Cena III Amor por Anexins · Capítulo 6 de 10
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Cena III

Cena III

ISAÍAS e INÊS

INÊS (Vem pronta para sair, ao ver Isaías assusta-se e quer fugir.) -- Ai!

ISAÍAS (Embargando-lhe a passagem.) -- Ninguém deve correr sem ver de quê.

INÊS -- Que quer o senhor aqui?

ISAÍAS -- Vim em pessoa saber da resposta de minha carta: quem quer vai e quem não quer manda; quem nunca arriscou nunca perdeu nem ganhou; cautela e caldo de galinha...

INÊS (Interrompendo-o.) -- Não tenho resposta alguma que dar! Saia, senhor!

ISAÍAS -- Não há carta sem resposta...

INÊS (Correndo à talha e trazendo um púcaro cheio d’água.) -- Saia, quando não...

ISAÍAS (Impassível.) -- Se me molhar, mais tempo passarei a seu lado; não hei de sair molhado à rua. Eh! eh! Foi buscar lã e saiu tosquiada!...

INÊS -- Eu grito!

ISAÍAS -- Não faça tal! Não seja tola, que quem o é para si, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue! Não exponha a sua boa reputação! Veja que sou um rapaz; a um rapaz nada fica mal...

INÊS -- O senhor, um rapaz?! O senhor é um velho muito idiota e muito impertinente!

ISAÍAS -- O diabo não é tão feio como se pinta...

INÊS -- É feio, é!...

ISAÍAS -- Quem o feio ama bonito lhe parece.

INÊS -- Amá-lo, eu?!... Nunca!...

ISAÍAS -- Ninguém diga: desta água não beberei...

INÊS -- É abominável! Irra!

ISAÍAS -- Água mole em pedra dura, tanto dá...

INÊS -- Repugnante!

ISAÍAS -- Quem espera sempre alcança.

INÊS -- Desengane-se!

ISAÍAS -- O futuro a Deus pertence!

INÊS -- Há alguém que me estima deveras...

ISAÍAS -- Esse alguém (Naturalmente.) sou eu.

INÊS -- Era o que faltava! (Suspirando.) Esse alguém...

ISAÍAS -- Quem conta um conto acrescenta um ponto...

INÊS -- Esse alguém é um moço tão bonito... de tão boas qualidades...

ISAÍAS -- Quem elogia a noiva...

INÊS -- O senhor forma com ele um verdadeiro contraste.

ISAÍAS -- Quem desdenha quer comprar...

INÊS -- Comprar! Um homem tão feio!...

ISAÍAS -- Feio no corpo, bonito na alma.

INÊS (Sentando-se.) Deus me livre de semelhante marido!

ISAÍAS -- Presunção e água benta cada qual toma a que quer... (Senta-se também.)

INÊS (Erguendo-se.) -- Ah, o senhor senta-se? Dispõe-se a ficar!

Meu Deus, isto foi um mal que me entrou pela porta!

ISAÍAS (Sempre impassível.) -- Há males que vêm para bem.

INÊS -- Temo-la travada.

ISAÍAS -- Venha sentar-se a meu lado. (Vendo que Inês senta-se longe dele.) Se não quiser, vou eu... (Dispõe-se a aproximar a cadeira.)

INÊS -- Pois sim! Não se incomode! (Faz-lhe a vontade.) Não há remédio!

ISAÍAS (Chegando mais a cadeira.) -- O que não tem remédio, remediado está.

INÊS (Afastando a sua.) -- O que mais deseja?

ISAÍAS -- Diga-me cá: o seu noivo?... (Faz-lhe uma cara.)

INÊS -- Não entendo.

ISAÍAS -- Para bom entendedor meia palavra basta...

INÊS -- Mas o senhor nem meia palavra disse!

ISAÍAS -- Pergunto se... fala francês...

INÊS -- Como?

ISAÍAS -- Ora, bolas! Quem é surdo não conversa!

INÊS -- Mas a que vem essa pergunta?

ISAÍAS (Naturalmente.) -- Quem pergunta quer saber.

INÊS -- Ora!

ISAÍAS (Sentencioso.) -- Dois sacos vazios não se podem ter de pé.

INÊS -- Essa teoria parece-se muito com o senhor.

ISAÍAS -- Por quê?

INÊS -- Porque já caducou também.

ISAÍAS (Formalizado.) -- Então eu já caduquei, menina? Isso é mentira.

INÊS -- É verdade.

ISAÍAS -- Não é.

INÊS -- É.

ISAÍAS -- Pois se é, nem todas as verdades se dizem. (Ergue-se e passeia.)

INÊS -- Ah! o senhor zanga-se? É porque quer; não me viesse dizer tolices! (Ergue-se.)

ISAÍAS (Interrompendo o seu passeio, solenemente.) -- Na casa em que não há pão, todos ralham, ninguém tem razão.

INÊS -- Ora! somos ainda muito moços!

ISAÍAS -- Quem? nós?

INÊS -- (De mau humor.) -- Não falo do senhor: falo dele...

ISAÍAS -- Ah! fala dele...

INÊS -- Havemos de trabalhar um para o outro...

ISAÍAS -- É bom, é: Deus ajuda a quem trabalha.

Canto

INÊS -- Sem desgosto viveremos, Seremos ricos, talvez; Muitos morgados teremos... ISAÍAS -- Mas um só de cada vez... (Zangado.) A faceira Talvez convidar-me queira Para padrinho de algum!

INÊS -- E não suponha que, apesar de pobre, não me faça bonitos presentes o meu noivo.

