Ato III Frei Luís de Sousa · Capítulo 3 de 3
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Ato III

Ato III

ACTO TERCEIRO

_Parte baixa ao palacio de D. João de Portugal, communicando, pela porta

á esquerda do espectador, com a capella da Senhora-da-Piedade na egreja

de San'Paulo dos Dominicos d'Almada: é um casarão vasto sem ornato

algum. Arrumadas ás paredes, em diversos pontos, escadas, tocheiras,

cruzes, ciriaes e outras alfaias e guizamentos d'egreja de uso

conhecido. A um lado um esquife dos que usam as confrarias; do outro uma

grande cruz negra de tábua com o letreiro J. N. R. J., e toalha

pendente, como se usa nas cerimonias da semana-sancta. Mais para a scena

uma banca velha com dois ou tres tamboretes; a um lado uma tocheira

baixa com tocha accesa e ja bastante gasta; sôbre a mesa um castiçal de

chumbo, de credencia, baixo e com vela accesa tambem,--e um hábito

completo de religioso dominico, tunica, escapulario, rosario, cinto,

etc. No fundo, porta que dá para as officinas e aposentos que occupam o

resto dos baixos do palacio.--É alta noite_.

SCENA I

MANUEL DE SOUSA, _sentado n'um tamborete, aopé da mesa, o rosto

inclinado sôbre o peito, os braços cahidos e em completa prostração

d'espirito e de corpo; n'um tamborete do outro lado_ JORGE, _meio

incostado para a mesa, com as mãos postas, e os olhos pregados no

irmão_.

*Manuel*. Oh minha filha, minha filha! (_Silencio longo_) Desgraçada

filha, que ficas orphan!... orphan de pae e mãe... (_pausa_)... e de

familia e de nome, que tudo perdêste hoje... (_Levânta-se com violenta

afflição_) A desgraçada nunca os teve!--Oh Jorge, que ésta lembrança é

que me matta, que me desespera! (_Appertando a mão do irmão, que se

levantou após d'elle e o está consolando do gesto_.) É o castigo

terrivel do meu êrro... se foi êrro... crime sei que não foi. E sabe-o

Deus, Jorge, e castigou-me assim, meu irmão!

*Jorge*. Paciencia, paciencia: os seus juizos são imperscrutaveis.

(_Acalma e faz sentar o irmão: tornam a ficar ambos como estavam_.)

*Manuel*. Mas eu em que mereci ser feito o homem mais infeliz da terra,

pôsto de alvo á irrisão e ao discursar do vulgo?... Manuel de

Sousa-Coutinho, o filho de Lopo de Sousa-Coutinho, o filho do nosso pae,

Jorge!

*Jorge*. Tu chámas-te o homem mais infeliz da terra... Ja te esquecêste

que ainda está vivo aquelle...

*Manuel*, _cahindo em si_. É verdade. (_Pausa; e depois como quem se

desdiz_) Mas não é, nem tanto: padeceu mais, padeceu mais longamente, e

bebeu até ás fezes o calix das amarguras humanas... (_Levantando a voz_)

Mas fui eu, eu que lh'o preparei, eu que lh'o dei a beber, pelas mãos...

innocentes mãos!... d'essa infeliz que arrastei na minha quéda, que

lancei n'esse abysmo de vergonha, a quem cobri as faces--as faces puras,

e que não tinham córado d'outro pejo senão do da virtude e do recato...

cobri-lh'as de um veo d'infamia que nem a morte hade levantar, porque

lhe fica, perpétuo e para sempre, lançado sôbre o tumulo a cobrir-lhe a

memória de sombras... de manchas que se não lavam!--Fui eu o auctor de

tudo isto, o auctor da minha desgraça e da sua deshonra d'elles...

Sei-o, conheço-o; e não sou mais infeliz que nenhum?

*Jorge*. Ve a palavra que disseste: «deshonra»: lembra-te d'ella e de

ti, e considera, se podes pleitear miserias com esse homem a quem Deus

não quiz accudir com a morte antes de conhecer ess'outra agonia

maior.--Elle não tem...

