A raquete de matar pernilongo me proporciona um certo prazer. Confesso que acho esse prazer um tanto quanto estranho, mas sei, também, que o compartilho com muitas outras pessoas. Lá no meu prédio mesmo, já ouvi aquele estalo que ela produz quando algum inseto encosta na sua trama eletrificada vindo de janelas de diversos apartamentos. Tem dias que parece até que estou jogando tênis com um dos meus vizinhos, eu dou uma raquetada de cá e escuto o estalo da raquete dele de lá. Outros dias tenho a impressão que estou ouvindo metralhadoras. A responsável pelo desenvolvimento dessa raquete deve ser a indústria do entretenimento, que quis trazer a emoção dos videogames para a vida real. Eles pensaram em tudo: elementos do esporte, de jogos de estratégia e de guerra. Caçamos sem precisar de uma licença, nem curso para aprender a utilizar uma arma de fogo. É uma "diversão" que ajuda a descarregar nossa raiva, sede de vingança e a suar um pouco, assim como no esporte. Existe um ditado que diz que "a vingança é um prato que se come frio", mas quando se trata de pernilongos, a minha vingança é em forma de churrasco. Já disse que eu mesmo acho estranho, mas o prazer de ver aquele mosquito agarrado na raquete enquanto a gente segura o botão e ele vai torrando, deixando subir uma fumacinha, inseticida nenhum é capaz de proporcionar. Sou sádico? Sou! Mas esse bicho também é. A gente acaba de espantar e ele volta para a nossa orelha. Uma picada na perna ou no braço é ruim, coça, mas o zumbido na orelha é só para atrapalhar a gente a dormir mesmo, ele nem pica ali. Só estou jogando o jogo dele.
Não me lembro bem se o meu primeiro contato com o álcool foi através do Biotônico ou do mimeógrafo. Eu era muito novo e algumas memórias do início das nossas infâncias acabam se perdendo. Ficam só alguns fragmentos e as histórias da família. Minha mãe conta que eu era “ruim de comer”, por mais que ela tentasse, nunca conseguia me fazer comer nada. A solução foi apelar para o Biotônico. Era só tampar o nariz e enfiar goela abaixo para abrir o apetite. O gosto era meio estranho e forte, mas com o tempo fui me acostumando e depois passei até a gostar e já pedia: “- Manhê! Me dá cachacinha?”. Esse apelido era muito comum, algum adulto lá em casa experimentou e falou, mas depois descobri que as outras crianças também chamavam ele assim. Mais tarde, cheguei pessoalmente à conclusão de que o gosto era bem parecido mesmo. Assim como um dia eu descobri que o Biotônico tinha aquele gostinho de cachaça e passei a desconfiar que tinha álcool alí, os órgãos de fiscalização também desconfiaram, fizeram testes e descobriram que realmente tinha. A fórmula teve que ser mudada para poder continuar vendendo. Já no caso do mimeógrafo, este não me foi apresentado em casa, foi na “rua”, ou melhor, na escola. Os professores pegavam um pacote de Chamequinho, que os nossos pais tinham que levar todo início de ano letivo, e uma garrafa de álcool, colocavam cada um no seu devido compartimento, o “original” da prova na bandeja e começavam a girar a manivela, por isso diziam que iam “rodar” a prova. A folha entrava branca e saía uma cópia quase perfeita daquele “original”, só que da cor azul e com um cheiro muito forte de álcool. Descobrimos que cheirar aquelas folhas “dava onda”, a gente ficava meio tontinho, era o “barato” da molecada. Com o tempo, o mimeógrafo foi sendo superado pela tecnologia, principalmente quando ela começou a baratear. As cópias ficaram mais fiéis aos originais, inclusive a cor preta dos textos das provas. O cheiro já não fazia mais parte do processo e não se fala mais em “rodar” as provas, agora elas saíam automaticamente e numa velocidade muito maior. Na minha memória ficaram gravadas aquelas sensações da minha infância: o gosto, o cheiro e a “onda”. Quando cresci, as encontrei de novo em um bar qualquer, dentro de um copo. Foi como ter nas minhas mãos a nostalgia em forma líquida para beber. E ainda tem gente que pergunta: “- Por que você bebe?”.
