Toda vez que a gente ia beber naquele boteco da esquina, a esposa do dono marcava algumas cervejas a mais na comanda. Ela ficava no caixa porque o marido só confiava nela. Os dois contratavam funcionários apenas para trabalhar na cozinha ou como garçons, eles não podiam nem chegar perto do caixa. De vez em quando, um deles via que ela estava na janelinha passando pedidos para a cozinha e o chefe não estava olhando, parava em frente ao caixa, dava uma reboladinha com as mãos na cintura e saía correndo. A gente morria de rir. As asinhas de frango com o molho especial da casa eram o carro-chefe. Realmente era um tira-gosto delicioso, mas ninguém sabia o que aquele molho levava e a maioria dos frequentadores preferia nem saber. Outros bares até tentavam copiar, mas ninguém conseguia fazer igual, não acertavam o ponto na hora de fritar e muito menos na hora de preparar o molho. Quando chegávamos lá, de cara já sentávamos na mesa de ferro forrada com uma toalha de pano em xadrez vermelho e branco, pedíamos uma cerveja super gelada e uma porção de asinhas. Nossas mãos ficavam todas engorduradas e sujas de molho, assim como a boca e em volta dela, mas não existia nada igual. Depois era só nos lavarmos naquela pia minúscula na qual nossas mãos quase não cabiam direito e ficavam esbarrando no fundo. Para usar a torneira, tínhamos que segurá-la com uma mão e abrir com a outra, senão ela rodava junto e a água ia direto para o chão. Ela ficava acima do mictório e a água que descia pelo ralinho já caía dentro dele, era a "descarga". O banheiro era muito estreito, nem dava para virar lá dentro na hora de sair, tínhamos que ir andando para trás mesmo. Era o típico boteco que nós brasileiros gostamos de frequentar, bem simples, um clássico 100% nacional. O que incomodava era a mania que aquela mulher tinha de "errar" na hora de fechar a conta. Sempre vinham 2 ou 3 cervejas a mais do que a gente tinha consumido. Da primeira vez, ela disse que tínhamos perdido a conta porque bebemos demais. Passamos a guardar as tampinhas das garrafas no bolso para mostrar na hora de pagar, mas ela falava que a gente podia ter jogado algumas fora e que, assim como desconfiávamos dela, ela também tinha o direito de desconfiar da gente. A solução foi impor como condição para continuarmos a frequentar o bar que ela deixasse um engradado debaixo da mesa e as garrafas que fossem esvaziando seriam colocadas nele para conferir no final. Ela nunca mais errou na conta. A gente até poderia ter trocado de boteco, afinal de contas, existiam dezenas de outros no mesmo estilo espalhados pela cidade, mas aquelas asinhas de frango...
Acho que o “Professor” nunca havia dado aula, simplesmente se autodenominava assim. Ele apareceu um dia na cantina da faculdade e se tornou frequentador. Ficava o dia quase todo por lá, tomava café, almoçava e jantava. Não tinha nenhuma educação para comer, às vezes uma parte da comida que havia acabado de pôr na boca caía de volta no prato e na mesa, enquanto mastigava com a boca aberta e com aquele roach que subia e descia. Já conversei com ele por um bom tempo observando um fiapo de couve que estava pendurado no canto de sua boca, até cair e ficar pendurado no bolso da sua camisa. Tinha uma conversa envolvente, falava sobre tudo quanto é tipo de assunto e, embora emitisse uns assobios por causa do roach mal encaixado, conseguia prender a minha atenção. Andava mancando e levava na mão um livro escrito em alemão com um marcador de página que estava sempre na mesma posição. Gostava dos Beatles também. Um grupo considerável de pessoas, às quais chamava de “alunos”, parava para ouvi-lo. Enquanto falava, ia tomando água na pequenina tampa da garrafinha de plástico, entre uma tragada e outra num cigarro que sustentava uma torre de cinzas que nunca caía. Quando chegava no filtro, usava o finalzinho da brasa para acender o próximo cigarro. Não me lembro de tê-lo visto sem um cigarro na mão. Não bebia refrigerantes, sucos, nem bebidas alcoólicas, apenas água. De vez em quando, surgia com um esboço de alguma “invenção” sua rabiscado entre manchas de sujeira num pedaço de papel amassado e esfarrapado. Certo dia trouxe um pequeno instrumento, parecido com um compasso, que serviria para medir qualquer coisa, mediria comprimento, largura, espessura, profundidade, altura etc. Nunca explicou como funcionava. Tudo era misterioso, como se apenas ele dominasse o funcionamento daquelas coisas e o conhecimento sobre os assuntos dos quais falava. Era um “professor” que não ensinava, apenas expunha. Da última vez que conversamos, o “Professor” prometeu levar, na semana seguinte, um disco raríssimo dos Beatles que havia conseguido comprar após anos e mais anos procurando em todas as lojas, inclusive em outros países. O disco se chamaria “Cucumber Castle”. Ele nunca mais voltou à cantina, desapareceu no mundo da mesma forma que havia aparecido. Curioso sobre o tal disco raro, fui fazer uma pesquisa e descobri que, na verdade, ele não era nada raro, nem dos Beatles. Era dos Bee Gees e poderia ser comprado em qualquer loja de discos.
