Prólogo
Alícia Martini | Nem sempre o que acontece em Vegas, fica em Vegas
Quinze anos antes…
Estava sentada na minha varanda, enquanto lia o terceiro livro de crepúsculo, aproveitei que era uma sexta-feira à tarde, em breve eu iria sair com meus amigos e aproveitar a noite, matar a saudade que sinto deles, já que eles se mudaram devido à faculdade.
— Ei, Aly! — Ouvi a voz de Lana e fechei o livro, ela estava se aproximando da varanda, meu portão era extremamente baixo e pequeno, a varanda um quadrado minúsculo, então eu conseguia ver o movimento da rua.
Eu morava bem no centro, mas isso não fazia diferença, cidade pequena assim que funciona as coisas.
— Terminou de ler Lua Nova? – Ela me encarou e suspirou concordando.
— Acabei ontem à noite, não aguentava mais ler o livro sem o Edward! Aquele Jacob sempre foi insuportável… – Bufou, eu ri.
— Espera terminar Eclipse… – Mostrei meu livro e ela fez uma careta.
— Te odeio, sabia? Não é valido ter uma amiga com memória fotográfica, e lê tão rápido assim.
— Ontem minha memória serviu, né? Para te ajudar a estudar aquele monte de coisa! Sabe como sou péssima em biologia?
Nós duas ficamos conversando a tarde toda, Lana queria se tornar médica e por isso já começou a fazer cursinho para auxiliar no ensino. Seu irmão foi para Ribeirão Preto estudar advocacia e nosso outro amigo foi estudar administração e finanças, para administrar a empresa da família.
Minha vida era basicamente essa, estudar de semana, ler, jogar RPG narrativo e no final de semana sair com meus amigos, geralmente eu saía na sexta-feira e voltava apenas no domingo. Minha relação com minha mãe não era das melhores, com meu pai piorou, por isso tentava evitar ao máximo ficar no seu radar.
Não via a hora de ficar adulta e sair dessa cidade, principalmente desta casa, que eu odiava.
Para ajudar, tive que aguentar minha prima, fingir sorrisos, fingir que ela é legal e não uma garota mimada, egoísta e egocêntrica. Eu a odiava por tantos motivos, mas sua constante mentira é o que mais me irritava.
Devido a isso, assim que deu o horário, tomei banho, peguei minhas coisas e fui para casa de Lana. Cumprimentei o irmão dela, assim como os pais que eram o completo oposto, ali eu realmente me sentia em casa. Quando deu o horário, Jeferson, irmão de Lana chegou, não demorou muito para ouvir Rafael nos chamando e nosso quarteto ficou completo.
Tiramos uma foto para postar no Orkut, os quatro sorrindo. Lana e eu estávamos cada uma com um vestido, o dela era um tubinho colado ao corpo e o meu, como eu era gorda, usava um mais largo, ambas de salto e maquiagem escura. Eu estava com um Glos rosa, simulando o vermelho e não via a hora de poder usar batom vermelho, já o dela era mais puxado ao rosa.
Os garotos estavam lindos, eles eram aquele tipo de homens que chamavam a atenção e sabiam disso, dois mulherengos que viviam aproveitando a vida. Se era mulher eles ficavam. Isso causava muita dor de cabeça entre Lana e eu, porque a maioria das garotas só se aproximava de nós por causa deles. Algumas ainda me esnobavam por causa dessa amizade e virava o maior transtorno.
Jeferson, irmão de Lana, estava com calça jeans, tênis e uma camisa polo, os cabelos penteados para trás nos cabelos loiros e olhos escuros. Rafael estava vestido de jeans, camisa e jaqueta preta de couro, os cabelos pretos bagunçados contrastando os olhos quase negros.
Ambos entraram em uma academia e estavam com os braços bem definidos.
— Fiquei sabendo que ambas estão de namorico com alguns rapazes. — Jeferson começou, com o tom de ciúmes, revirei os olhos.
— Nem começa, que eu não sou sua irmã.
— Nem começa, que sou sua irmã, mas não tem esse direito.
— Vocês ainda são novas, não acredito que esperaram a gente sair da cidade para namorar. – Rafael bufou e eu revirei os olhos, Lana continuou:
— Ihh a gente fica só nos beijos, ok? Diferente de vocês, que nessa época fodia a torto e a direito. – Lana relembrou.
