Parte II Inspirações da Tarde · Capítulo 3 de 4
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Parte II

Parte II

Je veux rêver, et non pleurer! (Lamartine)

Mas é já tempo de depor as taças:

Que este ardente delírio, que inda agora

Ao som de soltos hinos

Tripudiava n'alma, vai de manso

Para os lânguidos sonhos descambando,

Sonhos divinos, quais só tê-los sabe

Ditoso amante, quando a fronte inclina

No regaço da amada, e entre as delícias

De um beijo adormecera.

Basta pois, - que o prazer não só habita

Na mesa dos festins, entre o alvoroço

De jogos, danças, músicas festivas...

Vertei, ó meus amigos,

Vertei também no cíato da vida

Algumas gotas de melancolia;

Cumpre também banquetear o espírito,

Na paz e no silencio inebriá-lo

Cos místicos aromas que se exalam

Do coração, nas horas de remanso:

Na solidão, ao respirar das auras

Se acalme um pouco o férvido delírio

Dos atroados bródios.

E ao túmulo suceda a paz dos ermos

Bem como a noite ao dia!

Quanto é grato depois de ter sumido

Largas horas em risos e folguedos,

Deixando estanque a taça do banquete,

Ir respirar o hálito balsâmico

Que em torno exalam flóridas campinas,

E reclinado à' sombra da mangueira

Fruir em solidão esse perfume

De tristeza, de amor e de saudade,

Que em momentos de plácido remanso

Do mais íntimo d'alma se evapora!

Vertei, brisas, vertei na minha fronte

Com macio murmúrio alma frescura;

Fagueiras ilusões, vinde inspirar-me;

Aéreos cantos, quérulos rumores,

Doces gorjeios, sombras e perfumes,

Com risonhas visões vinde embalar-me,

E adormecei minh'alma entre sorrisos.

Longe, bem longe destes doces sítios

O torvo enxame de cruéis pesares...

Deixai-me a sós fruindo

A taça misteriosa onde a poesia

A flux verte seu néctar.

Busquem outros sedentos de tristezas,

De dores só nutrir o pensamento,

E quais duendes pálidos vagueiem,

Entre os ciprestes da mansão funérea,

Lições severas demandando às campas;

Meditações tão graves não me aprazem;

Longe, tristes visões, fúnebres larvas

De agoureiro sepulcro

Longe também, ó vãos delírios d'alma,

Glória, ambição, futuro. - Oh! não venhais

Crestar com o bafo ardente

A viçosa grinalda dos amores.

Nos jardins do prazer colham-se rosas,

E com elas se esconda o horror da campa....

Deixai que os insensatos visionários

Da vida o campo só de abrolhos junquem,

Lobrigando ventura além da campa;

Míseros loucos... que os ouvidos cerram

A voz tão meiga, que ao prazer os chama,

E vão correndo após um bem sonhado,

Oco delírio da vaidade humana....

De flores semeai da vida as sendas,

E com elas se esconda o horror da campa...

A campa! - eis a barreira inexorável,

Que nosso ser inteiro devorando

Ao nada restitui o que é do nada!.

Mas enquanto se oculta a nossos olhos

Nos longes nebulosos do futuro,

Nas ondas do prazer, que mansas correm,

Larguemos a boiar a curta vida,

Bem como a borboleta matizada,

Que desdobrando ao ar as leves asas

Contente e descuidosa se abandona

Ao brando sopro de benigno zéfiro.

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