@chico-viana-lwd0u
há 5 meses
Público
A BELA E FERA
Filmes como “King Kong” despertam a criança adormecida em cada um de nós. Retornamos à infância naqueles instantes mágicos em que a tela exibe aventuras impossíveis.
Elas podem ser de bruxos, cavaleiros medievais, seres intergalácticos, monstros pré-históricos, enfim, é extremamente variado o acervo desses entes fabulosos, que nos causam fascínio e medo. Diante deles regredimos à nossa desprotegida inocência e encontramos nisso um tipo especial de prazer.
Esse prazer deriva da catarse, termo com que Aristóteles designa a liberação de tensões mentais. A catarse é uma purificação racional das emoções. Ela ocorre quando constatamos, por exemplo, que estamos imunes aos acontecimentos horríveis que se passam num palco, num livro ou numa tela de cinema. Vivenciamos como espectadores dramas e tragédias, e saímos da experiência incólumes. Aliviados.
O alívio que experimentamos em King Kong vem de um simbolismo mais ou menos óbvio: o gorilão é a porção instintiva de cada um de nós. Vampiros como Drácula ou monstros como Frankenstein, nascido em laboratório, são produtos de cérebros torturados. Refletem um dilema ético.
King Kong não é “construído”, não resulta de nenhuma perversão mental. É pura força da natureza. Seu urro prodigioso é um eco de nossos impulsos ancestrais. Ele não tem bondade nem maldade – tem desejo.
E tem também sensibilidade estética, a ponto de se comover com a loura de beleza angelical que lhe fora oferecida em sacrifício. Ela o seduz com poses e trejeitos engraçados, e o desperta para a beleza do crepúsculo. Tal como ocorre entre homem e mulher, envolve-o num jogo poético de sedução.
O único defeito do filme é o exagero de monstros pré-históricos, como se quisesse fazer concorrência a “Parque dos Dinossauros”. A despeito disso, ele comove e encanta ao contar a velha história do sacrifício por amor. Ou da bela que domina a fera.
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