O clube abandonado é o ponto de encontro da molecada no final de semana, para entrar é só pular o muro. É um pântano, mas é o único clube que eles podem frequentar. E eles adoram. Já fazia bastante tempo desde que as contas ficaram impagáveis, a administração declarou falência e fechou as portas. As piscinas viraram criadouros de mosquitos, com o fundo escorregadio, coberto de lodo e a água muito suja e marrom. Numa cidade longe do litoral, não é fácil encontrar lazer que seja refrescante para a família no verão quando se é pobre. Morar perto da praia e ter isso tudo de graça é um privilégio para poucos. Já para quem só tem por perto clubes com mensalidades que não pode pagar, é muito mais difícil. Rios, lagos e cachoeiras também ficam longe demais para quem mora na cidade e não tem como ir para a zona rural. Na maioria desses lugares, o ônibus, que é a única opção para quem não tem carro, um luxo que está ao alcance de poucos, não vai. Observar tudo da sacada de um apartamento faz a gente refletir. Costumamos achar que é pouco todo o conforto e aconchego que temos, mesmo que não seja muito, mas o suficiente. Alguns de nós até podem frequentar um clube com os filhos e viajar de vez em quando para o litoral ou interior. E ainda achamos pouco. Aqueles garotos, que só querem se divertir, como todos querem na infância, voltam para as suas casas sujos, mas felizes, levam uma bronca da mãe, têm que tomar um banho bem rápido para se limpar e, depois, não têm nem um biscoito para lanchar. O jeito é esperar a janta, a sopa diária. Outra água suja. E eles se lambuzam de novo.
Sou uma pessoa que tem medo de dentista. Até o barulho da broca, mesmo fora da boca, já faz os meus dentes doerem. Enquanto estou na sala de espera, fico inquieto, não folheio revistas, não aceito copo d’água e, cada vez que escuto aquele barulho, quase vou embora. Algumas vezes já fui. É psicológico isso, não tem explicação. Quando finalmente sou chamado, primeiro finjo que não escutei, mas na segunda ou terceira vez não dá mais para fingir, tenho que ir. Antes de sentar na cadeira, puxo tudo quanto é tipo de assunto, elogio a decoração, pergunto pela família etc, até que o dentista quase me empurra na cadeira e diz: “- Então vamos lá, né?!”. Assim que me sento, meu corpo começa a ficar todo duro, um calafrio passa pela minha espinha e todos os pelos do meu corpo ficam arrepiados. Mas é quando o encosto vai abaixando e a cadeira vai subindo que as mãos se travam nos braços dela e o suor começa a escorrer, parecendo que eu acabei de sair do banho e ainda não me enxuguei. Foi então que surgiu a pergunta que mudou tudo:
- O que você quer assistir? - Como assim? - Na TV, enquanto a gente faz o seu tratamento. - Que TV? - Aquela ali no teto. - Você tem uma TV no teto?! - Sim, agora todos os consultórios de dentista têm. - Tem tanto tempo que não vou num dentista que nem sabia, isso pra mim é novidade. - Então, o que vai querer assistir? - Nada. Nada não. Obrigado.
