Parte I Inspirações da Tarde · Capítulo 2 de 4
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Parte I

Parte I

As orgias celebremos:

Evoé! - Peian! - cantemos.

(C. Semedo)

Convivas do prazer, vinde comigo

Ao folgar dos festins; - encham-se as taças,

Afine-se o alaúde.

Salve, ruidosos hinos desenvoltos!

Salve, tinir dos copos!

Festas de amor, alegres algazarras

De ebritroante bródio!

Salve! co'a taça em punho eu vos saúdo!

Beber, cantar e amar eis, meus amigos,

Das breves horas o mais doce emprego;

O mais tudo é quimera... o ardente néctar

No brilhante cristal férvido espume,

E verta n'alma encantador delírio

Que a importuna tristeza longe espanca,

E alenta o coração para os prazeres.

Pra levar sem gemer à fatal meta

Da vida o peso, vinde em nosso auxílio,

Amor, poesia e vinho.

Ferva o delírio ao retinir dos copos,

E entre ondas de vinho e de perfumes,

Se evapore em festivos ditirambos.

É doce assim viver! - ir desfolhando,

Descuidado e a sorrir, a flor dos anos,

Sem lhe contar as pétalas, que fogem

Nas torrentes do tempo arrebatadas:

É doce assim viver-se a vida é sonho,

Seja um sonho de rosas.

Quero deixar de minha vida as sendas

Juncadas das relíquias do banquete;

Frascos vazios, machucadas flores,

Grinaldas pelo chão, cristais quebrados,

E entre murchos festões roto alaúde,

Que reboando balanceia ao vento,

Lembrando amores que cantei na vida,

Sejam de meu passar por sobre a terra

Os únicos vestígios.

Antes assim, do que passar os dias,

- Qual feroz caímã, guardando o ninho,

Inquieto a vigiar avaros cofres,

Onde a cobiça aferrolhou tesouros

Colhidos entre as lágrimas do órfão

E as ânsias do faminto.

Antes assim, do que sangrentos louros

Ir pleitear nos campos da carnagem,

E ao som de horríveis pragas e gemidos,

Passar deixando após um largo rio

De lágrimas e sangue.

Antes assim... mas quem aqui vos chama,

Importunas idéias? - por que vindes

Mesclar voz agoureira

Das meigas aves aos mimosos quebros?

Vinde vós, do prazer risonhas filhas,

De ebúrneo colo, torneados seios,

Flores viçosas dos jardins da vida,

Vinde, ó formosas, bafejai perfumes

Sobre estas frontes, que em delírios ardem,

Vozes casai da citara aos arpejos,

E ao som de meigos, deleixados cantos,

Ao quebrado languor dos olhos lindos,

Ao mole arfar dos mal ocultos seios,

Fazei brotar nos corações rendidos

Os férvidos anelos, que despontam

Nos vagos sonhos d'alma, bafejados

De fagueira esperança, e são tão doces!...

Talvez mais doces do que os gozos mesmos

Seja harmonia o ar, flores a terra,

Amor os corações, os lábios risos,

Para nós seja o mundo um céu de amores.

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