*Manuel*. Elle não tem uma filha como eu, desgraçado... (_pausa_)--uma

filha bella, pura, adorada, sôbre cuja cabeça--oh! porque não é na

minha!--vai cahir toda essa deshonra, toda a ignominia, todo o opprobrio

que a injustiça do mundo, não sei porquê, me não quer lançar no rosto a

mim, para pôr tudo na testa branca e pura de um anjo que não tem outra

culpa senão a da origem que eu lhe dei.

*Jorge*. Não é assim, meu irmão; não te cegues com a dor, não te faças

mais infeliz do que es. Ja não es pouco, meu pobre Manuel, meu querido

irmão! e Deus hade levar em conta essas amarguras. Ja que te não póde

apartar o calix dos beiços, o que tu padeces, hade ser descontado

n'ella, hade resgatar a culpa...

*Manuel*. Resgate! sim, para o ceu: n'esse confio eu... mas o mundo?...

*Jorge*. Deixa o mundo e as suas vaidades.

*Manuel*. Estão deixadas todas. Mas este coração é de carne.

*Jorge*. Deus, Deus será o pae de tua filha.

*Manuel*. Olha, Jorge: queres que te diga o que sei decerto, e que devia

ser consolação... mas não é, que eu sou homem, não sou anjo, meu

irmão--devia ser consolação, e é desespêro, é a coroa d'espinhos de toda

ésta paixão que estou passando... é que a minha filha... Maria... a

filha do meu amor--a filha do meu peccado, se Deus quer que seja

peccado--não vive, não resiste, não sobrevive a ésta affronta.

(Desata a soluçar, cái com os cotovelos fixos na mesa e as mãos

appertadas no rosto: fica n'esta posição por longo tempo. Ouve-se de

quando em quando um soluço comprimido. Frei Jorge está em pé, detrás

d'elle, amparando-o com seu corpo, e os olhos postos no ceu.)

*Jorge*, _chamando timidamente_. Manuel!

*Manuel*. Que me queres, irmão?

*Jorge*, _animando-o_. Ella não está tam mal; já lá estive hoje...

*Manuel*. Estiveste?... oh! conta-me, conta-me; eu não tenho... não tive

ainda ânimo de a ir ver.

*Jorge*. Haverá duas horas que entrei na sua camera, e estive aopé do

leito. Dormia, e mais socegada da respiração. O accesso de febre, que a

tomou quando chegámos de Lisboa e que viu a mãe n'aquelle

estado,--parecia declinar... quebrar-se mais alguma coisa. Dorothea, e

Telmo... pobre velho coitado!... estavam aopé d'ella, cada um de seu

lado... disseram-me que não tinha tornado a... a...

*Manuel*. A lançar sangue?... Se ella deitou o do coração!... não tem

mais. N'aquelle corpo tam franzino, tam delgado, que mais sangue hade

haver?--Quando hontem a arranquei d'aopé da mãe e a levava nos braços,

não m'o lançou todo ás golfadas aqui no peito? (_Mostra um lenço branco

todo manchado de sangue_) Não o tenho aqui... o sangue... o sangue da

minha víctima?... que é o sangue das minhas veias... que é o sangue da

minha alma--é o sangue da minha querida filha! (_Beija o lenço muitas

vezes_) Oh meu Deus, meu Deus! eu queria pedir-te que a levasses ja... e

não tenho ânimo. Eu devia acceitar por mercê de tuas misericordias que

chamasses aquelle anjo para junto dos teus, antes que o mundo, este

mundo infame e sem commiseração, lhe cuspisse na cara com a desgraça do

seu nascimento.--Devia, devia... e não posso, não quero, não sei, não

tenho ânimo, não tenho coração. Peço-te vida, meu Deus (_ajoelha e põe

as mãos_) peço-te vida, vida, vida... para ella, vida para a minha

filha!... saude, vida para a minha querida filha!... e morra eu de

vergonha, se é preciso; cubra-me o escarneo do mundo, deshonre-me o

opprobrio dos homens, tape-me a sepultura uma loisa de ignominia, um

epitaphio que fique a bradar por essas eras deshonra e infamia sôbre

mim!... Oh meu Deus, meu Deus! (_Cái de bruços no chão... Passado algum

tempo, Frei Jorge se chega para elle, levanta-o quasi a pêso, e o torna

a assentar_.)

