O Caçador de Esmeraldas: III O Caçador de Esmeraldas · Capítulo 3 de 4
Obra Menu

O Caçador de Esmeraldas: III

Fernão Dias Pais Leme agoniza. Um lamento

Chora longo, a rolar na longa voz do vento.

Mugem soturnamente as águas. O céu arde.

Trasmonta fulvo o sol. E a natureza assiste,

Na mesma solidão e na mesma hora triste,

À agonia do herói e à agonia da tarde.

Piam perto, na sombra, as aves agoireiras.

Silvam as cobras. Longe, as feras carniceiras

Uivam nas lapas. Desce a noite, como um véu...

Pálido, no palor da luz, o sertanejo

Estorce-se no crebro e derradeiro arquejo.

- Fernão Dias Pais Leme agoniza, e olha o céu.

Oh! esse último olhar ao firmamento! A vida

Em surtos de paixão e febre repartida,

Toda, num só olhar, devorando as estrelas!

Esse olhar, que sai como um beijo da pupila,

- Que as implora, que bebe a sua luz tranqüila,

Que morre... e nunca mais, nunca mais há de vê-las!

Ei-las todas, enchendo o céu, de canto a canto.

Nunca assim se espalhou, resplandecendo tanto,

Tanta constelação pela planície azul!

Nunca Vênus assim fulgiu! Nunca tão perto,

Nunca com tanto amor sobre o sertão deserto

Pairou tremulamente o Cruzeiro do Sul!

Noites de outrora!... Enquanto a bandeira dormia

Exausta, e áspero o vento em derredor zunia,

E a voz do noitibó soava como um agouro,

- Quantas vezes Fernão, do cabeço de um monte,

Via lenta subir do fundo do horizonte

A clara procissão dessas bandeiras de ouro!

Adeus, astros da noite! Adeus, frescas ramagens

Que a aurora desmanchava em perfumes selvagens!

Ninhos cantando no ar! suspensos gineceus

Ressoantes de amor! outonos benfeitores!

Nuvens e aves, adeus! adeus, feras e flores!

Fernão Dias Pais Leme espera a morte... Adeus!

O Sertanista ousado agoniza, sozinho.

Empasta-lhe o suor a barba em desalinho;

E com a roupa de couro em farrapos, deitado,

Com a garganta afogada em uivos, ululante,

Entre os troncos da brenha hirsuta, - o Bandeirante

Jaz por terra, à feição de um tronco derribado...

E o delírio começa. A mio, que a febre agita,

Ergue-se, treme no ar, sobe, descamba aflita,

Crispa os dedos, e sonda a terra, e escarva o chio:

Sangra as unhas, revolve as raízes, acerta,

Agarra o saco, e apalpa-o, e contra o peito o aperta,

Como para o enterrar dentro do coração.

Ah! mísero demente! o teu tesouro é falso!

Tu caminhaste em vão, por sete anos, no encalço

De uma nuvem falaz, de um sonho malfazejo!

Enganou-te a ambição! mais pobre que um mendigo,

Agonizas, sem luz, sem amor, sem amigo,

Sem ter quem te conceda a extrema-unção de um beijo!

E foi para morrer de cansaço e de fome,

Sem ter quem, murmurando em lágrimas teu nome,

Te dê uma oração e um punhado de cal,

- Que tantos corações calcaste sob os passos,

E na alma da mulher que te estendia os braços

Sem piedade lançaste um veneno mortal!

E ei-la, a morte! e ei-lo, o fim! A palidez aumenta;

Fernão Dias se esvai, numa síncope lenta...

Mas, agora, um dano ilumina-lhe a face:

E essa face cavada e magra, que a tortura

Da fome e as privações maceraram, - fulgura,

Como se a asa ideal de um arcanjo a roçasse.

1/1
Menu

Fazer anotação