Canto III Cantos da Solidão · Capítulo 4 de 5
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Canto III

Canto III

Ei-lo, que vem, de ferro e fogo armado,

Da destruição o gênio formidável,

Em sua fatal marcha devastando

O que de mais esplêndido e formoso

Alardeia no ermo a natureza;

Que nem somente o íncola das selvas

De seu furor foi vítima; - após ele

Rui também a cúpula virente,

Único abrigo seu, - sua riqueza.

Esta trêmula abóbada, que ruge

Por seculares troncos sustentada,

Este silêncio místico, estas sombras,

Que agora me derramam sobre a fronte

Suave inspiração, cismar saudoso,

Vão em breve morrer ; - lá vem o escravo,

Brandindo o ferro, que dá morte às selvas,

E - afanoso - põe peito à ímpia obra: -

Já o tronco, que os séculos criaram,

Ao som dos cantos do africano adusto

Geme aos sonoros, compassados golpes,

Que vão nas brenhas ressoando ao longe;

Soa o último golpe, - range o tronco,

O tope excelso trêmulo vacila,

E desabando com gemido horrendo

Restruge qual trovão de monte em monte

Nas solidões profundas reboando.

Assim vão baqueando uma após outra

Da floresta as colunas venerandas;

E todas essas cúpulas imensas,

Que inça há pouco no céu balanceando,

A sanha dos tufões desafiavam,

Aí jazem, como ossadas de gigantes,

Que num dia de cólera prostrara

O raio do Senhor.

Oh! mais terrível

Que o raio, que o dilúvio, o rubro incêndio

Vem consumar essa obra deplorável.....

Qual hidra formidável, no ar exalça

A crista sanguinosa, sacudindo

Com medonho rugido as ígneas asas,

E negros turbilhões de fumo ardente

Das abrasadas fauces vomitando,

Em hórrido negrume os céus sepulta.....

Estala, ruge, silva, devorando

Da floresta os cadáveres gigantes;

Voam sem tino as aves assustadas

No ar soltando pios lamentosos,

E as feras, em tropel tímidas correm,

A se embrenhar no fundo dos desertos,

Onde vão demandar nova guarida.....

Tudo é cinza e ruína: - adeus, ó sombra,

Adeus, murmúrio, que embalou meus sonhos,

Adeus, sonoro frêmito das auras,

Sussurros, queixas, suspirosos ecos,

Da solidão misterioso encanto!

Adeus! - Em vão a pomba esvoaçando

Procura um ramo em que fabrique o ninho;

Em vão suspira o viajor cansado

Por uma sombra, onde repouse os membros

Repassados do ardor do sol a pino!

Tudo é cinza e ruína, - tudo é morto!!

E tu, ó musa, que amas o deserto

E das caladas sombras o mistério,

Que folgas de embalar-te aos sons aéreos

D’almas canções, que a solidão murmura,

Que amas a criação, qual Deus formou-a,

- Sublime e bela - vem sentar-te, ó musa,

Sobre estas ruínas, vem chorar sobre elas.

Chora com a avezinha, a quem roubaram

O ninho seu querido, e com teus cantos

Procura adormecer o férreo braço

Do impróvido colono, que semeia

Somente estragos neste chão fecundo!

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