ISAÍAS -- É! Quem cabras não tem e cabritos...

INÊS -- Insulta-o?

ISAÍAS -- Cão danado, todos a ele! Pois eu havia de insultá-lo, senhora?

INÊS -- Se estivesse calado...

ISAÍAS -- Sim, senhora: em boca fechada não entram mosquitos... mas é que o seu futurozinho me interessa...

INÊS -- Muito obrigada. (Senta-se.)

ISAÍAS -- Não há de quê. Se bem que eu não seja nenhum Matusalém, estou no caso de lhe dar conselhos. Ouça-me: quem me avisa meu amigo é; quem à boa árvore se chega boa sombra o cobre.

INÊS -- Mesmo por já estar no caso de me dar conselhos, é que o não quero para marido.

ISAÍAS -- Se eu fosse jovem, não me havia de aceitar, por estar no caso de os receber. Preso por ter cão e preso por não ter!...

INÊS -- Não desejo enviuvar de novo...

ISAÍAS -- Vaso ruim não quebra...

INÊS -- Desengane-se, senhor: não são os seus ditados que me hão de fazer mudar de resolução (Passeia.) Oh! ISAÍAS -- (Acompanhando-a.) -- Talvez façam, talvez!... Devagar se vai ao longe... muito tolo é quem se cansa... (Inês volta-se, param defronte um do outro.) Menina, antes só do que mal acompanhado... Olhe que o pior cego é aquele que não quer ver...

INÊS (À parte.) -- Vou pregar-lhe uma peta. (Alto.) Mas se me faltasse este noivo, outros rapazes há que me têm feito pé-de-alferes.

ISAÍAS -- Águas passadas não movem moinhos!

INÊS -- E entre eles...

ISAÍAS -- O passado, passado!

INÊS -- Não me interrompa!... E entre eles há um ricaço que em outro tempo...

ISAÍAS -- O tempo que vai não volta!

INÊS -- Não me interrompa, já disse! E entre eles há um ricaço que noutro tempo se esqueceu da promessa...

ISAÍAS -- O prometido é devido!

INÊS -- Ai, mau!... se esqueceu da promessa que me havia feito; mas que está outra vez pelo beicinho...

ISAÍAS -- Cesteiro que faz um cesto, faz um cento... (Movimento de Inês. Com força.) Se tiver verga e tempo! E quem é esse... ricaço?

INÊS -- É segredo.

ISAÍAS -- Segredo em boca de mulher é manteiga em nariz... (A um gesto de Inês.) de homem! Mas faz bem, faz bem: o segredo é a alma do negócio...

INÊS -- O senhor tem na cabeça um moinho de adágios! Passa!...

ISAÍAS -- O que abunda não prejudica.

INÊS -- Bem! Para maçadas basta. Mude-se!

ISAÍAS -- Os incomodados é que se mudam.

INÊS -- Mas eu estou em minha casa, senhor!

ISAÍAS -- Descobriu mel de pau!

INÊS -- Irra! Que homem sem-vergonha!

ISAÍAS (Examinando cinicamente a costura.) -- Quem não tem vergonha todo o mundo é seu.

INÊS -- Se o meu noivo o visse aqui! Ele, que jurou dar cabo do primeiro rival que...

ISAÍAS -- Cão que ladra não morde... E eu sou homem!... tenho força... E contra a força não há resistência!...

INÊS (Irônica.) -- Ora, por quem é, não faça mal ao pobre moço, sim?

ISAÍAS -- Faço!... Quem o seu inimigo poupa às mãos lhe morre. Julga que não estou falando sério? Uma coisa é ver e outra...

INÊS (No mesmo.) -- Ora, não faça tal.

ISAÍAS -- Faço! isto tão certo como dois e três serem cinco. São favas contadas. Quem não quiser ser lobo não lhe vista a pele!

INÊS -- Mas sabe que ele é valente?

ISAÍAS -- Também eu sou! Cá e lá más fadas há! Duro com duro não faz bom muro, e dois bicudos não se beijam!

INÊS -- Ponha-se ao fresco, preciso sair; tenho que fazer lá fora.

ISAÍAS -- E eu tenho que fazer cá dentro. Um dia bom mete-se em casa. (Pausa.) Olhe, senhora, olhe bem para mim, acha-me feio: não acha?

INÊS -- Ai, ai, ai!...

ISAÍAS -- Eu também acho, e feliz é o doente que se conhece. Mas muitas vezes as aparências enganam e o hábito não faz o monge.

Experimente e verá. (Suplicante.) Case comigo.

INÊS -- Gentes!

ISAÍAS -- Ah! se fôssemos casadinhos, outro galo cantaria! Por exemplo: em vez de sair agora à rua, com este sol de matar passarinho, mandava-me a mim, ao seu maridinho...

INÊS (Arremedando-o.) -- Ao seu maridinho... (À parte.) Oh! que idéia! Vou me ver livre dele. (Alto.) Então, sem sermos casados, não pode prestar-me um pequeno serviço?

ISAÍAS -- Conforme o serviço: ponha os pontos nos ii.

INÊS -- Se me fosse comprar três metros de escumilha. Olhe... aqui tem a amostra... No armarinho do Godinho... Sabe onde é?

ISAÍAS -- Sei; mas quando não soubesse? Quem tem boca vai a Roma.

INÊS -- Está contrariado?

ISAÍAS -- O que vai por gosto regala a vida.

INÊS -- Tome o dinheiro.

ISAÍAS -- Nada... não é preciso... (Vai saindo e estaca.) Diabo! não me lembra um ditado a propósito! (Sai.)

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