Toda vez que pego um ônibus, para qualquer bairro que seja, sempre tem alguém comendo uma coxinha ou um pastel num saco de papel pardo com uma mancha úmida de gordura. A pessoa abre o saco, puxa o salgado um pouco para fora, dá uma mordida, passa a língua entre os lábios para tirar os farelos, enfia o salgado de volta no saco e começa a mastigar, tampando a boca com umas das mãos. Tudo isso com uma postura encurvada, quase corcunda, e um olhar desconfiado para os lados, como se estivesse comendo escondido, com medo de alguém pedir um pedaço. Eu que não seria. Nem aceitaria se me oferecesse. Mas só pelo egoísmo, fico desejando que tenha uma baita duma azia. Acho que nem todo mundo pára para pensar com mais frieza nos detalhes da forma que deveria. Além do ônibus não ser o local mais indicado para se fazer um lanche, por causa da quantidade enorme de gente que colocou as mãos no mesmo lugar que você, pessoas de higiene duvidosa, por exemplo, não se pode esquecer que você pegou no dinheiro para pagar o salgado e a passagem. Qual foi a mão que segurou aqui e ali? Qual foi a que pegou no dinheiro? Qual vai segurar o saco engordurado? Qual vai puxar e enfiar o salgado de volta no saco? Quando vejo uma pessoa comendo naquele lugar, tudo isso passa pela minha cabeça e meu estômago já fica embrulhado. Se estiver com fome, perco o apetite na hora. Mas ela, não! Ela está lá, com aquela mão suja, se deliciando com aquele salgado como se ele fosse a refeição mais deliciosa desse mundo, tão gostosa que vai mastigando, mastigando, mastigando e nunca engole. Na maioria das vezes demora uns 10 minutos para dar mais uma mordida. Sempre deixando cair um monte de farelos na blusa que, se for de lã, que é a que agarra mais, acaba virando uma árvore de Natal de casquinhas de pastel, pedacinhos de carne moída, fiapinhos de frango, entre outros “enfeites”. Mas o pior de tudo mesmo é a pessoa ser egoísta. Apesar de estar comendo um lanche gorduroso, sujo e babujado, ela acha que todos os outros passageiros do ônibus estão mortos de fome a ponto de não conseguir esperar chegar ao destino para comer alguma coisa e cobiçam seu salgado como se ele fosse a última comida disponível na face da Terra. Cada vez que o ônibus pára em um ponto, parece que dá para ver escrito na cara dela: “menos um” ou “menos dois”. Chega uma hora que, por estar satisfeita, ou por estar com muito medo de dividir, a pessoa simplesmente pára de comer, guarda o restante no saco, dobra ele várias vezes e guarda dentro de uma bolsa ou mochila para terminar mais tarde. O que acontece depois, nunca vou saber. Eu sempre desço antes.
Já repararam na quantidade de gente que desmaia em pontos de ônibus? A pessoa está parada, às vezes até conversando com outra, e simplesmente, do nada, cai no chão. Por diversas vezes perguntei a conhecidos meus se eles já repararam nisso, mas a resposta sempre foi negativa. Nunca presenciaram sequer um desses casos. Fico com a impressão de que isso só acontece perto de mim, como se fosse uma perseguição. Sempre estou por perto e me pedem ajuda. Ajudar como?! Tem que abrir espaço para deixar a pessoa respirar e ligar para uma ambulância! Em vez disso, ficam todos em cima da pessoa, nessa hora aparecem curiosos de todos os cantos, e pedem ajuda para levantar a pessoa e sentá-la no banco. Para que?! A pessoa está desmaiada, inconsciente, ela tem que ficar deitada, com o corpo relaxado. E a gente ainda vai ter que ficar escorando para ela não cambalear e cair. Mas se falar isso, começam a achar que você está de má vontade, que não está querendo ajudar. Às vezes fico tentando imaginar como foi o dia daquela pessoa ou o que houve com ela para que isso acontecesse. Será que foi uma rotina estressante de trabalho? Uma caminhada muito longa? Muitas horas sem comer? O sol muito forte? Acho que nunca vou descobrir. Não dá para saber o que se passa na cabeça de outra pessoa ou qual foi a sua rotina naquele dia. Também não vou ser invasivo ao ponto de esperar ela acordar, me aproximar e perguntar, não sou tão intrometido. Confesso que até fico tentado, mas me seguro. Ah! Se curiosidade matasse... Certa vez aconteceu algo parecido comigo. Após um dia inteiro numa rotina estressante de trabalho, tive que fazer uma caminhada longa, estava sem comer há algumas horas e o sol bem forte. No meio dessa caminhada, comecei a me sentir mal, um pouco tonto e achei que fosse desmaiar. Mas foi no meio da caminhada! Por que essa gente deixa para desmaiar do meu lado, ali no ponto de ônibus, depois de já ter chegado e já ter parado, quando já está descansando? Vai saber.
