Ser escritor consiste em: ter algo a dizer; criar associações entre temas aparentemente díspares, de modo que aquilo — latente e invisível — ganhe forma diante de todos, traçando um liame de significados até então ignorados. É dominar a forma escolhida para transmitir o conteúdo, de modo que ela também se integre à unidade pretendida, tornando-se, ao mesmo tempo, meio e mensagem.
@luscaluiz
Lucas Luiz
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Quando se afirma que é impossível ensinar alguém a escrever bem, isso se relaciona com o amadurecimento pessoal e o autoconhecimento. Trata-se da capacidade de captar as latências invisíveis em cada aspecto — mesmo nos mais banais e aparentemente fúteis da rotina — e transformá-los em peças autênticas, dignas de contemplação. É, de fato, salvar o instante, como já foi dito por alguém. Alçá-lo ao perene, pois algo só existe quando é contemplado.
"CÂNTICO"
para Adélia Prado
As respostas cruciais encontram-se
circunscritas nas costelas
do primeiro homem.
A Palavra é única e permanece,
talha o barro sob o sinete,
entre o desejo de compreensão
e o mistério que nos escapa:
eis os dias — um campo à luz quarando,
sempre o mesmo, sempre novo,
aos olhos de quem canta.
para Adélia Prado
As respostas cruciais encontram-se
circunscritas nas costelas
do primeiro homem.
A Palavra é única e permanece,
talha o barro sob o sinete,
entre o desejo de compreensão
e o mistério que nos escapa:
eis os dias — um campo à luz quarando,
sempre o mesmo, sempre novo,
aos olhos de quem canta.
"O GOL POR EXCELÊNCIA"
Da sombra de Charles Miller, sua imagem
pictórica, gizou-se tantos perfis,
contornos a formar página e colagem:
rascunho que o sonho deste gol prediz.
Clodoaldo dribla um, dribla dois... Na tela,
o epílogo da festa verde e amarela.
Peleja, progride, pensa, e num flamejo,
Pelé por linha cálida, abre em crisálida;
traceja o campo no límpido lampejo:
Carlos Alberto assina o quadro em trivela
Da sombra de Charles Miller, sua imagem
pictórica, gizou-se tantos perfis,
contornos a formar página e colagem:
rascunho que o sonho deste gol prediz.
Clodoaldo dribla um, dribla dois... Na tela,
o epílogo da festa verde e amarela.
Peleja, progride, pensa, e num flamejo,
Pelé por linha cálida, abre em crisálida;
traceja o campo no límpido lampejo:
Carlos Alberto assina o quadro em trivela
"SONETO I"
A rima e a estrofe, feito a vida, Pietro
nem sempre poderão serem perfeitas
— condensam-se certas sementes em metros
juntas pelas leis às quais estão sujeitas.
Eis muitos dos caminhos do mistério
solvendo-se pelo pulso em harmonia,
dando forma definida até ao etéreo,
cumprindo-se desde o Éden a profecia.
Nada temos — e precisamente este
é o nosso tesouro desde a aurora:
àquilo que canhestro nos reveste
pra glorificar a Deus todas as horas.
Será recompensado quem suporta
— foi dito: Deus cria o certo em linhas tortas.
A rima e a estrofe, feito a vida, Pietro
nem sempre poderão serem perfeitas
— condensam-se certas sementes em metros
juntas pelas leis às quais estão sujeitas.
Eis muitos dos caminhos do mistério
solvendo-se pelo pulso em harmonia,
dando forma definida até ao etéreo,
cumprindo-se desde o Éden a profecia.
Nada temos — e precisamente este
é o nosso tesouro desde a aurora:
àquilo que canhestro nos reveste
pra glorificar a Deus todas as horas.
Será recompensado quem suporta
— foi dito: Deus cria o certo em linhas tortas.
O que é um verso?
O verso é uma unidade rítmica-psicológica: não apenas uma linha de sílabas ou palavras dispostas de forma arbitrária, mas um campo de efeitos — condensação dos sentidos, cadência, tensão, imagem e ressonância.
O verso é uma unidade rítmica-psicológica: não apenas uma linha de sílabas ou palavras dispostas de forma arbitrária, mas um campo de efeitos — condensação dos sentidos, cadência, tensão, imagem e ressonância.
"A INTERSECÇÃO ARTÍSTICA"
Durante um longo período, consumi conteúdo de forma passiva em busca de construir um repertório mais vasto, que me permitisse, aos poucos, expressar uma perspectiva mais substancial e autêntica sobre a realidade — ir além da simples manifestação de emoções imediatas.
