Pingou nanquim no lençol Ou era minha lágrima, meu desatino carnavalesco? Eu, que sou oposta ao próprio tempo, Contrária ao meu sorriso, Diminuta. Vazia.
Pingou nanquim no lençol, Meu sangue aquarelado Da vida em preto e branco - - os sons do meu segredo: "Tenho medo de morrer Por minhas próprias mãos"
Deus já me salvou tantas vezes Que passei a ser grata aos anjos E a todos os seres sagrados De todos os credos do mundo Eu oro para quem estiver ali Me oferecendo atenção.
Pingou nanquim do céu E uma mãe toda virgem Me redesenhou inteira.
Lorena, a protagonista do meu conto Restos, é uma mulher marcada por perdas violentas. Por isso, não se entrega com facilidade. É por isso que, na visão dela, a maior traição é a desconfiança. Lorena é, nesse recorte, um pouco da resposta de Capitu. E de todas nós. É a nossa recusa a bisbilhotar o outro, porque não queremos também ser invadidas. Mas, bem, isso é apenas um recorte. Lorena é mais que isso. Quando eu disponibilizar o conto, adorarei ser lida por vocês.
Às vezes, na escrita, faço um caminho que parece ser inverso. Em vez de pesquisar antes, escrevo livremente. Depois começo o processo de pesquisa e vou adequando os detalhes da história à realidade mais concreta. Acho que isso funciona porque trabalho mais com o psicológico dos personagens e com um fluxo mais livre de escrita. Como funciona seu processo?
Vim dizer uma coisa, meu amor O fogo pede passagem O meus pés agora pisam a brasa Cantando tristezas de um samba-menino
(Só sei dançar na poesia pois que meu corpo real mal nasceu e já foi logo enclausurado Em nome da lei e da feminilidade)
Clausura do meu corpo: "Fecha essas pernas Fala mais baixo Evita fazer Perguntas demais! Cala a boca, menina, Come direito Para de comer Fecha a boca"
Em boca fechada a mosca não entra.
Vim dizer uma coisa, meu amor O fogo pede passagem Essa queimadura na boca do meu estômago é só o começo de uma gargalhada infernal que me foi ensinada por uma sábia cortesã.
Lá no cais Lá no cais Lá no cais
O fogo pede passagem, amor Vem brincar. Vem queimar. Vem arder em mim
Escrever em primeira pessoa é desafiador para mim. Minha protagonista é uma mulher arrogante, um tanto quanto elitista, tem pensamentos inconfessáveis. É uma sobrevivente de trauma que endureceu pra seguir em frente. É tentador usar palavras na voz dela para redimi-la. Temo que o leitor possa pensar que eu concordo com os pensamentos que ela exprime. Escrever em primeira pessoa é expor uma personagem ao risco de ser odiada. Por dentro, temos sombras. Estou amando a experiência. Lorena é uma personagem do meu mais novo conto da série de contos que estou escrevendo. Em breve falo mais sobre ela.
Será o primeiro narrado em primeira pessoa e vou precisar me empenhar mais, pois acho esse tipo de narrativa difícil. É fundamental, nesses casos, a gente separar a narradora de quem a gente é. Lorena não pode ser Carla.
Conto mais sobre a história depois.
E vocês? Como é a experiência de vocês na escolha do narrador?