A Coca-Cola da garrafa de vidro é muito mais gostosa que a que vem nas outras embalagens. Acho que isso é unanimidade. Mas por que? O que ela tem de diferente? Será que o material da embalagem muda o gosto dela? Hoje em dia existem vários tipos de embalagem para refrigerantes, cervejas e sucos, mas, quando eu era um pré-adolescente, não. Nada de latinhas e garrafas de plástico de todos os tamanhos, tudo vinha em garrafas de vidro. Cerveja e guaraná vinham nas de 600 ml marrom, já a maioria dos outros refrigerantes, vinham nas de 290 ml, a famosa KS. Naquele tempo, a gente ia numa lanchonete, padaria ou bar e pedia um salgado e uma Coca. Quando o atendente abria a tampa da garrafa, o bico sempre ficava com um anel de ferrugem. A gente não estava nem aí, colocava na boca e ia logo bebendo. Depois era a vez de dar uma mordida no salgado, que vinha num prato de alumínio, em cima de um papel retangular e coberto por dois guardanapos. Acho que o verdadeiro diferencial da Coca KS está na memória de outros tempos, de momentos felizes, talvez até no gosto de ferrugem. Pode ser também que a mistura de tudo isso crie um sabor mais complexo: o gosto da nostalgia.
Já não aguentava mais o barulho que vinha daquela boca mastigando, da língua passando a comida de um lado para o outro dando estalos. Aquilo me dava arrepios e calafrios. Eu já tinha perdido a fome. Tentei sair disfarçadamente da mesa, mas aquela mão engordurada da coxa de frango que havia comido segurou meu braço. Me perguntou onde eu ia. Respondi que ia ao banheiro. Começou uma conversa unilateral comigo. Ainda havia um restinho de comida na ponta da língua, aquele que a pessoa dá mais uma mastigadinha de vez em quando, mas que nunca acaba. Os dentes exageradamente espaçados e projetados para fora, daqueles que obrigam a pessoa a fazer biquinho para conseguir fechar a boca, tinham restos de queijo grudados entre si e, de vez em quando, entre um perdigoto e outro, um pedacinho também "voava" na minha direção. Eu ficava tentando me esquivar, mas, vez ou outra, um deles acabava atingindo minha camisa. Senti um tocar o meu queixo. Tive ânsia de vômito, aquela coisa azeda subiu pela minha garganta, mas, antes que chegasse à boca, consegui segurá-la e fazê-la retornar para o lugar de onde veio. Com muito custo, consegui finalmente ir ao banheiro, mas a mão não me soltou enquanto não chegamos à porta dele. Quis me acompanhar para mostrar o caminho, sem parar de falar um único minuto. Acho que me contou a história da família inteira, mas não consegui prestar atenção em nada. Assim que entrei, já fui direto para a pia, joguei água na cara, molhei um pouco os cabelos e a nuca. Enquanto isso, me aguardava na porta para me acompanhar de volta à mesa. Demorei bastante, mas ainda era aguardado incansavelmente. Me perguntou se estava tudo bem. Respondi que sim, que já estava terminando. Saí e fui recebido com um enorme e indigesto sorriso. Me deu azia. Na verdade, eu já estava sentindo, mas não na mesma intensidade que agora. Antes que segurasse meu braço novamente, eu disse que precisava de um sal de frutas, pois havia comido algo que me fez mal. Seu semblante mudou, a simpatia exagerada virou raiva. Um ódio mortal. Me disse que era impossível que algo que comi pudesse me fazer mal, pois tudo foi feito com ingredientes frescos comprados nas lojas mais caras da cidade e com muito amor. Disse que eu não sabia o que era isso, que eu não tinha amor pela minha família e nem tampouco tinha educação. Me expulsou de sua casa dizendo que eu era muito grosso e mal-agradecido. Disse que não era para eu voltar nunca mais, pois não era mais bem-vindo. Saí aliviado e, sem querer, acabei deixando escapar um “obrigado”.