Pronto! Agora eu tinha um novo medo: o de a TV cair em cima de mim. Tentei aparentar naturalidade enquanto a gente estava conversando, mas não sei se consegui disfarçar. Acho que quanto mais a gente tenta, mais a gente acaba demonstrando. Desse momento em diante, eu já não conseguia pensar nem enxergar outra coisa a não ser a TV. Era como se eu estivesse dentro de um quarto totalmente vazio onde só tinha eu, deitado na cadeira, e a TV, no teto, pronta para cair. Às vezes até parecia que ela dava umas balançadas, como se fosse uma pessoa ameaçando me dar um soco. Uma voz disse: “- Prontinho, acabou!”. Era o dentista. Ele já tinha terminado o meu tratamento e eu não tinha percebido. Não senti nada. Não escutei nada. Nem a broca!
Não sei como um homem daquela idade aguentava ficar tanto tempo agachado. Quando alguém perguntava quantos anos tinha, ele mandava contar quantas rugas tinha na cara que só assim iria conseguir saber. Ele nunca falava a sua idade, mas dizia que tinha muita experiência, que a saúde estava em dia e que ainda "comparecia com a patroa" e que isso era graças a uma garrafada que preparava com uma mistura de plantas e raízes que aprendeu com o pai e que "dotô" nenhum conhecia, mas que se a gente quisesse comprar, ele vendia os ingredientes certos e ainda ensinava a preparar. Aos sábados, quando andávamos pelo centro da cidade e passávamos pela praça principal, já ouvíamos logo aquela voz meio metálica que vinha do alto falante, um daqueles antigos que eram mais comuns de se ver no alto de um poste ou em cima da kombi que vende ovos, que funcionava ligado a uma bateria de carro e a um microfone que ficava preso no grosso fio de energia que foi entortado para formar um pequeno círculo em volta dele e outro maior que era encaixado no pescoço do anunciante. A voz dizia: "- Psiu! Ei, você!", e continuava, ora oferecendo a solução para diversos problemas de saúde, ora garantindo que só ali se encontrava o verdadeiro "Viagra Natural". Da primeira vez que comprei uma planta para fazer chá, foi um pacová. Eu estava com uma azia que não passava nunca, e como se tivesse adivinhado, foi exatamente o que o velho raizeiro anunciou no alto falante naquele dia, exatamente na hora que eu estava passando. Achei tão curiosa a coincidência que acabei comprando o seu produto. Durante uma semana eu tomei aquele chá e finalmente me vi livre da minha queimação. Meu ceticismo em relação à medicina popular havia acabado. Da segunda vez, minha esposa passava por uma das piores cólicas de sua vida e eu enfrentava a pior TPM de todos os tempos. O velho "receitou" carapiá, um "santo remédio" que a avó e a mãe dele usavam quando estavam "naqueles dias" e era a única coisa que funcionava, elas ficavam bem, cheias de disposição para o trabalho na roça e "calminhas, calminhas". Comprei uma sacola lotada até a boca daquilo e levei para casa. O preparo do chá era bem simples: ferver, coar, esperar esfriar e tomar. Segui os passos, pus em um copo e ofereci à minha esposa, que já foi logo dando uma golada e, logo em seguida, cuspindo tudo no chão: "- Credo! Que troço horrível! Amarga igual a um não sei o que!". Falei para ela que remédio não é para ser gostoso, é para curar e que o meu também não era bom, mas funcionou. Ela tomou aquele chá todos os dias até o final "daqueles dias". Como não há nada tão ruim que não possa piorar, piorou. O mau humor não passou, pelo contrário, agora havia se juntado com a raiva por ter tomado aquele chá amargo que não funcionou. Sobrevivi, mas nunca mais volto naquele raizeiro.