*Jorge*. Manuel, meu bom Manuel, Deus sabe melhor o que nos convem a

todos: põe nas suas mãos esse pobre coração, põe-n'o resignado e

contricto, meu irmão, e Elle fará o que em sua misericordia sabe que é

melhor.

*Manuel*, _com vehemencia e medo_. Então desinganas-me... desinganas-me

ja?... é isso que queres dizer? Falla, homem: não ha que esperar?... não

ha que esperar d'alli, não é assim? dize: morre, morre?...

(_desanimado_) Tambem fico sem filha!

*Jorge*. Não disse tal. Por charidade comtigo, meu irmão, não imagines

tal. Eu disse-te a verdade: Maria pareceu-me menos opprimida; dormia...

*Manuel*, _variando_. Se Deus quizera que não acordásse!

*Jorge*. Valha-me Deus!

*Manuel*. Para mim aqui está ésta mortalha: (_tocando no hábito_) morri

hoje... vou amortalhar-me logo; e adeus tudo o que era mundo para mim!

Mas minha filha não era do mundo... não era, Jorge; tu bem sabes que não

era: foi um anjo que veiu do ceu para me acompanhar na peregrinação da

terra, e que me apontava sempre, a cada passo da vida, para a eterna

pousada d'onde viera e onde me conduzia... Separou-nos o archanjo das

desgraças, o ministro das iras do Senhor que derramou sôbre mim o vaso

cheio das lagrymas, e a taça rasa das amarguras ardentes de sua

cholera... (_Cahindo de tom_) Vou com ésta mortalha para a sepultura...

e, viva ou morta, ca deixo a minha filha no meio dos homens que a não

conheceram, que a não hãode conhecer nunca, porque ella não era d'este

mundo nem para elle... (_Pausa_)--Torna lá, Jorge, vai vê-la outra vez,

vai e vem-me dizer; que eu ainda não posso... mas heide ir, oh! heide ir

vê-la e beijá-la antes de descer á cova... Tu não queres, não podes

querer...

*Jorge*. Havemos de ir... quando estiveres mais socegado... havemos de

ir ambos: descança, hasde vê-la.--Mas isto inda é cedo.

*Manuel*. Que horas serão?

*Jorge*. Quatro, quatro e meia. (_Vai á porta da esquerda e volta_) São

cinco horas, pelo alvor da manhan que ja dá nos vidros da egreja. D'aqui

a pouco iremos; mas socega.

*Manuel*. E a outra... a outra desgraçada, meu irmão?

*Jorge*. Está--imagina por ti--está como não podia deixar de estar: mas

a confiança em Deus póde muito: vai-se conformando. O Senhor fará o

resto.--Eu tenho fe n'este escapulario (_tocando no hábito em cima da

mesa_) para ti e para ella. Foi uma resolução digna de vós, foi uma

inspiração divina que os allumiou a ambos. Deixa estar; ainda póde haver

dias felizes para quem soube consagrar a Deus as suas desgraças.

*Manuel*. E isso está tudo prompto? Eu não soffro n'estes hábitos, eu

não aturo, com estes vestidos de vivo, a luz d'esse dia que vem a

nascer.