É verdade que essa escolha corre o risco de tornar a escrita cerebral demais, artificiosa; e fui acusado disso mais de uma vez. Ainda assim, preferi seguir esse caminho para evitar um erro comum entre escritores autodidatas: tornar-se apenas eloquente, com um rebuscamento vazio. Por exemplo, considero a palavra “deveras” pomposa demais. Não consigo imaginá-la sendo usada naturalmente numa conversa informal entre amigos, onde a vida de fato acontece. Se não posso utilizá-la nesses contextos, prefiro deixá-la de fora também das minhas composições.
Tenho refletido sobre a escrita desde o momento em que compreendi que ela é uma comunhão, algo que se expande para além de uma simples digressão individual. A partir dessa compreensão, passei a tratá-la como um ofício: o ofício literário. Já me acusaram de ser rígido, metódico, até burocrático, mas recebo esses adjetivos com serenidade, pois aprendi a enxergar a escrita sob duas perspectivas: a de quem a produz e a de quem a vivifica; ou seja, o leitor.
Borges, em seu ensaio O Livro, afirma que “um livro tem de ir além da intenção do seu autor”, e, para mim, é nesse ponto que reside todo o mistério e beleza da literatura. O que torna a leitura uma experiência transcendente é precisamente essa tensão entre os sentidos imaginados pelo autor e as significações que o leitor projeta, baseadas em sua própria vivência — afetos, leituras, conhecimento. A arte, então, nasce dessa interseção. Embora a materialidade da obra seja fundamental, pois é por meio dela que apreendemos o objeto artístico, é o leitor quem lhe concede vida; o livro, por si só, permanece inerte.
Este exemplo sintetiza o argumento inicial: não fosse o esforço de compreender mais a fundo os variados temas que, em simbiose, formam um artista, talvez ainda carregasse certa ilusão romântica sobre o ofício. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra; se o pêndulo pender mais para um lado que para o outro, o leitor perceberá com facilidade.
Entre o corpo que sente e a mente que escreve, procuro um estilo que não traia nem a vida nem o pensamento. Que o rigor não separe a escrita da realidade, e que o lirismo não a dissolva em confissão. Se a palavra não nasce da convivência com o mundo, talvez devesse calar-se.
Durante um longo período, consumi conteúdo de forma passiva em busca de construir um repertório mais vasto, que me permitisse, aos poucos, expressar uma perspectiva mais substancial e autêntica sobre a realidade — ir além da simples manifestação de emoções imediatas.
É verdade que essa escolha corre o risco de tornar a escrita cerebral demais, artificiosa; e fui acusado disso mais de uma vez. Ainda assim, preferi seguir esse caminho para evitar um erro comum entre escritores autodidatas: tornar-se apenas eloquente, com um rebuscamento vazio. Por exemplo, considero a palavra “deveras” pomposa demais. Não consigo imaginá-la sendo usada naturalmente numa conversa informal entre amigos, onde a vida de fato acontece. Se não posso utilizá-la nesses contextos, prefiro deixá-la de fora também das minhas composições.
Tenho refletido sobre a escrita desde o momento em que compreendi que ela é uma comunhão, algo que se expande para além de uma simples digressão individual. A partir dessa compreensão, passei a tratá-la como um ofício: o ofício literário. Já me acusaram de ser rígido, metódico, até burocrático, mas recebo esses adjetivos com serenidade, pois aprendi a enxergar a escrita sob duas perspectivas: a de quem a produz e a de quem a vivifica; ou seja, o leitor.
Borges, em seu ensaio O Livro, afirma que “um livro tem de ir além da intenção do seu autor”, e, para mim, é nesse ponto que reside todo o mistério e beleza da literatura. O que torna a leitura uma experiência transcendente é precisamente essa tensão entre os sentidos imaginados pelo autor e as significações que o leitor projeta, baseadas em sua própria vivência — afetos, leituras, conhecimento. A arte, então, nasce dessa interseção. Embora a materialidade da obra seja fundamental, pois é por meio dela que apreendemos o objeto artístico, é o leitor quem lhe concede vida; o livro, por si só, permanece inerte.
Este exemplo sintetiza o argumento inicial: não fosse o esforço de compreender mais a fundo os variados temas que, em simbiose, formam um artista, talvez ainda carregasse certa ilusão romântica sobre o ofício. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra; se o pêndulo pender mais para um lado que para o outro, o leitor perceberá com facilidade.
