II. O Noctívago A Morte de Smail-aga Čengić · Capítulo 3 de 6
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II. O Noctívago

II. O Noctívago

O sol se pôs, e a lua se ergueu.

Quem galga pelos desfiladeiros, abaixo e acima,

E se esgueira rumo àquela Montanha Negra?

À noite caminha, de dia repousa,

Herói outrora, agora herói já não,

Mas junco a que toda sombra faz estremecer.

Se em algum ponto junto ao caminho sussurra a víbora,

Ou sob a moita se precipita a lebre ruiva,

Então ele, outrora mais feroz que víbora feroz,

Quase mais medroso que a lebre vacila.

Pensa, o mísero, que é lobo da serra,

Ou, pior ainda, salteador montanhês,

E teme o lugar onde há de perecer,

Mas não alcança aquilo que lhe turva o peito.

Caro estima sua cabeça ruiva;

Nem é de ouro, nem é dourada:

Bem se vê que morrer ele não quer,

Mas há algo que o impele adiante.

Será salteador, ou espião turco,

Que espreita os rebanhos de lã sedosa,

Ou as manadas de bois de chifres retorcidos?

Nem é salteador, nem espião turco,

Mas Novica, cavaz de Čengić;

Turco furioso, verdugo da Montanha Negra,

Que conhecem velhos e moços,

E nem as vilas o levariam,

Quanto mais as pernas do herói,

Pela Montanha Negra, em pleno dia claro.

Ao ombro pendurou a espingarda longa,

O feroz iatagã rosna à cintura,

E, ao lado dele, dois bacamartes.

Com a faixa cobriu o ninho de serpentes,

A leve opanca apertou aos pés,

E pôs o gorro nu na cabeça valente;

Do saruk nem lembrança há.

Sem saruk eis que segue o turco;

Bem se vê que perecer ele não quer,

Mas há algo que o impele adiante.

Atento, o herói atravessou os Cuce,

E ainda os belicosos Bjelice,

E então se lança aos fragosos Ćeklići.

Lança-se a eles, e a Deus suplica

Que lhe conceda também atravessá-los

Sem ser ouvido, sem ser visto em parte alguma.

Bem se vê que morrer ele não quer,

Mas há algo que o impele adiante.

Cantam segundos galos no campo de Cetinje,

E Novica entra no campo de Cetinje;

Cantam terceiros galos no lugar de Cetinje,

E Novica caiu sobre Cetinje.

Ali invoca o auxílio de Deus ao guarda:

“Auxílio de Deus, sentinela de Cetinje!”

Mais belo ainda lhe respondeu a guarda:

“Boa sorte a ti, desconhecido valente!

De onde vens, de que lado?

Que fortuna te trouxe,

Para que tão cedo madrugasses, herói?”

Turco astuto, por necessidade,

Turco astuto, astutamente responde:

“Já que perguntas, direi a verdade:

Sou herói da fria Morača,

Da pequena aldeia de Tušina,

Sob a montanha do célebre Durmitor.

Trago três dores no coração:

Uma dor trago no coração,

Porque Čengić degolou os Moračanos;

Outra dor trago no coração,

Porque Čengić me matou o pai;

E a terceira dor trago no coração,

E maior ainda: que o algoz ainda respire.

Assim, pelo grande Deus te rogo,

Deixa-me ir a teu senhor,

Senhor meu e teu,

Para ver se cura minhas dores.”

Mais astuta lhe respondeu a guarda:

“Tira as armas, desconhecido valente,

E então leva a cabeça por onde te aprouver.”

Rumo ao paço, à porta, foi o turco,

E a última estrela fugia da vista:

Era a estrela do agá Čengić.

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