*Jorge*. Está tudo concluido. O arcebispo mostrou-se bom e piedoso

prelado n'esta occasião: e é um sancto homem, é. O arcebispo ja expediu

todas as licenças e mais papeis necessarios. Coitado! o pobre do velho

velou quasi toda a noite com o seu vigario para que não faltásse nada

desde o romper do dia. Mandou-se ao provincial, e pela sua parte e pela

nossa tudo está corrente. Frei João de Portugal, que é o prior de

Bemfica, e tambem vigario do Sacramento, sabes, chegou haverá duas

horas, noite fechada ainda, e ca está: é quem te hade lançar o hábito, a

ti e a Dona... a minha irman.--Depois ireis, segundo o vosso desejo, um

para Bemfica, outro para o Sacramento.

*Manuel*. Tu es um bom irmão, Jorge: (_apperta-lhe a mão_) Deus t'o hade

pagar. (_Pausa_) Eu não me atrevo... tenho repugnancia... mas é forçoso

perguntar-te por alguem mais. Onde está _elle_... e o que fará!...

*Jorge*. Bem sei, não digas mais: o romeiro. Está na minha cella, e de

lá não hade sahir--que foi ajustado entre nós--senão quando... quando eu

lh'o disser. Descança: não verá ninguem, nem será visto de nenhum

d'aquelles que o não devem ver. Demais, o segrêdo de seu nome verdadeiro

está entre mim e ti--além do arcebispo, a quem foi indispensavel

communicá-lo para evitar todas as formalidades e delongas que aliás

havia de haver n'uma separação d'esta ordem.--Ainda ha outra pessoa com

quem lhe prometti--não pude deixar de prometter, porque sem isso não

queria elle entrar em accôrdo algum--com quem lhe prometti que havia de

fallar hoje e antes de mais nada.

*Manuel*. Quem? será possivel?... Pois esse homem quer ter a crueldade

de rasgar, fevra a fevra, os pedaços d'aquelle coração ja partido?--Não

tem intranhas esse homem: sempre assim foi, duro, desapiedado como a sua

espada.--É D. Magdalena que elle quer ver?...

*Jorge*. Não, homem; é o seu aio velho, é Telmo-Paes. Como lh'o havia de

eu recusar?

*Manuel*. De nenhum modo: fizeste bem; eu é que sou injusto. Mas o que

eu padeço é tanto e tal!...--Vamos; eu ainda me não intendo bem claro

com ésta desgraça: dize-me, falla-me a verdade: minha mulher...--minha

mulher! com que bôcca pronuncio eu ainda éstas palavras!--D. Magdalena o

que sabe?

*Jorge*. O que lhe disse o romeiro n'aquella fatal sala dos retrattos...

o que ja te contei. Sabe que D. João está vivo, mas não sabe aonde;

suppõe-no na Palestina talvez; é onde o deve suppor pelas palavras que

ouviu.

*Manuel*. Então não conhece, como eu, toda a extensão, toda a

indubitavel verdade da nossa desgraça. Ainda bem! talvez possa duvidar,

consolar-se com alguma esperança de incerteza.

*Jorge*. Hontem de tarde não; mas ésta noite começava a raiar-lhe no

espirito alguma falsa luz d'essa van esperança. Deus lh'a deixe, se é

para bem seu.

*Manuel*. Porque não hade deixar? Não é ja desgraçada bastante?--E

Maria, a pobre Maria!... Essa confio no Senhor que não saiba, ao menos

por ora...

*Jorge*. Não sabe. E ninguem lh'o disse, nem dirá. Não sabe senão o que

viu: a mãe quasi nas agonias da morte. Mas o motivo, so se ella o

adivinhar.--Tenho medo que o faça...

*Manuel*. Tambem eu.

*Jorge*. Deus será comnosco e com ella!--Mas não: Telmo não lhe diz nada

por certo; eu já lhe asseverei--e accreditou-me--que a mãe estava

melhor, que tu ias logo vê-la... E assim espero que, até lá por meio

dia, a possamos conservar em completa ignorancia de tudo. Depois

ir-se-lhe-ha dizendo, pouco a pouco, até onde for inevitavel. E Deus...

Deus accudirá.

*Manuel*. Minha pobre filha, minha querida filha!

