, sozinha, de cabelo assanhado.
Ainda não aprendi a me vestir bem nem tenciono aprender a pentear o cabelo.
Ainda tento me esconder quando vão me apresentar a novas pessoas.
Ainda prefiro comer besteiras à comida de panela.
E ainda me pego coçando o olho, sem lavar as mãos, depois de alisar o gato.

Ainda prefiro ganhar livros a roupas, embora eu já tenha me acostumado a e-books.
Ainda me pergunto sobre o destino das formigas, mesmo não havendo formigueiro no quintal.
Ainda imagino que os postes de alta tensão são robôs gigantes adormecidos à margem da estrada.
Ainda me tremo, pensando que a casa vai desmoronar, quando a chuva vem mais forte.
Ainda não passo pano na casa e jogo as roupas de qualquer jeito no armário.
Ainda prefiro a companhia masculina, porque eu gosto mesmo é de ser mimada.

Eu só queria dizer-lhe, na verdade, que não mais desenho garranchos.
Já há algum tempo, ao invés, eu os escrevo.
Mas ainda me convenço, erroneamente, de que eles tenham algum sentido.

Por eu ser ainda tão a mesma
É que me dói quando ele me olha
E parece não me reconhecer.

Sylvvia Rubraurora

Comentários (2)

@fksilvain · há 1 ano
Esse poema me soou Fernando Pessoa... 🥰
@CaDantasAutora · há 1 ano
Que poema lindo! Tão sincero, tão pessoal. Lindo demais, como tudo que você escreve. ❤️
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