Canto Inaugural. À Memória Do Cônego Januário Da Cunha Barbosa
Canto Inaugural. À Memória Do Cônego Januário Da Cunha Barbosa
Onde essa voz ardente e sonorosa,
Essa voz que escutámos tantas vezes,
Polida como a lamina d’um gladio,
Essa voz onde está?
No rostro popular severa e forte,
No pulpito serena, amiga e branda,
Pelas naves do templo reboava,
Como oração piedosa!
E a mão segura, e a fronte audaciosa,
Onde um vulcão de ideias borbulhava,
E o generoso ardor de uma alma nobre
-Onde párão tão bem?
Novo Colombo audaz por novos mares,
A sonda em punho, os olho nas estrellas,
Co’as bronzeas quilhas retalhando as vagas
Do inhospito elemento;
Porfioso e tenaz no duro empenho,
No manto do porvir bordava ufano,
Sob os tropheos da liberdade sacra,
Os destinos da Patria!
Nocturno viajor que andou vagando
A noite inteira, a revolver-se em trevas,
Onde te foste, quando o sol roxeia
Nuvens de um céo mais puro?
Seccou-se a voz nas fauces resequidas,
Parou sem força o coração no peito,
Quando somente um pé firmava a custo
Na terra promettida!
E a mão cançada fraquejou ... pendeo-lhe,
Inda a vejo pendente, sobre os paginas
Da patria historia, onde gravou seo nome
Tarjado em letras d’oiro.
Pendeo-lhe ... quando a mente escandecida
Talvez quadro maior lhe affigurava
Que a luta acerba do Titan brioso,
Ultima prole de Saturno.
Inveja Claudiano pincel valido,
Que nos retrata o cataclysmo horrendo,
Que elle-poeta-não achou nos combros
Da ignivoma Tessalia!
Inveja!... mas ás formas do Gigante
Sorri-se o grande Homero;-e o cego Bardo
Da verde Erin, entre os heróes famosos
Prazenteiro o recebe!
Dorme, ó lutador, que assaz lutaste!
Dorme agora no gelido sudario;
Foi duro o afan, asperrima a contenda,
Será fundo o descanço.
Dorme, ó lutador, teo somno eterno;
Mas sobre a lousa do sepulchro humilde,
Como na vida foi, surja o teo busto
Austero e glorioso.
Columna inteira em combros derrocados,
Rolo encerado, que já beija as praias
Do remoto porvir,-seguro e salvo
Dos naufragios d’um seculo;
Dorme!-não serei eu quem te desperte,
Meos versos ... não serão:-palmas sem graça,
Ou pobre ramo d’arvore funerea,
Pyramidal cypreste.
São flôres que desfolha sobre um tumulo
Singelo, entre um rosal, quasi fagueiro,
Piedosa mão de peregrino extranho,
Que alli passou acaso!