SCENA II

JORGE, MANUEL DE SOUSA, TELMO

*Telmo*, _batendo de fóra á porta do fundo_. Acordou.

*Manuel*, _sobresaltado_. É a voz de Telmo?

*Jorge*. É. (_Indo abrir a porta_) Entrae, Telmo.

*Telmo*. Acordou.

*Jorge*. E como está?

*Telmo*. Melhor, muito melhor, parece outra. Está muito abatida, isso

sim; muito fraca, a voz lenta, mas os olhos serenos, animados como

d'antes e sem aquelle fusilar de hontem. Perguntou por vós... ambos.

*Manuel*. E pela mãe?

*Telmo*. Não: nunca mais fallou n'ella.

*Manuel*. Oh filha, filha!...

*Jorge*. Iremos vê-la. (_péga na mão do irmão_) Tu promettes-me?...

*Manuel*. Prometto.

*Jorge*. Vamos.--(_Chamando a Telmo para a bôcca da scena_) Ouvi, Telmo:

lembraes-vos do que vos disse ésta manhan?

*Telmo*. Não me heide lembrar?

*Jorge*. Ficae aqui. Em nós sahindo, puchae aquella corda que vai dar á

sineta da sachristia: virá um irmão converso; dizei-lhe o vosso nome,

elle ir-se-ha sem mais palavra, e vós esperae. Fechae logo ésta porta

por dentro, e não abraes senão á minha voz. Intendestes?

*Telmo*. Ide descançado.

SCENA III

TELMO, _depois o_ IRMÃO CONVERSO

*Telmo* _vai para deitar a mão á corda, pára suspenso algum tempo, e

depois_: Vamos: isto hade ser. (_Ouve-se tocar longe uma sineta: Telmo

fica pensativo, e com o braço alevantado e immovel_.)

*Converso*. Quem sois?

*Telmo*, _estremecendo_. Telmo-Paes.

(O converso faz venia e vai-se.)

SCENA IV

*Telmo* _so_. Virou-se-me a alma toda com isto: não sou ja o mesmo

homem. Tinha um presentimento do que havia de acontecer... parecia-me

que não podia deixar de succeder... e cuidei que o desejava em quanto

não veiu.--Veiu, e fiquei mais aterrado, mais confuso que ninguem!--Meu

honrado amo, o filho do meu nobre senhor está vivo... o filho que eu

criei n'estes braços... vou saber novas certas d'elle--no fim de vinte

annos de o julgarem todos perdido--e eu, eu que sempre esperei, que

sempre suspirei pela sua vinda...--era um milagre que eu esperava sem o

crer! Eu agora tremo... É que o amor d'est'outra filha, d'esta última

filha, é maior, e venceu... venceu, apagou o outro. Perdoe-me Deus, se é

peccado. Mas que peccado hade haver com aquelle anjo?--Se me ella

viverá, se escapará d'esta crise terrivel!--Meu Deus, meu Deus!

(_ajoelha_) levae o velho que já não presta para nada, levae-o por quem

sois! (_Apparece o romeiro á porta da esquerda, e vem lentamente

approximando-se de Telmo que não dá por elle_.) Contentae-vos com este

pobre sacrificio da minha vida, Senhor, e não me tomeis dos braços o

innocentinho que eu criei para vós, Senhor, para vós... mas ainda não,

não m'o leveis ainda. Já padeceu muito, já traspassaram bastantes dores

aquella alma: esperae-lhe com a da morte algum tempo!

SCENA V

TELMO _e o_ ROMEIRO

*Romeiro*. Que não oiça Deus o teu rôgo!

*Telmo*, _sobresaltado_. Que voz!--Ah! é o romeiro.--Que me não oiça

Deus! porquê?

*Romeiro*. Não pedias tu por teu desgraçado amo, pelo Filho que criáste?

*Telmo*, _áparte_. Já não sei pedir senão pela outra. (_Alto_) E que

pedisse por elle, ou por outrem, porque me não hade ouvir Deus, se lhe

peço a vida de um innocente?

