Canto Inaugural. À Memória Do Cônego Januário Da Cunha Barbosa Segundos Cantos · Capítulo 18 de 23
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Canto Inaugural. À Memória Do Cônego Januário Da Cunha Barbosa

Canto Inaugural. À Memória Do Cônego Januário Da Cunha Barbosa

Onde essa voz ardente e sonorosa,

Essa voz que escutámos tantas vezes,

Polida como a lamina d’um gladio,

Essa voz onde está?

No rostro popular severa e forte,

No pulpito serena, amiga e branda,

Pelas naves do templo reboava,

Como oração piedosa!

E a mão segura, e a fronte audaciosa,

Onde um vulcão de ideias borbulhava,

E o generoso ardor de uma alma nobre

-Onde párão tão bem?

Novo Colombo audaz por novos mares,

A sonda em punho, os olho nas estrellas,

Co’as bronzeas quilhas retalhando as vagas

Do inhospito elemento;

Porfioso e tenaz no duro empenho,

No manto do porvir bordava ufano,

Sob os tropheos da liberdade sacra,

Os destinos da Patria!

Nocturno viajor que andou vagando

A noite inteira, a revolver-se em trevas,

Onde te foste, quando o sol roxeia

Nuvens de um céo mais puro?

Seccou-se a voz nas fauces resequidas,

Parou sem força o coração no peito,

Quando somente um pé firmava a custo

Na terra promettida!

E a mão cançada fraquejou ... pendeo-lhe,

Inda a vejo pendente, sobre os paginas

Da patria historia, onde gravou seo nome

Tarjado em letras d’oiro.

Pendeo-lhe ... quando a mente escandecida

Talvez quadro maior lhe affigurava

Que a luta acerba do Titan brioso,

Ultima prole de Saturno.

Inveja Claudiano pincel valido,

Que nos retrata o cataclysmo horrendo,

Que elle-poeta-não achou nos combros

Da ignivoma Tessalia!

Inveja!... mas ás formas do Gigante

Sorri-se o grande Homero;-e o cego Bardo

Da verde Erin, entre os heróes famosos

Prazenteiro o recebe!

Dorme, ó lutador, que assaz lutaste!

Dorme agora no gelido sudario;

Foi duro o afan, asperrima a contenda,

Será fundo o descanço.

Dorme, ó lutador, teo somno eterno;

Mas sobre a lousa do sepulchro humilde,

Como na vida foi, surja o teo busto

Austero e glorioso.

Columna inteira em combros derrocados,

Rolo encerado, que já beija as praias

Do remoto porvir,-seguro e salvo

Dos naufragios d’um seculo;

Dorme!-não serei eu quem te desperte,

Meos versos ... não serão:-palmas sem graça,

Ou pobre ramo d’arvore funerea,

Pyramidal cypreste.

São flôres que desfolha sobre um tumulo

Singelo, entre um rosal, quasi fagueiro,

Piedosa mão de peregrino extranho,

Que alli passou acaso!

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