Um dia eu estava numa lanchonete comendo uma empada de queijo e ouvi uma pessoa falar que os homens geralmente não gostam de empada, mas as mulheres sim. Não disse o motivo e nem deu mais nenhuma explicação, apenas “deixou no ar”. Fiquei com isso na cabeça. Gosto muito de empada, ainda mais se for a de queijo, e isso me intrigou. Sou um apaixonado pela empada de queijo desde criança, é uma paixão que chega a ser quase amor. Desde a primeira vez que coloquei uma na boca, ela já foi entrando e ocupando um lugarzinho no meu coração, como se fosse um quartinho que estava disponível para aluguel há muito tempo e finalmente tinha aparecido um inquilino que paga em dia, não faz barulho e não reclama de nada. Acho curioso ela ser a única que não tem aquela “tampinha” de massa cobrindo, o recheio dela é exposto, e isso parece que influencia a minha vontade de comer, eu vejo o recheio e parece que já começo a sentir um pouco do gosto. Ela é honesta, não tem nada para esconder. A empada é um dos salgados mais populares do Brasil, ela é feita com aquela massa podre deliciosa que desmancha na boca e com todo tipo de recheio que a gente pode imaginar: frango, camarão, palmito, carne moída, queijo, etc. Agora tem até empada doce! No lanche da tarde ou em festinhas de aniversário de criança, numa confraternização ou num coffee break, ela é presença certa e indispensável, quase obrigatória. Por que os homens não iriam gostar? Será que as mulheres têm uma sensibilidade diferente da dos homens também em relação à empada? Será que eu tenho um lado feminino quando se trata de lanchar? Passei a observar as pessoas que entram nas lanchonetes onde estou lanchando e o que elas pedem. Não foi por uma semana, por um mês, trimestre ou semestre, foi por anos. Nunca vi um homem pedir uma empada.
Tem gente que, quando vai contar alguma coisa para a gente, conta de uma maneira que dá a impressão de que tudo o que ela fez foi melhor do que o que a gente faz. Não estou falando de pessoas que contam vantagem, que se gabam ou se acham superiores, mas daquelas que descrevem o que fizeram “com gosto”. Todo mundo já conversou com alguém que contou como foi o seu dia, tudo pelo que passou e teve que fazer naquele dia, como ficou cansado, sem forças e sem disposição, mas que, quando chegou em casa, tomou AQUELE banho e saiu com as energias renovadas. Tem também quem conte que estava com muita fome e, quando foi almoçar, comeu AQUELA macarronada, ou qualquer outra comida, o que importa é a ênfase que a pessoa dá na hora de contar. Acho que eu nunca tomei um banho, nem comi nada tão bom que tivesse merecido o adjetivo “AQUELE (A)” com essa ênfase toda. Já tomei banhos que foram revigorantes, mas nenhum deles foi AQUELE, já comi comidas deliciosas, mas nenhuma delas também foi AQUELA. Talvez eu não esteja fazendo essas coisas do mesmo jeito ou no mesmo lugar que as tais pessoas que contam fazem. Para falar a verdade, acho que nem essas pessoas chegaram a tomar um banho ou a comer algo tão bom assim, o jeito como elas contam é que parece criar um outro mundo dentro das nossas cabeças, onde tudo é melhor. Elas gesticulam de uma maneira diferente enquanto descrevem o banho que tomaram e falam com a boca cheia d’água e como se estivessem sentindo o sabor enquanto descrevem as comidas que comeram. É tudo o jeito. E eles têm o jeito. AQUELE jeito.
Engarrafamento numa sexta-feira depois do expediente ninguém merece. As quatro pistas paradas e eu doido para chegar em casa. Não anda de jeito nenhum, meia hora já e não saio do lugar, nem um centímetro. Há muito tempo não engarrafava desse jeito, por isso eu já tinha feito até planos para o fim de tarde e noite. Comprei a bebida e os tira-gostos. Ia ser só eu e ela, era só chegar, ligar, tomar um banho, me arrumar e esperar. Mas engarrafou. Justamente nessa sexta. Passou um vendedor de biscoito, desses que sempre aparecem do nada nos engarrafamentos e a gente nunca sabe de onde eles surgem e se já sabiam que iria engarrafar ou como eles conseguiram comprar tanto biscoito assim de última hora. Ele chegou do lado do carro, enfiou a mão pelo vidro da porta, segurando aquele saquinho branco com o desenho do bonequinho com um cabeção redondo, e disse: "- Biscoito Globo, freguês?! É o maior sucesso!". Eu detesto esse biscoito, ele é horrível, tão horrível quanto ser chamado de "freguês" por um vendedor. Agradeci e perguntei se tinha água mineral, ele respondeu que não, mas que tinha um camarada que vendia e ia mandar ele vir trazer para mim. Agora já tinha uma hora que eu estava parado ali. Ou melhor, tinha andado mais ou menos um quilômetro, mas não fazia muita diferença. Nada de água, a camisa e a calça encharcadas de suor e colando na pele. A garganta seca e a cabeça já começava a doer. Liguei avisando que ia atrasar, disse que não aguentava mais esperar, ela disse que também não.