*Romeiro*. E quem te disse que elle o era?

*Telmo*. Ésta voz... ésta voz!--Romeiro, quem es tu?

*Romeiro*, _tirando o chapéu e alevantando o cabello dos olhos_.

Ninguem, Telmo, ninguem, se nem ja tu me conheces.

*Telmo*, _deitando-se-lhe ás mãos para lh'as beijar_. Meu amo, meu

senhor... sois vós?--sois, sois.--D. João de Portugal, oh, sois vós,

senhor?

*Romeiro*. Teu filho ja não?

*Telmo*. Meu filho!... Oh! é o meu filho todo; a voz, o rosto... Só

estas barbas, este cabello não... Mais branco ja que o meu, senhor!

*Romeiro*. São vinte annos de captiveiro e miseria, de saudades, de

âncias que por aqui passaram. Para a cabeça bastou uma noite como a que

veiu depois da batalha d'Alcacer; a barba, acabaram de a curar o sol da

Palestina e as aguas do Jordão.

*Telmo*. Por tam longe andastes?

*Romeiro*. E por tam longe eu morrêra!--Mas não quiz Deus assim.

*Telmo*. Seja feita a sua vontade.

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Oh, senhor!

*Romeiro*. Pêza-te?

*Telmo*. Hade-me pezar da vossa vida? (_Á parte_) Meu Deus! Parece-me

que menti...

*Romeiro*. E porque não, se ja me pêza a mim d'ella, se tanto me pêza

ella a mim?--Amigo, ouve... Tu es meu amigo?

*Telmo*. Não sou?

*Romeiro*. Es: bem sei. E comtudo, vinte annos d'ausencia, e de

conversação de novos amigos, fazem esquecer tanto os velhos!...--Mas tu

es meu amigo. E se tu o não fôras, quem o sería?

*Telmo*. Senhor!

*Romeiro*. Eu não quiz acabar com isto, não quiz pôr em effeito a minha

última resolução sem fallar comtigo, sem ouvir da tua bôcca...

*Telmo*. O que quereis que vos diga, senhor?--Eu...

*Romeiro*. Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não

quizeste ceder a nenhuma evidência; não me admirou de ti, meu Telmo. Mas

tambem não posso--Deus me ouve--não posso criminar ninguem porque o

accreditásse: as provas eram de convencer todo o ânimo; so lhe podia

resistir o coração. E aqui... coração que fosse meu... não havia outro.

*Telmo*. Sois injusto.

*Romeiro*. Bem sei o que queres dizer.--E é verdade isso? é verdade que

por toda a parte me procuraram, que por toda a parte... ella mandou

mensageiros, dinheiro?

*Telmo*. Como é certo estar Deus no ceu, como é verdade ser aquella a

mais honrada e virtuosa dama que tem Portugal.

*Romeiro*. Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que

desappareceu, que ninguem mais houve novas d'elle; que tudo isto foi vil

e grosseiro imbuste dos inimigos de... dos inimigos d'esse homem-que

ella ama... E que socegue, que seja feliz.--Telmo, adeus!

*Telmo*. E eu heide mentir, senhor, eu heide renegar de vós, como ruim

villão que não sou?

*Romeiro*. Hasde, porque eu te mando.

*Telmo*, _em grande anciedade_. Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade

do vosso servo. É que vós não sabeis... D. João, meu senhor, meu amo,

meu filho, vós não sabeis...

*Romeiro*. O quê?

*Telmo*. Que ha aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu

também criei...

*Romeiro*. E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.

*Telmo*. Não m'o pergunteis.

*Romeiro*. Nem é preciso. Assim devia de ser. Tambem tu!--Tiraram-me

tudo. (_Pausa_)--E teem um filho elles?...--Eu não...--E mais,

imagino... Oh passaram hoje peior noite do que eu. Que lh'o leve Deus em

conta e lhes perdoe como eu perdoei ja.--Telmo, vai fazer o que te

mandei.

