Lá na roça, água de beber é na moringa. De manhã cedo, já tem que ir buscar na bica da mina d'água. Ela sai tão geladinha e é tão pura que não dá para resistir, já juntamos as mão em forma de concha (como as de feijão, não as do mar) e levamos até a boca. É uma água que tem até sabor, mas não como as aromatizadas, é o sabor da terra e das pedras pelas quais ela passou no seu caminho até o pedaço de cano que alguém adaptou ali várias décadas atrás. Sempre escorre um pouco pelo queixo, descendo pelo pescoço até o peito, é uma sensação muito gostosa e refrescante. Com a moringa já cheia, é hora de levá-la de volta para a casa. Dá para sentir que ela ficou gelada quase que instantaneamente e úmida por fora. É o barro, material do qual é feita, recordando suas origens, ele é quem vai manter a água por bastante tempo naquela temperatura natural, fresca, quase gelada e realçar o leve sabor de terra. O lugar daquela maravilhosa "garrafa", tampada com um copo, também feito de barro, é em cima da mesinha de canto da sala, onde ficavam mais um copo, este de alumínio, uma caneca esmaltada e uma garrafa de café, daquele cheiroso, colhido, torrado e moído ali mesmo e adoçado com açúcar mascavo. É bem comum um vizinho aparecer para prosear e tomar um cafezinho com biscoitos de polvilho e de araruta, broa, queijo e pão, tudo feito em casa. Fala-se sobre a família, o filho que foi morar com a tia na cidade para estudar, sobre as colheitas, a chuva, o sol, as vacas que dão mais leite, o riacho que corta as terras de um ou de outro e tudo que é assunto que for aparecendo. Esse papo pode durar muitas horas e só terminar com o sol já sumindo lá longe no horizonte. Quando começa a escurecer, é hora de ir embora, pois ainda dá para enxergar o caminho de volta para casa pela estradinha de chão batido. Fica um "obrigado pelo café e pela prosa", um convite para “ir lá também um dia” e um sentimento de pena pelo dia estar acabando. Na roça, a despedida parece ser mais triste porque sempre vem depois de uma alegria que também é bem maior.
- E aí cara, trouxe a parada? - Tá aqui! - Cara! Que legal! Isso é a coisa mais legal que eu já vi na minha vida! - É mesmo. Não te falei que era maneiro? - Hehe. Demais cara! Mas como que a gente vai fazer pra detonar ela? - Acho que vou bater nela com uma pedra. - Mas e se ela explodir e te machucar? - Explode nada, a gente mira pro outro lado e tá tranquilo. - Cê tem certeza? - Claro! Cê tá com medo, cara? - Não, claro que não! Só tô preocupado com você. - Pode ficar tranquilo que não vai acontecer nada comigo. - Beleza então. Vai lá! - Porra! Essa merda não detona. - Cê não deve tá batendo com bastante força. - Então olha agora. Vou bater com toda a minha força. - Ah! Cê tá muito fraquinho. Me dá essa pedra aqui! - Ué! Cê não tava com medo? - Já falei que não! Eu só tava preocupado. - Então toma aqui! Quero ver se cê é mais forte que eu. - Cê não tava batendo direito. Vou te mostrar como que eu tava falando pra bater. - Vai lá, fortão! - Vou mesmo! - Ih! Alá! Não é de nada também! Tirou a maior onda e na hora H nada. - Ah! Vai a merda! - Como que a gente vai fazer pra essa porra atirar? - Sei lá, caralho! - Que que cê acha da gente pôr na linha e esperar o trem passar em cima? - É! O trem tem mais força que essa sua mãozinha de boiola. Hahaha. - E a sua?! Cê também não conseguiu, sua bichona. Hahaha. - Vamo deixar de bobeira e vamo pro centro pôr essa merda na linha do trem logo! - Beleza! Vamo lá! - Agora não, vamo depois do almoço. Já tá quase na hora, senão minha mãe vai me encher o saco. - Beleza! Vou almoçar também. - Então a gente encontra depois do almoço na pracinha. - Tranquilo. Falou! - Falou!
(Tarde)
- E aí? Vamo lá? - Porra! Cê demorou pra caralho! Já tem meia hora que eu tô aqui! - É que depois do almoço tive que dar uma cagada. - Hahahaha! Cagão! - Cê não caga, não, porra! - Tô zoando, cara! Cê pega pilha fácil, hein?! - Bora pra lá então! - Bora! - É aqui ó! Melhor lugar pra pôr. O barulho do trem e a buzina não vai deixar ninguém ouvir. - Vem cá pra trás do muro, mas despista pra ninguém perceber. - Esse trem tá demorando muito. Será que hoje ele não passa? - Passa sim. É que a gente tá nervoso, aí parece que demora mais. - Mas eu não tô nervoso. Eu sou macho. - Até parece. - Sou mesmo! Mais macho que… - Olha lá ele! - Até que enfim! - Não fica olhando. Faz de conta que a gente tá fazendo outra coisa. - Não tô olhando. - Tá sim! Cê tá dando na pinta pra caralho! - Tá chegando! - Vou ficar olhando pro outro lado. - Eu não. Quero ver o que vai acontecer. - Porra! Que barulhão! E aí, como foi? Deu pra ver? … - Responde cara! Levanta cara! CARAAAAAAAAAAAA!