Na minha infância, no auge da minha inocência, eu pensava que antigamente tudo era preto e branco, porque é assim que a gente vê tudo nas fotos daquela época. Na verdade, de acordo com o que os mais velhos contam, ao contrário disso, tudo era colorido: as roupas, os carros, as casas e a natureza, que convivia com tudo e todos. Muito mais colorido que nos dias de hoje. Mais gente trabalhava no campo ou em espaços abertos, hoje trabalhamos fechados sem ver nada além de paredes. As poucas cores que vemos chegam pelas telas dos computadores ou celulares. Para qualquer lado que olhamos, tudo é asfalto e concreto, ruas e mais ruas, prédios e mais prédios. As casas foram diminuídas e empilhadas. Carros pretos, brancos e cinza, soltando uma fumaça cinza. Quase não sobrou mais espaço para a natureza. Eram tantas cores… mas as câmeras não conseguiam capturar. Agora temos câmeras capazes de capturar muitas cores, mas a vida não tem mais a mesma cor que tinha antes.
Entrei no ônibus, minha poltrona era a da janela, coloquei minha bagagem de mão no bagageiro que fica acima das nossas cabeças e sentei. Hoje em dia as janelas dos ônibus não abrem mais, a gente pode até viajar curtindo a paisagem, mas faz falta sentir os cheiros e ouvir os ruídos dos lugares por onde passamos e a sensação gostosa do vento refrescante batendo na cara, estamos presos numa caixa hermeticamente fechada, com um ar condicionado sempre mais frio do que o necessário e um silêncio absoluto. Uma senhora que aparentava ter acabado de entrar na terceira idade subiu os degraus, passou pela porta que levava da cabine do motorista ao interior do ônibus, olhou para o bilhete de passagem, depois para as plaquinhas que ficam no bagageiro indicando o número das poltronas, voltou a olhar para o bilhete, depois para mim, balançou a cabeça afirmativamente, me pediu licença e se sentou. Me desejou boa viagem e foi pegando seus fones de ouvido, respondi desejando o mesmo enquanto ela os colocava. O motorista passou pelo corredor conferindo se o número de passageiros à bordo batia com o número de bilhetes de passagem que foram entregues a ele, voltou, nos instruiu sobre o uso do cinto de segurança (que ninguém usa), falou das paradas que seriam feitas durante a viagem, nos desejou boa viagem, entrou na sua cabine, fechou a porta, deu a partida no ônibus e começou a nos conduzir ao nosso destino. Assim que pegamos a estrada, comecei a ouvir um barulho como se alguma pessoa estivesse tentando abrir uma embalagem, olhei para o lado, era a minha vizinha de poltrona tentando abrir uma bala, mas suas unhas excessivamente compridas a atrapalhavam nesta difícil tarefa, pois a bala era muito pequena diante daquelas enormes espadas vermelhas. Voltei a olhar para a estrada, mas continuava a ouvir aquele barulhinho, era uma situação um tanto quanto engraçada. Algum tempo se passou e finalmente o barulhinho cessou, pensei comigo mesmo: "Que luta, hein?! Como a busca pela 'beleza' é capaz de transformar uma tarefa tão simples literalmente em uma peleja". Foi então que a situação começou a perder a graça. De início era só mais um barulhinho como o da embalagem sendo aberta, só que este se parecia mais com o barulho de um botão daqueles que a gente fecha apertando, mas em meio a todo aquele silêncio o ruído foi se transformando em um estrondo, como se fosse um bate-estacas. Fiquei prestando atenção para ver se descobria de onde ele vinha. Era a bala que aquela senhora estava chupando, ela não a deixava quieta, fazia com que rodasse a boca toda e ficasse batendo nos seus dentes, eles eram as "estacas". É o tipo de coisa que normalmente a gente deixa para lá, nem presta atenção, mas no contexto em que eu estava não havia como não ouvir. Mesmo assim, deixei para lá, uma hora aquela bala iria acabar mesmo. Passados uns 10 minutos, o silêncio voltou a reinar. A bala acabou, eu sabia, e nem demorou muito. Não demorou