Cena VI
Cena VI
[INÊS]
INÊS -- Ah! a letra é de Filipe. Faz bem em escrever-me o ingrato! Há doze dias que nos não vemos... (Abre a carta e lê. Jogo de fisionomia.) “Inês. Peço-te perdão por ter dado causa a que perdesses comigo o teu tempo. Ofereceram-me um casamento vantajoso, e não soube recusar. Ainda uma vez perdão! Falta-me o ânimo para dizer-te mais alguma coisa. Dentro em uma semana estarei casado. Esquece-te de mim -- Filipe.” (Declamando.) Será possível! Oh! meu Deus! (Relendo.) Sim... cá está... é a sua letra... (Depois de ter ficado pensativa um momento.) Ora, adeus! Eu também não gostava dele lá essas coisas... Digo mais, antes o Isaías; é mais velho, mais sensato, tem dinheiro a render, e Filipe acaba de me provar que o dinheiro é tudo nestes tempos. Espero aqui o Isaías com o meu “sim” perfeitamente engatilhado! Oh! o dinheiro...
Recitativo
Louro dinheiro, soberano esplêndido, Força, Direito, Rei dos reis, Razão. Que ao trono teu auriluzente e fúlgido Meus pobres hinos proclamar-te vão. Do teu poder universal, enérgico, Ninguém se atreve a duvidar! Ninguém! Rígida mola desta imensa máquina, Fácil conduto para o eterno bem! Aos teus acenos, Deus antigo e déspota, Aos teus acenos, Deus moderno e bom, Caem virtudes e se exaltam vícios! Todos te almejam, precioso dom! Inda hás de ser o derradeiro ídolo, Inda hás de ser a só religião, Louro dinheiro, soberano esplêndido, Força, Direito, Rei dos reis, Razão!...