Um senhorzinho se aproximou de mim na fila do banco e puxou conversa, daquele jeito que sempre costumam fazer: “- Tá quente hoje, né?”. A gente responde e, a partir daí, o assunto nunca mais acaba. Outra coisa que também nunca mais acabava, era o arroz que ele mastigava. Sabe aquele grão eterno que fica na ponta da língua de alguns idosos e a gente acaba vendo porque eles mastigam, mastigam, mastigam e depois põem a língua para fora da boca, parecendo até que querem mostrar aquilo para todo mundo, e ele ainda está lá intacto? Como pode uma coisa ser mastigada tantas vezes e nunca acabar? A gente tenta focar na conversa, mas não dá, a nossa atenção fica naquilo, tentando resolver esse mistério. Ele não parava de falar, e a fila não andava. A fila não andava, e ele não parava de falar. Falava, falava, falava e falava mais um pouco. Eu fingia que estava escutando e entendendo por educação, só balançando a cabeça num “sim” contínuo. Tudo entrava por um ouvido e saía pelo outro. Às vezes eu ouvia um “naquele tempo que era bom”, “na minha época era muito diferente” e outras frases parecidas. Eu estava alí contra a minha vontade, doido para resolver logo um problema na minha conta. Não dava para ficar prestando atenção nas histórias da vida dele. Finalmente, consegui chegar ao balcão e pegar uma senha para o atendimento. Entrei na sala de espera. Lá, pelo menos, tinha lugar pra sentar. Uma sala cheia de idosos, eram tantos que olhei para a minha senha e pensei que eu é que deveria ter recebido uma preferencial. Hoje em dia ninguém mais vai ao banco, todo mundo resolve tudo no conforto do seu lar, direto do aplicativo de celular, mas as pessoas idosas têm dificuldade com tecnologias e, por isso, as agências de banco passaram a ser quase que exclusivamente para eles. Mas, para o meu azar, a minha conta deu problema, e era do tipo que só dá para resolver pessoalmente na agência. O senhorzinho, que eu já tinha apelidado mentalmente de Seu Zé do Arroz, como já era esperado, foi chamado antes de mim… preferencial. Tirou um monte de papeis amarelados de dentro de uma daquelas sacolas plásticas recicladas meio acinzentadas que têm um cheiro ruim e pôs na mesa. Começou a falar batendo com a ponta do dedo indicador em cima da pilha de papeis. Pela distância não dava para escutar o que ele dizia, mas dava para ver que falava um pouco e parava para dar mais umas mastigadas no arroz. O atendente olhava fixamente para ele, provavelmente estava prestando bastante atenção no que escutava para tentar ajudar. Para a minha surpresa, assim que o atendimento do Seu Zé terminou, eu fui chamado. O atendente me desejou boa tarde e perguntou se eu tinha visto o senhor que ele atendeu antes de mim. Eu disse que sim e que tinha conversado um tempão com ele na fila. Ele continuou: “- Você reparou no grão de arroz que ele fica mastigando? Não acaba nunca!”.
Uma mão áspera e meio pegajosa me puxou pelo braço. Olhei para ela e vi que estava muito suja e era cheia de anéis. O pulso carregava várias pulseiras e fitinhas. Escutei um daqueles estalos que a pessoa faz com a língua enquanto tenta tirar algo que ficou agarrado entre os dentes. Fui levantando a cabeça até conseguir ver aquele rosto com uma maquiagem muito pesada que dividia espaço com a sujeira, uma mistura de poeira e suor, que ficava agarrada nas rugas das bochechas, principalmente naquele bigode chinês. Do meio daqueles lábios cobertos por uma camada exageradamente espessa de batom vermelho, mesma cor do lenço que ornava a cabeça, reluziam dentes dourados que se intercalavam com outros que um dia talvez já tenham sido brancos. Uma língua extremamente grande se esfrega no canino superior direito, que era de ouro, e retorna para dentro daquele Mar Vermelho, que se abre emitindo uma voz bem rouca: "- Tenho uma coisa muito importante para te contar sobre o seu futuro". Antes que eu conseguisse dizer que não gostaria de saber sobre o meu futuro, uma de suas mão já estava segurando uma das minhas, enquanto o indicador de sua outra mão, com um esmalte já descascando e também vermelho, percorria a palma da minha. Disse que podia ver fortuna, mas que a morte rondava. Naquele momento, um dedo imundo me tocando me preocupava mais que a morte e não havia fortuna que pagasse a liberdade da minha mão. Dei um puxão com bastante força, me libertando daquelas garras longas e afiadas e saí andando. Apertei o passo para tomar o máximo de distância possível e não ser alcançado. Olhei para trás e vi que ela se distanciava, seguindo na mesma velocidade que eu, mas na direção oposta. Tive a impressão de que estava fugindo de mim. Pensei tê-la machucado ao puxar meu braço, mas a sensação de alívio falou mais alto que a minha empatia. Segui para casa. Logo que cheguei, fui direto para o banheiro, tinha que limpar toda aquela imundície que estava grudada no meu corpo. Tirei minha roupa, meu escapulário, mas, quando fui tirar meu anel de formatura, já não o tinha mais.