muito também para eu começar a ouvir novamente o barulhinho da embalagem de mais uma bala sendo aberta. Mais 10 minutinhos daquele barulho chato da bala batendo nos dentes? Dá para aguentar, passa rápido, tiro de letra. Só que não foi bem assim, não passou tão rápido, pois agora o bate-estacas se intercalava com uma pistola de rebite. Cada vez que a bala era pressionada no céu da boca e chupada, a língua produzia um som como um tiro ao se desgrudar de lá, era o vácuo que se formava. Estes 10 minutos foram mais longos que os primeiros. Então, aquela mão com longas unhas vermelhas se enfiou na bolsa e sacou mais uma bala, depois outra, e mais outra. Acho que ela tinha um saco de balas lá dentro. Sempre que eu achava que estava acabando, ela abria outra e enfiava na boca, cada vez com mais destreza. Parecia que ela havia aprendido um macete para abrir as embalagens, as unhas não atrapalhavam mais. Aquilo estava virando uma tortura, mas eu não podia mudar de assento, muito menos sair do ônibus. Deu vontade de tomar o saco dela e jogar pela janela, mas os ônibus de hoje em dia não têm janela. Depois deu vontade de jogar aquela mulher pela janela, mas os ônibus de hoje em dia não têm janela. Deu até vontade de pular pela janela, mas os ônibus de hoje em dia não têm janela.
Nos anos 90, os bailes para dançar tocavam principalmente Dance Music, mas um outro estilo estava cada vez mais presente, o Freestyle, que também era chamado de Miami Bass. Todo mundo que é dessa época sabe quem são Tony Garcia, Stevie B e Afrika Bambaataa. Mesmo quem não sabe, pelo menos cantarola uma ou outra de suas músicas. Até quem não gostava. Nessa época, quem era adolescente ficava doido para completar 16 anos e poder sair sozinho (sem os pais) à noite, mas, para isso, era necessário convencê-los a ir com a gente ao Juizado de Menores, preencher e assinar uma autorização. Depois de conferir a papelada, o Juizado confeccionava uma carteirinha com a nossa foto, nossos dados e a autorização. Assim, a gente já estava liberado para ir nos shows e bailes, mas tinha que esperar o dia da mesada e insistir muito para os nossos pais deixarem. Quando comecei a ir em bailes, eles começavam às 19h e iam até às 22h. Acho que esse horário era por causa da idade da gente, o que, também, não nos permitia entrar na área do bar, que ficava no andar de cima. A gente tinha que beber nos bares pelo caminho para depois entrar e, quando o baile acabava, a gente voltava para os bares. O que prevalecia nesses bailes ainda eram os cantores internacionais, mas já surgiam os primeiros remixes dessas músicas feitos por DJs brasileiros, como o DJ Marlboro, por exemplo. Depois vieram os primeiros MCs brasileiros, que gravavam suas músicas usando as batidas estrangeiras prontas, algumas eram só versões mesmo. Surgia, assim, o Funk Melody e o Charme, um mais dançante e o outro mais romântico. Enquanto Latino, Copacabana Beat, MC Marcinho, Claudinho e Buchecha, entre outros, cantavam seus sucessos em todas as rádios e programas de TV, equipes de som, como a Furacão 2000 e a Pippo's, promoviam bailes gigantescos com vários DJs tocando montagens e MCs cantando. Foi assim que surgiram os paredões de som, disputas de Lado A e Lado B, rivalidades e brigas e os bailes começaram a ser proibidos em todo o Brasil. Os donos das equipes, que agora já eram empresários, lutaram pela liberação dos bailes, com regras para os frequentadores, e por uma legislação. Eles conseguiram voltar a promover seus eventos, mas naquele momento já estava surgindo o Funk Proibidão, que tocava em bailes clandestinos e estava se popularizando. No Proibidão, o que reina são os palavrões e a descrição explícita que o MC faz de sua vida íntima. Acabaram as letras, acabou a melodia e acabou, também, o meu gosto por este estilo musical. Restaram apenas, numa gaveta do guarda-roupa, uns CDs dos anos 90, que às vezes ouço no meu antigo Discman.
