Feito no Escuro... Contos para Velhos · Capítulo 13 de 16
Obra Menu

Feito no Escuro...

Ele era branco, e ela branca,

Ambos claros como a luz...

Casaram. Baile de arranca,

E pagodeira de truz...

O mais formoso dos ninhos

Era a casa, à beira-mar,

Onde, como dois pombinhos,

Foram os dois arrulhar.

Só eles... e um cozinheiro,

Que era o crioulo Manuel,

Crioulo lesto e ligeiro,

Obediente... e fiel.

Ali, Amor assentava

Os seus doces arraiais,

E o mar, gemendo, invejava

Aqueles beijos... e o mais.

Nove meses decorridos,

Uma notícia correu:

Escutaram-se os vagidos...

E o morgadinho nasceu!

Que horror! que espanto! o menino,

Filho daquela afeição,

Era belo e pequenino,

Mas... preto como carvão!...

O marido, ardendo em chama,

Fígado cheio de fel,

Quer, ali mesmo na cama,

Estrangular a infiel.

Ela, porém, que o conhece,

Pergunta: -- "Você que tem?

"Você maluco parece...

"Reflita um pouco, meu bem!

"Bem lhe eu dizia, homem duro!

"Porém, você a teimar...

"Olhe! o que é feito no escuro,

"Sempre há-de de escuro ficar!

"Pois... o pobre pequenino...

"Feito de noite... bem se vê...

Cada qual tem seu destino....

"O culpado foi você..."

Tudo acaba em alegria...

Mas o Manuel, no fogão,

Malicioso sorria,

E temperava o feijão.

1/1
Menu

Fazer anotação