@carlajaia
há 1 ano
Público
Diga, em voz alta, o nome das palavras. Permita que se formem diante de você, vistosas, pálidas, tortas, reluzentes. Deixe que derramem do seu livro de química as letras de uma tabela que mandaram decorar. Diga o nome do átomo da vida e perceba se ele bate mais forte que as asas de um beija-flor. Separe o beijo da flor e coloque um par de amantes para dançar. Ou um trio. Multiplique os amantes por sessenta, a idade da sua mãe. Grite a palavra velho e perceba seu próprio rosto ganhando marcas. Sussurre tempo e lance-o ao vento, permitindo que eras infinitas se formem diante de seus olhos. Assuste-se perante o infinito porque ele carrega o medo da morte e daquilo que vem depois. Converse com espíritos. Se apaixone por fadas. Deite-se no colo manso de uma sereia sáfica. Torne-se a esposa do demônio e vislumbre as inúmeras faces dele diante de você. Inclusive a mais bela, a de anjo-menino. Recite seu próprio nome como se fosse poema e brinque de ser musa com as rosas que nascerem de seus cabelos. Murmure sexo e examine com cuidado um quadro de Zeus chovendo dourado sobre Danae. Ou tentáculos saindo de sua própria vulva. Ria de si mesma. Peça ao seu amor para debruçar-se sobre você. Caia do décimo andar e pouse lentamente em um clipe de Rosalía. Cavalgue um homem. Mate alguém. Porque a palavra morte faz a noite vir. Acelera seu peito. Anuvia seu coração. E, pouco a pouco, você se encontra deitada em um caixão. É você a vítima. A algoz. E também a salvação. Com o nome das coisas você constrói galáxias e destrói universos. Você é multiversal. Pois nunca deixou de ser criança. Aquela que pintava de negro e roxo as pétalas das flores e as fazia voar feito deusas de um culto ancestral. A criança louca. Venerando a madrugada.
Carla Carrion
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