Ele surgia de repente, assim "do nada", no calçadão da cidade. Trazia toda uma parafernália: uma haste de aço que sustentava um aro de bicicleta com várias facas, uma mão de borracha, um jornal, um saco de pano que parecia um coador de café e uma caixa de madeira com tampa. Com uma garrafa pet cheia de água, controlando a quantidade que saía com o dedão, demarcava um círculo delimitando até onde as pessoas que paravam para assistir, podiam se aproximar. Todo mundo que passava por ali parava, nem que fosse só para ver o que estava chamando a atenção de tanta gente, mas a maioria ficava por mais de cinco minutos, alguns até se atrasavam para o trabalho, para um compromisso ou para a aula porque ele anunciava que iria pular pelo aro com as facas arriscando sua vida ou que iria fazer uma mágica, mas antes contava umas histórias da época que era criança e a família passava fome ou de como um mágico famoso tinha criado aquele truque que ele iria mostrar. Um auxiliar ia passando por nós com um chapéu nas mãos: "- Quem puder contribuir, pode dar qualquer quantia, o que o seu coração mandar, porque eu tenho certeza de que Deus vai te dar em dobro. Quem não puder dar nada, não tem problema, não, pode continuar assistindo do mesmo jeito". Quando ele terminava de passar por todos os espectadores, pegava a garrafa pet e novamente fazia o círculo que separava o espaço "deles" do "nosso". Feito isto, ia até a caixa de madeira, levantava a tampa, tirava lá de dentro uma sacola cheia de pequenas latinhas metálicas e abaixava novamente a tampa. Novamente ele vinha passando por nós enquanto o outro anunciava: "- Nessa pequena latinha está um dos remédios mais potentes que existem lá no Norte, é a Banha do Peixe Elétrico. Ela cura dor de barriga, dor de cabeça, dor nas juntas, é bom pra bronquite, asma, tira inflamação do ouvido, trata unha encravada entre outras, é só passar no local da dor ou ferver na água colocar numa bacia e fazer a inalação com uma toalha cobrindo a cabeça". O auxiliar passava um pouco nas palmas das nossas mãos e mandava cheirar do outro lado para sentir o cheiro porque ela atravessava a pele, a gente cheirava e sentia um cheiro parecido com o do Vick VapoRub, que, na verdade, era tão forte que, mesmo estando na palma da mão, dava para ser sentido até de uma certa distância. Era um "remédio" bem caro. Finalmente, depois de tanta enrolação, ele havia decidido fazer uma mágica: "- Mãozinha! Anda um pouquinho pra mim!", bateu palmas e aquela mão de borracha que estava no chão se movimentou para a frente. Em seguida, pegou o jornal, entornou um pouco de água no meio, o folheou e depois o virou devolvendo a água para o copo. Ao terminar, tirou o relógio do braço, enfiou no "coador de café", pôs no chão e bateu várias vezes com um martelo, depois chacoalhou as peças soltas do relógio no chão, as pegou, pôs de volta no saco de pano falou as palavras mágicas: "- Aite naite fraite, naite fraite de fisolofaite" e eis que lá estava o relógio inteirinho, exatamente como era antes. Para encerrar, ele disse que faria o número mais perigoso de todos, aquele que poucos tinham coragem para realizar, saltar pelo aro com as facas extremamente afiadas e demonstrou passando uma folha de caderno por uma delas, que a dividiu em duas, e jogando um tomate, que se dividiu em duas metades, que caíram do outro lado. Em seguida, tirou de dentro da caixa de madeira um punhado de pequenos saquinhos de pano branco, cada um costurado com uma linha de cor diferente, os entregou na mão do assistente, ficando com apenas um, que levantou para que todos víssemos enquanto dizia: "- Isto é um patuá, um amuleto pra você levar no bolso, dentro da carteira ou na bolsa pra te proteger e dar sorte. Eu queria distribuir um pra cada um de vocês, mas infelizmente hoje eu tenho poucos aqui e só vou poder dar como agradecimento pra quem der mais de dez reais pra ajudar a gente". Dito isso, se dirigiu ao aro e saltou quase que em câmera lenta e sem esbarrar em nenhuma das facas. Ele realmente era bom, não era só enrolação. Caiu do outro lado dando uma cambalhota e já começou a recolher suas coisas e a agradecer a todo mundo que ficou para assistir o show. Num instante ele já tinha sumido, desaparecia por meses ou anos e, quando menos esperávamos, aparecia novamente "do nada". Cheguei atrasado de novo.
