Capítulo I
Capítulo I
Naquele tempo (não há necessidade de precisar a época) era o Doutor Pires de Aguiar o melhor freguês da alfaiataria Raunier e uma das figuras obrigadas da Rua do Ouvidor. Como advogado diziam-no de uma competência um pouco duvidosa, o que aliás não obstava que ele ganhasse muito dinheiro, -- mas como janota -- força é confessá-lo -- não havia rapaz tão elegante no Rio de Janeiro.
Quando lhe perguntavam a idade, respondia invariavelmente:
-- Orço pelos quarenta, -- e durante muito tempo não deu outra resposta. Os seus contemporâneos de Academia atribuíam-lhe cinqüenta, bem puxados. As senhoras, essas não lhe davam mais que trinta e cinco.
Ele tinha um fraco pelas mulheres de teatro. Consistia o seu grande luxo em ser publicamente o amante oficial de alguma atriz. Não fazia questão de espírito nem beleza; o indispensável é que ela ocupasse lugar saliente no palco, e fosse aplaudida e festejada pelo público. Não era o amor, era a vaidade que o conduzia à nauseabunda Citera dos bastidores.
Essas ligações depressa se desfaziam; duravam enquanto durava o brilho da estrela; desde que esta começava a ofuscar--se, ele achava um pretexto para afastar-se dela e procurar imediatamente outra. Como era inteligente e generoso -- muito mais generoso que inteligente, -- nunca ficava mal com o astro caído.
Algumas vezes o rompimento era provocado por elas -- pelas de mais espírito, -- que facilmente se enfaravam de um indivíduo tão preocupado com a própria pessoa, e tão vaidoso suas roupas.