*Telmo*. Meu Deus, meu Deus! que heide eu fazer?

*Romeiro*. O que te ordena teu amo.--Telmo, dá-me um abraço.

(_Abraçam-se_) Adeus, adeus até...

*Telmo*. Até quando, senhor?

*Romeiro*. Até ao dia de juizo...

*Teimo*. Pois vós?...

*Romeiro*. Eu...--Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso

remediar o mal feito. Fui imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E

para quê?--D. João de Portugal morreu no dia em que sua mulher disse que

elle morrêra. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que elle

amava... oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! Sua mulher que elle

ja não póde amar sem deshonra e vergonha!... Na hora em que ella

accreditou na minha morte, n'essa hora morri. Com a mão que deu a outro

riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não hade deshonrar a

sua viuva. Não: vai; ditto por ti terá dobrada fôrça: dize-lhe que

fallaste com o romeiro, que o examináste, que o convencêste de falso e

de impostor... dize o que quizeres, mas salva-a a ella da vergonha, e ao

meu nome da affronta. De mim ja não ha senão esse nome, ainda honrado; a

memória d'elle que fique sem mancha.--Está em tuas mãos, Telmo,

intrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?

*Telmo*. Não, meu senhor: a resolução é nobre e digna de vós. Mas póde

ella approveitar ainda?

*Romeiro*. Porque não?

*Telmo*. Eu sei!--Talvez...

SCENA VI

ROMEIRO, TELMO; _e_ MAGDALENA _de fóra á porta do fundo_.

*Magdalena*. Espôso, espôso! abri-me, por quem sois. Bem sei que aqui

estaes: abri.

*Romeiro*. É ella que me chama. Sancto Deus! Magdalena que chama por

mim...

*Telmo*. Por vós!

*Romeiro*. Pois por quem?... não lhe ouvis gritar:--«Espôso, espôso?»

*Magdalena*. Marido da minha alma, pelo nosso amor te peço, pelos doces

nomes que me déste, pelas memórias da nossa felicidade antiga, pelas

saudades de tanto amor e tanta ventura, oh! não me negues este último

favor.

*Romeiro*. Que incanto, que seducção! Como lhe heide resistir!

*Magdalena*. Meu marido, meu amor, meu Manuel!

*Romeiro*. Ah!... E eu tam cego que ja tomava para mim!...--Ceu e

inferno! abra-se ésta porta...(_investe para a porta com impeto; mas

pára derepente_) Não: o que é ditto, é ditto. (_Vai precipitadamente á

corda da sineta, toca com violencia; apparece o mesmo irmão converso, e

a um signal do romeiro ambos desapparecem pela porta da esquerda_.)

SCENA VII

TELMO, MAGDALENA; _depois_ JORGE _e_ MANUEL DE SOUSA

*Magdalena*, _ainda de fóra_. Jorge, meu irmão, Frei Jorge, vós estaes

ahi, que eu bem sei; abri-me por charidade, deixae-me, dizer uma unica

palavra a meu... a vosso irmão:--e não vos importuno mais, e farei tudo

o que de mim quereis, e... (_Ouve-se do mesmo lado ruido de passos

appressados, e logo a voz de Frei Jorge_.)

*Jorge*, _de fóra_. Telmo, Telmo, abri se podeis... abri ja.

*Telmo*, _abrindo a porta_. Aqui estou eu so.

*Magdalena*, _entrando desgrenhada e fóra de si, procurando, com os

olhos, todos os recantos da casa_. Estaveis aqui so, Telmo! E elle para

onde foi?

*Telmo*. Elle quem, senhora?

*Jorge*, _vindo á frente_. Telmo estava aqui aguardando por mim, e com

ordem de não abrir a ninguem em quanto eu não viesse.

*Magdalena*. Aqui havia duas vozes que fallavam: distinctamente as ouvi.

*Telmo*, _aterrado_. Ouvistes?