- Água aí, freguês? - Ô! Finalmente! - O camarada do biscoito falou que você queria água. - Sim. Quero sim. Me dá duas. - Tá na mão, freguês! - Graças a Deus! Você me salvou. - Tamo aqui pra isso, freguês. Agora deixa eu ir naquele outro carro ali.
Abri uma das garrafinhas e já tomei metade da água de uma vez só, sem parar para respirar. Deu uma aliviada na secura. Comecei a sentir fome, poderia comer qualquer coisa. Menos aquele biscoito. Argh! Aquele não! Mais meia hora e só tinha andado mais uns 700 metros. Liguei de novo para ela cancelando o encontro: "- Marcamos para amanhã, pode ser?". Respondeu que tudo bem. A fome foi aumentando, mas aquele biscoito... Comecei a pensar em tudo o que poderia ter rolado naquele fim de tarde e noite com ela, em como teria sido bom, mas ia ter que ficar para amanhã. Pensei na bebida e nos tira-gostos. Eu tinha comprado tantos tira-gostos gostosos, mas eles estavam tão longe. Aqui o que reinava era só o Biscoito Globo e eu já estava entendendo porque ele era "o maior sucesso". Não tinha escolha, não tinha outra coisa para comer ali a não ser o biscoito do saquinho branco com o desenho do bonequinho com um cabeção redondo. Avistei pelo retrovisor um vendedor passando com um saco transparente lotado desses saquinhos. Ele estava meio longe, então saí do carro e, com as duas mãos em forma de concha em volta da boca, berrei:
O anúncio dizia que era uma quitinete, mas aquilo não era tão grande quanto uma. Na verdade, comparada com aquele cômodo, uma quitinete pareceria mais um apartamento de luxo. Mas eu precisava mudar rápido e tinha pouco dinheiro, ia ter que servir. “A pressa é inimiga da perfeição”. Eu não queria ter pressa, fui obrigado a ter, nem queria nada perfeito, mas aquilo era imperfeito demais. Quando a situação está insustentável, a convivência está impossível, é melhor mudar. Mudar tudo: a cabeça, a forma de agir e reagir, as pessoas, a mobília, a decoração, o ambiente, os ares, em resumo, TUDO. Não queria mais aquilo tudo que me cercava, me apertava e me limitava. Um espaço só meu, por menor que fosse, não me daria tanta claustrofobia. Mesmo tendo pouco espaço para o ar, ele seria mais puro. Por não caber muita coisa, não teria decoração e nem muita mobília, só o básico, bem minimalista, mas, o mais importante, sem ninguém para dizer como, onde, quando ou porque. Só eu morando ali. Ali e na minha mente. Aquilo não era uma quitinete, era só um quarto, uma suíte. A porta de entrada não abria por completo, ela batia na cama, e eu, que estou acima do peso, tinha que entrar de lado. Já continuava nessa posição para passar no espaço entre a cama e a única parede na qual ela não estava encostada. Assim, eu chegava num ponto no qual já conseguia sentar, com os joelhos encostando na parede. Se continuasse andando, chegaria ao banheiro: uma privada, um chuveiro, quase em cima dela, e uma mini pia, sem porta. Na outra parede, uma prateleira onde eu deixava, ao lado das minhas roupas, um fogareiro elétrico e uma panela, o suficiente para preparar um miojo e cozinhar uns ovos. Um pouco acima da cabeceira da cama, um basculante bem pequenininho era o meu “ar condicionado”. O vento soprava a cortina na minha cara o tempo todo, precisei comprar uma nova, sou alérgico a mofo. A minha cabeça também estava mais ou menos assim, parecendo bastante com esse quartinho. Mas, aos poucos, passou a parecer mais com uma quitinete, depois com um apartamento normal e, quando me dei conta, já era uma cobertura de frente para a praia. Eu estava pensando nisso enquanto folheava um jornal. Quando cheguei nos classificados, li um anúncio que dizia: “Você se sente só? Saia da solidão…”. Nem acabei de ler, cortei aquele quadradinho com a mão mesmo, deixando um buraco no jornal, piquei em pedacinhos bem pequenininhos e joguei pelo basculante. Continuei minha leitura.