Entre o corpo que sente e a mente que escreve, procuro um estilo que não traia nem a vida nem o pensamento. Que o rigor não separe a escrita da realidade, e que o lirismo não a dissolva em confissão. Se a palavra não nasce da convivência com o mundo, talvez devesse calar-se.
AO ESPELHO
Eu não pretendo ser muita coisa. Quero dizer, socialmente falando. Hoje, o meu desejo é apenas conhecer-me cada vez melhor, compreender quais são as minhas falhas mais gritantes e tentar corrigi-las dentro do possível. Ou seja, ser mais próximo da versão que Deus sonhou ao presentear-me com o sopro da vida.
Tenho falhado repetidamente — tropeço na pedra no meio do caminho. E tenho plena consciência de que são erros gritantes. Não abrirei a vocês meu diário para não escandalizá-los. Sei como são limpos todos os perfis maquiados na internet. Eu, qual Fernando Pessoa, não conheço quem tome porrada na vida.
Mas, quando falo dos meus próprios defeitos, corro sempre o risco de cair no autoengano, de listá-los dentro de uma idealização criada pela necessidade de aparentar qualquer coisa além do que sou no meio social, e, assim, ser aceito. Quero dizer: até as falhas podem ser menos monumentais do que imagino. Talvez tudo seja tão monótono, medíocre (na acepção do termo), que eu tenha medo de olhar no espelho e aceitar-me assim: comum. O mais comum dos homens.
Essa guerra entre a necessidade de criar uma persona poética, um ar de escritor — vestir-me como escritor, postar-me como escritor, ter aparência de escritor —, tudo para ser aceito pelo público, e ser um ser humano normal, aproveitando das suas experiências reais para torná-las matéria-prima de uma obra cuja substância exista... Essa guerra me consome. A questão que me assombra dia e noite é: quero audiência ou construir uma carreira sólida? E mais: ambos são autoexcludentes?
O Lucas real procrastina mais do que deveria, depende das redes sociais mais do que gostaria e tem a vida social distante da sonhada. Anseia as coisas do alto, tem grandes insights de vez em quando, mas a maior parte do tempo vive é ao rés do chão.
Talvez a salvação — se é que existe uma — esteja em viver o chão sem vergonha. Em escrever não para sustentar um personagem, mas para descobrir o que ainda pulsa quando todas as máscaras caem. Não é fama que redime. É a verdade.
Eu não pretendo ser muita coisa. Quero dizer, socialmente falando. Hoje, o meu desejo é apenas conhecer-me cada vez melhor, compreender quais são as minhas falhas mais gritantes e tentar corrigi-las dentro do possível. Ou seja, ser mais próximo da versão que Deus sonhou ao presentear-me com o sopro da vida.
Tenho falhado repetidamente — tropeço na pedra no meio do caminho. E tenho plena consciência de que são erros gritantes. Não abrirei a vocês meu diário para não escandalizá-los. Sei como são limpos todos os perfis maquiados na internet. Eu, qual Fernando Pessoa, não conheço quem tome porrada na vida.
Mas, quando falo dos meus próprios defeitos, corro sempre o risco de cair no autoengano, de listá-los dentro de uma idealização criada pela necessidade de aparentar qualquer coisa além do que sou no meio social, e, assim, ser aceito. Quero dizer: até as falhas podem ser menos monumentais do que imagino. Talvez tudo seja tão monótono, medíocre (na acepção do termo), que eu tenha medo de olhar no espelho e aceitar-me assim: comum. O mais comum dos homens.
Essa guerra entre a necessidade de criar uma persona poética, um ar de escritor — vestir-me como escritor, postar-me como escritor, ter aparência de escritor —, tudo para ser aceito pelo público, e ser um ser humano normal, aproveitando das suas experiências reais para torná-las matéria-prima de uma obra cuja substância exista... Essa guerra me consome. A questão que me assombra dia e noite é: quero audiência ou construir uma carreira sólida? E mais: ambos são autoexcludentes?
O Lucas real procrastina mais do que deveria, depende das redes sociais mais do que gostaria e tem a vida social distante da sonhada. Anseia as coisas do alto, tem grandes insights de vez em quando, mas a maior parte do tempo vive é ao rés do chão.
Talvez a salvação — se é que existe uma — esteja em viver o chão sem vergonha. Em escrever não para sustentar um personagem, mas para descobrir o que ainda pulsa quando todas as máscaras caem. Não é fama que redime. É a verdade.
Leitura de Poema.