Capítulo II A Marcelina · Capítulo 2 de 3
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Capítulo II

Capítulo II

No tempo em que se passou a ação deste ligeiro conto, a conquista do Doutor Pires de Aguiar era uma atriz portuguesa, a Clorinda, que viera de Lisboa apregoada pelas cem trombetas do reclame, e cuja estréia, num dos nossos teatrinhos de opereta, o público esperava ansiosamente.

Uma hora antes de começar o espetáculo de estréia, entrou advogado triunfantemente na caixa do teatro, levando pelo braço a sua nova amiga, elegantemente envolvida numa soberba de pelúcia. Ia fazer-lhe entrega do camarim, cujo arranjo confiara liberalmente ao bom gosto e à perícia dos mais hábeis tapeceiros e estofadores.

Ela ficou encantadíssima, a agradeceu com beijos quentes sonoros a dedicada solicitude do amante.

Que belo tapete felpudo! que bonitos quadros! que papel escolhido! que delicioso divã! que magnífico espelho de faces, onde o seu vulto airoso se refletia três vezes por inteiro! e que profusão de perfumarias! e que precioso serviço de toilette!.

Nada faltava também sobre a mesinha da maquilagem, risamente iluminada por dois bicos de gás.

O Doutor Pires de Aguiar tinha longa prática desses arranjos; não podia esquecer-se de nenhum dos ingredientes necessários camarim de uma atriz que se respeita; o arsenal estava completo.

Dali a nada ouviu-se um -- Dá licença?, -- e o diretor cena entrou no camarim, acompanhado por uma mulher já idosa, muito pálida, de aspecto doentio, pobremente trajada.

-- Dona Clorinda, aqui tem a sua costureira.

A estrela não conteve um gesto de despeito. O diretor de cena compreendeu-o, e saiu imediatamente, para não entrar em explicações.

-- É doente? perguntou Clorinda à costureira.

-- Não. senhora. Tive uma doença grave, mas agora estou boa. Saí há dois dias da Santa Casa.

Clorinda trocou um olhar com o advogado, e este disse-lhe, refestelando-se no divã:

-- Ma chêre, il faut se contender de cette habilleuse; noos ne sommes pos en Europe.

Ele impingiu a frase em francês, para que não a entendesse a costureira, mas a verdade é que Clorinda também não percebeu, o que aliás não a impediu de responder: -- Oui.

Despojada da mantilha e da bela capa de pelúcia, Clorinda sentou-se entre os dois bicos de gás, e começou a pintar-se, dizendo: -- Vamos a isto!

E dirigindo-se à costureira:

-- Sente-se. Por que está de pé?

A pobre mulher sentou-se a medo, como receosa de macular a palhinha doirada da cadeira com o seu miserável vestido de chita.

-- Sabe que me disseram bonitas coisas a seu respeito? perguntou a atriz ao advogado, olhando-o pelo espelho.

-- Deveras?

-- Ao que me parece, você tem sido um gajo!

O Doutor Pires de Aguiar teve um sorriso inexprimível. Aquele gajo entrou-lhe pela vaidade adentro como uma grã-cruz.

-- Com que então, a sua especialidade são as atrizes?

-- Sou doido pelo teatro.

-- E há quanto tempo dura essa doidice?

-- Há muito tempo. Estou velho, bem vê. Orço pelos quarenta.

-- Ninguém lhe dará mais de trinta e cinco.

-- São os seus olhos.

-- Qual foi a sua primeira paixão no teatro?

-- Ah! isso...

O advogado levantou o braço e estalou os dedos.

-- ... isso é pré-histórico; perde-se na noite dos tempos.

-- Como se chamava essa colega?

-- Chamava-se Marcelina.

-- Que fim levou?

Ele encolheu os ombros.

-- Sei lá! provavelmente morreu. Nunca mais ouvi falar dela. Há mulheres que desaparecem como os passarinhos que não foram mortos a tiro nem engaiolados: ninguém lhes vê os cadáveres.

-- Gostou dela?

-- Foi talvez a paixão mais séria da minha vida.

-- Nunca mais a procurou?

-- Para quê?

-- Tinha talento?

-- Talento? Não. Tinha habilidade.

E depois de uma pausa:

-- Tinha habilidade e era muito boa rapariga.

-- Brasileira?

-- Sim. Representava ingênuas em dramalhões de capa e aspada, ali, no São Pedro de Alcântara. Um dia -- eu já a tinha deixado -- um dia patearam-na por motivos que nada tinham que ver com a arte dramática; ela desgostou-se; andou mourejando pelas províncias, e afinal desapareceu. Requiescat in pace!

Entrou o cabeleireiro. Enquanto Clorinda lhe confiou a cabeça, o Doutor Pires de Aguiar divagou longamente sobre os méritos da Marcelina; depois falou de outras atrizes, desfiando o interminável rosário das suas mancebias.

Clorinda, a costureira e o cabeleiro ouviam sem dizer palavra .

Terminado o serviço do cabeleireiro, que logo se retirou, Clorinda ergueu-se:

-- Agora, meu doutor, há de me dar licença, sim? Vou vestir-me.

-- Até logo, disse o advogado. O seu penteado ficou esplendido! Vou aplaudi-la. Bonne chonce!

Deu-lhe um beijo -- na testa para não desmanchar a pintura, -- e saiu do camarim, cuja porta a costureira discretamente fechou.

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