Há muitos anos eu não ia visitar o sítio da família, mas nesse final de semana, meu pai resolveu reunir a família toda lá. Ele foi antes, na sexta, de manhã cedinho, para garantir que, quando os outros chegassem, tudo já estaria pronto. Ele gosta que as coisas estejam sempre funcionando direitinho e de garantir que não vai faltar nada. No sábado, logo depois do café, eu, minha esposa e os meninos entramos no carro e partimos para lá também. Quando chegamos no trevo da bica, paramos para beber água. Ah! Aquela água da bica era incomparável, tão fresquinha que era quase gelada. Os meninos não quiseram tomar daquela água, queriam da mineral de garrafinha. Por sorte tinha uma barraquinha por ali que vendia. Aproveitei para comprar também um pacote de mariolas. Liguei para o meu pai para tirar algumas dúvidas sobre o caminho até lá. Ele me explicou e pediu para levar alguns maços de cigarros. Disse que havia uma vendinha no caminho que tinha de tudo. Voltamos para o carro e fomos para lá. Logo na entrada do velho “secos e molhados” havia um saco de fubá moinho d’água, outro de açúcar mascavo, um de arroz e uma gaiola pequena com umas cinco galinhas espremidas. No teto, um ventilador cinza rodava bem devagarinho. Pendurados numa barra de ferro ficavam algumas linguiças, chouriços e chinelos Havaianas em sacos plásticos transparentes. Nas prateleiras, várias garrafas de cachaça com caranguejos, plantas ou raízes dentro, rolos daquele papel higiênico rosa em embalagens individuais também de papel, detergente ODD, água sanitária, sabão em barra e uma infinidade de outros produtos amontoados e meio empoeirados. A mistura de tudo isso resultava num cheiro muito característico que só quem já visitou um lugar desses conhece. O balcão de madeira já estava lá há tantos anos que, de tanto debruçarem e apoiarem as mãos, parecia ter recebido uma aplicação de betume. Nele havia uma estufa com salgados, torresmos, ovos cozidos azuis e rosas e um tabuleiro de frissura. Do outro lado, uma antiga balança de ponteiro vermelha da Filizola e um baleiro giratório de três andares todo de vidro e com suas tampas de alumínio. Enquanto eu o girava, ouvia aquele rangido agudo e via a grande quantidade de balas, pirulitos e outros doces que já não via mais desde meados dos anos 90: pirulitos do Zorro, de guarda-chuva, balas Chita, Dadinhos, marias-moles em casquinhas de sorvete (que sempre estavam murchas), suspiros coloridos, balas Soft, pirocópteros, mini-ioiôs, dentaduras de vampiro, apitos, cornetinhas, anéis de plástico e línguas-de-sogra. O dono da venda me reconheceu e perguntou:
- Como cê tá, rapaz? Cê tá sumido! - Tô bem. E o senhor? - Dentro do possível, né? A idade chegou. Tá precisando de que? - Me dá meia dúzia de maços de cigarro e o troco pode ser uns docinhos sortidos e uns brinquedinhos pros meninos. - Não vai me dizê que agora cê tá fumando! - Não moço, é pro meu pai! - respondi como se fosse uma criança. - Ah, bem! Faz muito bem! Obrigado e boa viagem! - Obrigado ao senhor!
De volta ao carro, entreguei o saquinho de papel com os docinhos sortidos e brinquedinhos para meus filhos. Um deles pegou, pôs na tampa do porta-malas sem nem olhar o que tinha dentro e voltou a jogar no celular. Pedi que me devolvessem o saquinho. Peguei, enfiei a mão, tirei um pirulito do Zorro, abri e pus no canto da boca. Uma delícia! Quando acabou, fui mastigando o palitinho até chegarmos no sítio.