O Luar Contos para Velhos · Capítulo 3 de 16
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O Luar

Insone, a moça Luísa

Salta do leito, em camisa...

Verão! verão de rachar!

Calor! calor que devora!

Luísa vai dormir fora,

Ao luar...

Ardente noite estrelada...

Entre as plantas, descansada,

Põe-se Luísa a roncar.

Dorme toda a Natureza...

E que esplendor! que beleza

No luar!

Olha-a o luar com ciúmes...

E sabem vivos perfumes

Do jardim e do pomar:

E ela, em camisa, formosa,

Repousa, como uma rosa,

Ao luar!

Mas alguém (um fantasma ou gente?)

Chega-se prudentemente,

Para o seu sono espreitar...

-- Alguém que, ardendo em desejo,

Lhe põe nos lábios um beijo,

Ao luar...

Ela dorme... coitadinha!

Nem o perigo adivinha,

Pobre! a dormir e a sonhar...

Sente o beijo... mas parece

Que é um beijo quente que desce

Do luar...

A lua (dizem-no os sábios...)

Também tem boca, tem lábios,

Lábios que sabem beijar.

Luísa dorme, em camisa...

Como é formosa a Luísa

Ao luar!

Vão depois correndo os meses,

Entre risos e revezes...

-- Começa a moça a engordar...

Vai engordando, engordando...

E chora, amaldiçoando

O luar...

Já todo o povo murmura

E, na sua desventura,

Ela só sabe chorar;

Chora e diz que não sabia

Que tanto mal lhe faria

O luar...

O pai, que é homem sisudo,

Homem que percebe tudo,

Pergunta-lhe a praguejar:

" Que é que tu tens, rapariga?!"

E ela: " Eu tenho na barriga...

O luar!"

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