Eis a história real De uma mulher dominada pelo demônio Amiga das feras Machucada pela profunda dor de ser humana
A história real De uma mulher E um tribunal Construído ao redor do próprio corpo Pelos próprios desejos de autoflagelo
Eis a história real De uma filha de Deus Marcada pelo Diabo Uma mulher que se entrega ao silêncio Por ter medo de existir Porque o medo da vida se chama culpa E esta mulher escolheu ir para a fogueira Todas as manhãs Até o dia em que será engolida pelo cão Em nome de todas as coisas tortas
Falando um pouquinho do meu trabalho mais recente, estou escrevendo um livro de contos que abordam traumas e diversas formas de amor, não se restringindo ao romântico. Como grande parte dos escritores, não vivo da arte. Sou psicóloga e estudo traumas em profundidade. Ao mesmo tempo, como toda pessoa tenho os meus. E é do fundo dessa alma confusa que tiro ideias para as histórias. É também por conhecer e amar gente.
O primeiro dos contos que escrevi para este livro se chama Cachorros mutilados não conseguem se queixar. Conta a história de Maya, sobrevivente de um acidente grave que perde a voz e, com apoio psicológico no CAPS e afeto de pessoas queridas, aos poucos retoma sua vida, sua fala e sua capacidade de se conectar com o outro.
O segundo se chama Amores gêmeos, e conta a histórias de almas gêmeas fraternas. Layla e Jonas dividiram o útero da mãe, em placentas diferentes, e são unidos desde sempre por um amor imensurável. Assim, sobrevivem a uma infância traumática e se apoiam nos momentos mais difíceis. Mas o que acontece quando irmãos tão amigos precisam se separar?
O terceiro se chama Menino Deus e conta a história de Emanuel, um menjno de 8 anos que descobre que sua mãe tem um câncer agresssivo. É também a história de Maria Luz, sua jovem mãe, que se depara tão cedo com a finitude. E de Selene, irmã de Maria e tia de Emanuel, uma médica independentemente que nunca quis ter filhos até se encontrar diante da difícil arte de maternar sua irmã e seu sobrinho. Uma história de amor e luto que traz uma sagrada família não tradicional e disposta a fazer esforços por amor.
Por sofrer de enxaqueca, eu tenho curtido muito audiobooks. Já ouvi três do Machado de Assis e agora estou ouvindk Orgulho e Preconceito na voz super irônica de Denise Fraga. Tenho gostado de fazer audio-RE-leituras, aproveitando para perceber através de outro sentido alguns livros que já li. Jane Austen, numa crítica irônica aos costumes, desenvolvia histórias que eram mais realistas do que românticas. Penso que o audiovisual não capta tão bem esse aspecto crítico.
Diga, em voz alta, o nome das palavras. Permita que se formem diante de você, vistosas, pálidas, tortas, reluzentes. Deixe que derramem do seu livro de química as letras de uma tabela que mandaram decorar. Diga o nome do átomo da vida e perceba se ele bate mais forte que as asas de um beija-flor. Separe o beijo da flor e coloque um par de amantes para dançar. Ou um trio. Multiplique os amantes por sessenta, a idade da sua mãe. Grite a palavra velho e perceba seu próprio rosto ganhando marcas. Sussurre tempo e lance-o ao vento, permitindo que eras infinitas se formem diante de seus olhos. Assuste-se perante o infinito porque ele carrega o medo da morte e daquilo que vem depois. Converse com espíritos. Se apaixone por fadas. Deite-se no colo manso de uma sereia sáfica. Torne-se a esposa do demônio e vislumbre as inúmeras faces dele diante de você. Inclusive a mais bela, a de anjo-menino. Recite seu próprio nome como se fosse poema e brinque de ser musa com as rosas que nascerem de seus cabelos. Murmure sexo e examine com cuidado um quadro de Zeus chovendo dourado sobre Danae. Ou tentáculos saindo de sua própria vulva. Ria de si mesma. Peça ao seu amor para debruçar-se sobre você. Caia do décimo andar e pouse lentamente em um clipe de Rosalía. Cavalgue um homem. Mate alguém. Porque a palavra morte faz a noite vir. Acelera seu peito. Anuvia seu coração. E, pouco a pouco, você se encontra deitada em um caixão. É você a vítima. A algoz. E também a salvação. Com o nome das coisas você constrói galáxias e destrói universos. Você é multiversal. Pois nunca deixou de ser criança. Aquela que pintava de negro e roxo as pétalas das flores e as fazia voar feito deusas de um culto ancestral. A criança louca. Venerando a madrugada.
O terceiro livro finalizado do ano foi em audiobook. Comecei ano passado. Esaú e Jacó é um livro denso, como todos do Machado de Assis. Mas é diferente dos que já li: mais lírico, mais metafórico. Conta a história dos gêmeos Pedro e Paulo, marcada por uma rivalidade infinita - desde a divergência política até o amor por uma mesma mulher. Menos focado na personalidade dos protagonistas do que no que eles representam, a obra retrata as tensões políticas desde o império e ainda é atual. Forças conservadoras e revolucionárias seguem em guerra e, ainda assim, há pouco espaço para o povo. Os jovens irmãos representam as classes altas, o masculino, são opostos que, apesar de tudo, jamais deixam de ocupar um lugar de poder. São a tragédia de Flora, a mulher amada.
Com a ironia característica do autor, se fazendo notar principalmente nas falas do Conselheiro Aires, Esaú e Jacó merece ser lido. Indico para quem gosta de Machado e de política.
Layla e Jonas são gêmeos e cresceram em uma família disfuncional, com uma mãe distante e um pai machista e homofóbico. Ainda assim, tinham sempre um ao outro e cuidaram-se ao longo da vida. Essa é a história do meu conto Amores gêmeos, sobre almas gêmeas que não são românticas. Quero um dia alguém para ilustrar esses personagens tão queridos.
Ano passado tive um sonho em que uma pessoa disse a seguinte frase: Cachorros mutilados não conseguem se queixar.
A frase se tornou o título de um conto, protagonizado por uma jovem mulher chamada Maya. Maya sofre um acidente, perde uma pessoa querida e sobrevive a um grande trauma. A partir de então, perde a fala e passa a frequentar o CAPS. Ao longo da história, desvelam-se as vivências traumáticas da jovem, bem como são construídos caminhos de cuidado.
A minha vontade de ser uma mulher para você Magra, bela e que sabe se vestir. Mulher cujos cabelos não se embaraçam ao vento e cuja casa não se enche de poeira. A mulher bonita. A minha vontade gritante de ser como as outras. Para você. As outras, que em minha fantasia, não falham e nem falhariam. Pois que sou eu a versão feminina do Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa: A mulher-vergonha-vazio-medo Perdida Ridícula Patética
Entenda, amor, não sou deusa. Nem anjo. E, quanto mais busco no espelho, inventar-me conforme seu desejo, menos enxergo meu rosto, menos percebo minha alma, menos existo.
O amor pede isso: Um pouco menos de esforço Um pouco mais daquele tremor Que vem de não sei onde.