O Caçador de Esmeraldas: II O Caçador de Esmeraldas · Capítulo 2 de 4
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O Caçador de Esmeraldas: II

Para o norte inclinando a lombada brumosa,

Entre os nateiros jaz a serra misteriosa;

A azul Vupabuçu beija-lhe as verdes faldas,

E águas crespas, galgando abismos e barrancos

Atulhados de prata, umedecem-lhe os flancos

Em cujos socavões dormem as esmeraldas.

Verde sonho!... é a jornada ao país da Loucura!

Quantas bandeiras já, pela mesma aventura

Levadas, em tropel, na ânsia de enriquecer!

Em cada tremedal, em cada escarpa, em cada

Brenha rude, o luar beija à noite uma ossada,

Que vêm, a uivar de fome, as onças remexer.

Que importa o desamparo em meio do deserto,

E essa vida sem lar, e esse vaguear incerto

De terror em terror, lutando braço a braço

Com a inclemência do céu e a dureza da sorte?

Serra bruta! dar-lhe-ás, antes de dar-lhe a morte,

As pedras de Cortez, que escondes no regaço!

E sete anos, de fio em fio destramando

O mistério, de passo em passo penetrando

O verde arcano, foi o bandeirante audaz.

- Marcha horrenda! derrota implacável e calma,

Sem uma hora de amor, estrangulando na alma

Toda a recordação do que ficava atrás!

A cada volta, a Morte, afiando o olhar faminto,

Incansável no ardil, rondando o labirinto

Em que às tontas errava a bandeira nas matas,

Cercando-a com o crescer dos rios iracundos,

Espiando-a no pendor dos boqueirões profundos,

Onde vinham ruir com fragor as cascatas.

Aqui, tapando o espaço, entrelaçando as grenhas

Em negros paredões, levantavam-se as brenhas,

Cuja muralha, em vão, sem a poder dobrar,

Vinham acometer os temporais, aos roncos;

E os machados, de sol a sol mordendo os troncos,

Contra esse adarve bruto em vão rodavam no ar.

Dentro, no frio horror das balseiras escuras,

Viscosas e oscilando, úmidas colgaduras

Pendiam de cipós na escuridão noturna;

E um mundo de reptis silvava no negrume;

Cada folha pisada exalava um queixume,

E uma pupila má chispava em cada furna.

Depois, nos chapadões, o rude acampamento:

As barracas, voando em frangalhos ao vento,

Ao granizo, à invernada, à chuva, ao temporal.

E quantos deles, nus, sequiosos, no abandono,

Iam ficando atrás, no derradeiro sono,

Sem chegar ao sopé da colina fatal!

Que importava? Ao clarear da manhã, a companha

Buscava no horizonte o perfil da montanha...

Quando apareceria enfim, vergando a espalda,

Desenhada no céu entre as neblinas claras,

A grande serra, mie das esmeraldas raras,

Verde e faiscante como uma grande esmeralda?

Avante! e os aguaçais seguiam-se às florestas...

Vinham os lamarões, as leziras funestas,

De água paralisada e decomposta ao sol,

Em cuja face, como um bando de fantasmas,

Erravam dia e noite as febres e os miasmas,

Numa ronda letal sobre o podre lençol.

Agora, o áspero morro, os caminhos fragosos.

Leve, de quando em quando, entre os troncos nodosos

Passa um plúmeo cocar, como uma ave que voa...

Uma frecha, subtil, silva e zarguncha... É a guerra!

São os índios! Retumba o eco da bruta serra

Ao tropel... E o estridor da batalha reboa.

Depois, os ribeirões, nas levadas, transpondo

As ribas, rebramando, e de estrondo em estrondo

Inchando em macaréus o seio destruidor,

E desenraizando os troncos seculares,

No esto da aluvão estremecendo os ares,

E indo torvos rolar nos vales com fragor...

Sete anos! combatendo índios, febres, paludes,

Feras, reptis, - contendo os sertanejos rudes,

Dominando o furor da amotinada escolta...

Sete anos!. .. E ei-lo de volta, enfim, com o seu tesouro!

Com que amor, contra o peito, a sacola de couro

Aperta, a transbordar de pedras verdes! - volta...

Mas num desvio da mata, uma tarde, ao sol posto,

Pára. Um frio livor se lhe espalha no rosto...

E a febre! O Vencedor não passará dali!

Na terra que venceu há de cair vencido:

E a febre: é a morte! E o Herói, trôpego e envelhecido,

Roto, e sem forças, cai junto do Guaicuí...

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