— E se falar que vocês são diferentes, eu enfio esse salto na cabeça dos dois... – Apontei para meu salto.
— Deixem de ser pentelhas, que estamos cometendo um crime trazendo as duas para esse barzinho.
Joguei meu braço no ombro de Jeferson rindo divertida.
— Você sabe que a gente viria com ou sem vocês, não é? Cidade pequena, ninguém se importa com isso, veja, um monte de adolescente bebendo. – Apontei com o dedo, inclusive para um grupo de garotas com minissaias e vestidos curtos que mostrava a polpa da bunda já extremamente bêbadas, com caras de maior de idade.
— Precisam ficar feliz que a gente é só dos beijos, a Karen inclusive está até grávida. – Lana os relembrou e Rafael revirou os olhos.
— Tem certeza que você quer ser médica e você professora? Porque seriam ótimas advogadas, seriam melhores que Jef. – Rafael apontou para Lana e eu, a loira abraçou o amigo pela cintura rindo.
— Não temos culpa que nós mulheres somos naturalmente argumentativas. – Gabou-se.
A risada entre nós foi geral, mas de repente o mundo para mim começou a parar, ou no caso a andar em câmera lenta. Engoli em seco, porque estávamos na calçada do barzinho, local em que ficávamos conversando e bebendo, não íamos ali apenas para comer, era o nosso momento de lazer, assim como o da cidade toda.
Por isso, quando vi a garota de cabelos cor mel, da qual eu sabia ter olhos azuis, chegando com o garoto de cabelos loiros e olhos castanhos, minhas pernas tremeram. Eu conhecia ambos, era minha prima Valéria e atual namorada de Rafael, com Rodolfo, o cara pelo qual eu tinha uma leve paixão platônica. Quer dizer, ele era lindo, todas as garotas eram apaixonadas por ele e eu sei que jamais me veria e ela sabe que eu o amo.
O pior foi ver que eles estavam juntos, como eu sei? Além das mãos dadas, ela me encarou com aqueles olhos de víbora que eu conhecia, se virou e o beijou na frente de todo mundo.
Paralisada, era assim que eu me sentia, não conseguia nem olhar para Rafael, afinal, eles estavam juntos, não estavam. Senti uma mão grande e quente segurando a minha, só poderia ser a dele, me dando apoio e me reconfortando. Quando ela acabou seu show, veio até o meu lado, sorrindo.
— Prima! Você está aqui… — Riu e me abraçou, sussurrando. — Eu consegui seu amigo e seu namoradinho.
Se afastou dando aquela risadinha, que para muitos era inofensiva, mas eu era a única que parecia saber e sentir ser falsa. Talvez somente os três entendiam o quanto eu a odiava, quer dizer, antes apenas Lana e Jeferson entendiam, agora as máscaras caíram para Rafael.
Me senti ser puxada, meu coração estava dilacerado em mil pedaços, não por ela, mas por Rodolfo, eu o amava e saber que ele ficou com ela e não comigo acabou com a minha autoestima, senti as lágrimas caindo em meu rosto. Me pergunto, por que eu tinha que gostar de garotos padrão? Garotos que nunca me olhariam duas vezes?
Fala sério, não basta o anterior que é gay? Agora isso?
— Alícia! — Ouvi a voz de Rafael me chamar e ergui os olhos, o enxergando um pouco embaçado, ainda estávamos no meio da multidão, mesmo que tenhamos saído do local anterior. — Pare imediatamente com esses pensamentos.
— Como? Se é verdade? — Solucei aceitando o guardanapo que Lana me entregou, não faço ideia de como ela encontrou um, já me acostumei com essas coisas.
— Não é verdade.
Retrucou com veemência e antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Rafael colou seus lábios nos meus, esse não era o meu primeiro beijo, mas foi o beijo que me arrepiou por completo. Sua boca era macia, apesar da pele áspera da barba por fazer, minhas mãos foram para seus ombros, sua língua pediu passagem e ela veio massageando a minha de forma que eu me sentisse a garota mais importante da minha vida.
Esse foi nosso primeiro e último beijo, afinal, por mais que ele me ache bonita e eu o ache extremamente sexy, nossa amizade é verdadeira e esse momento não foi um momento de paixão, mas sim de duas almas que precisavam se curar.
Apenas dois amigos lambendo suas feridas sem deixar que isso os afetassem.