O doce de leite ninho que era vendido nos botecos na minha época tinha gosto de infância, talvez seja por isso que até os dias de hoje ele é uma das lembranças mais vívidas que eu tenho da minha. Eu passava boa parte do dia na escola, mas sempre dava tempo de encontrar com os amigos que moravam na minha rua para brincar ou simplesmente ficar sentado no passeio conversando. Brincávamos de todos os tipos de pique que existiam, jogávamos bola, fazíamos guerra de mamona, pegávamos frutas nas casas dos vizinhos e conversávamos sobre os mais diversos assuntos: professoras chatas x professoras legais, o último episódio de um desenho animado que todos assistíamos etc. Estávamos sempre de short, camiseta e chinelo e os nossos pés estavam sempre pretos, principalmente entre os dedos. Nós éramos moleques, tanto os meninos quanto as meninas. O dono do boteco que ficava no final da rua era amigo do meu pai, ele me deixava pegar algumas coisas e anotava na caderneta para pagar depois. Todo final de semana meu pai ia pagar a conta e quase caía para trás quando via a quantidade de doces de leite ninho. Eu chamava os amigos e íamos todos juntos lá para comer. Aquele era o melhor de todos, e olha que eu já havia experimentado muitos, em qualquer lugar que eu fosse e que tinha, eu comia. Virei especialista na degustação desse doce, ele tinha que ser mais amarelado, mais molinho e derreter na boca, nunca aquele esbranquiçado, que era duro como pedra e só dava pra sentir o gosto do açúcar, pois tinha muito, por isso sua cor era diferente. Com o passar dos anos, fomos crescendo, as responsabilidades foram aparecendo cada vez em maior quantidade e o tempo parou de sobrar. Alguns dos amigos ainda moram na mesma rua e dá para dar pelo menos um "oi" e dizer que "temos que marcar alguma coisa um dia desses", outros se mudaram para outro bairro, cidade ou país e dois ou três já se foram. O doce de leite ninho sumiu dos botecos e está cada vez mais difícil de achar, mas sempre que acho, eu como, ainda tenho essa mania e, enquanto degusto, reclamando por estar muito branco e duro, vou me recordando da época em que ele e a vida eram mais macios e tinham outra cor.
Lá pros lados da França De onde vem a melhor cachaça Raspa árvore e sai borracha Ninguém nunca se cansa Comeu e encheu a pança Deita, puxa um ronco e relaxa
Queijo que vem do litoral Puxa muito no sal Tem até espuma de onda Derruba até anaconda Que não toma Sonrisal Vai parar no hospital Doutor Pedro Álvares Cabral
Quem não come carne de porco Come muito ou come pouco Toma um litro de água de coco Comer buchada de bode Não tem bucho que não fede Aí sim você pode
Tinha uma história na Bíblia então Escrita num papel de pão Bem lá no começo Que Deus criou um beiço Com Eva e Adão Por ser uma fruta Que comeram inteira Sem deixar nem uma beira Pra depois de tanta luta Comer também o patrão Como vingança foi expulso Com Eva sem fazer o buço E foi embora com a cobra na mão
Fui daqui pra Zoropa Seguindo uma rota Que dá pra ir à pé Pela gruta de Maquiné De carro ou de carré Só não dá de carrapé
Fui do Peru ao Butão No mapa, com o dedo da mão No navio de Dom João Lázaro também tava lá Disse que a viagem foi de matar
Fomos andando à pé de avião Com a sandália na mão Porque não tinha carro não Plantando bananeira anda mais Deixa o zotro pra trás Lá na fila do gás
Em pleno Vaticano Encontrei Seu Lunga Ele tava reclamando Que fizeram uma pergunta E a resposta era bobeira Disse que queria ser batuta Assim como Zé Limeira
"Um homem sem chifres é um animal indefeso" Escreveu Pero Vaz de Caminha quando foi preso Dom Pedro leu e não acreditou Fez mais, xingou Disse que tinha espada Para satisfazer sua amada Enfiou nela e em mais um monte Até na minha, não tive sorte Com tanta força que ela morreu Agora o viúvo corno sou eu Quando Lampião tentou me matar Muito atirou mas só conseguiu errar Só não morri com tiros de tantos calibres Porque pude me defender com meus chifres