*Magdalena*. Sim, ouvi. Onde está elle, Telmo? onde está meu marido...

Manuel de Sousa?

*Manuel*, _que tem estado no fundo, em quanto Magdalena, sem o ver, se

adiantára para a scena, vem agora á frente_. Esse homem está aqui,

senhora; que lhe quereis?

*Magdalena*. Oh que ar, que tom, que modo esse com que me fallas!...

*Manoel*, _internecendo-se_. Magdalena... (_Cahindo em si e gravemente_)

Senhora, como quereis que vos falle, que quereis que vos diga?--Não está

tudo ditto entre nós?

*Magdalena*. Tudo! quem sabe? Eu parece-me que não. Olha: eu sei?... mas

não dariamos nós, com demasiada precipitação, uma fe tam cega, uma

crença tam implicita a essas mysteriosas palavras de um romeiro, um

vagabundo... um homem emfim que ninguem conhece? Pois dize...

*Telmo*, _áparte a Jorge_. Tenho que vos dizer, ouvi. (_Conversam ambos

áparte_.)

*Manuel*. Oh Magdalena, Magdalena! não tenho mais nada que te

dizer.--Crê-me, que t'o juro na presença de Deus: a nossa união, o nosso

amor é impossivel.

*Jorge*, _continuando a conversação com Telmo, e levantando a voz com

aspereza_. É impossivel j'agora...--e sempre o devia ser.

*Magdalena*, _virando-se para Jorge_. Tambem tu, Jorge!

*Jorge*, _virando-se para ella_. Eu fallava com Telmo, minha

irman.--(_Para Telmo_) Ide Telmo, ide onde vos disse, que sois mais

preciso lá. (_Falla-lhe ao ouvido; depois alto_) Não m'a deixes um

instante, ao menos até passar a hora fatal.

(Telmo sái com repugnancia, e rodeando para ver se chega aopé de

Magdalena. Jorge, que o percebe, faz-lhe um signal imperioso; elle

recúa, e finalmente se retira pelo fundo.)

SCENA VIII

MAGDALENA, MANUEL DE SOUSA, JORGE

*Magdalena*. Jorge, meu irmão, meu bom Jorge, vós, que sois tam prudente

e reflectido, não dais nenhum pêso ás minhas dúvidas?

*Jorge*. Tomára eu ser tam feliz que podésse, querida irman.

*Magdalena*. Pois intendeis?...

*Manuel*. Magdalena... senhora! Todas éstas coisas são ja indignas de

nós.--Até hontem, a nossa desculpa, para com Deus e para com os homens,

estava na boa fe e seguridade de nossas consciencias. Essa acabou. Para

nós ja não ha senão éstas mortalhas, (_tomando os habitos de cima da

banca_) e a sepultura d'um claustro.--A resolução que tomámos é a unica

possivel; e ja não ha que voltar atrás... Ainda hontem fallavamos dos

condes de Vimioso... Quem nos diria... oh incomprehensiveis mysterios de

Deus!... Ánimo, e ponhamos os olhos n'aquella cruz!--Pela última vez,

Magdalena... pela derradeira vez n'este mundo, querida... (_Vai para a

abraçar e recúa_) Adeus, adeus! (_Foge precipitadamente pela porta da

esquerda_.)

SCENA IX

MAGDALENA, JORGE, _côro dos frades dentro_.

*Magdalena*. Ouve, espera; uma so, uma so palavra: Manuel de Sousa!...

(_Toca o orgam dentro_.)

*Côro*, _dentro_. De profundis clamavi ad te, Domine; Domine, exaudi

vocem meam.

*Magdalena*, _indo abraçar-se, com a cruz_. Oh Deus, Senhor meu! pois

ja, ja? nem mais um instante, meu Deus?--Cruz do meu Redemptor, oh cruz

preciosa, refúgio d'infelizes, ampara-me tu, que me abandonaram todos

n'este mundo, e ja não posso com as minhas desgraças... e estou feita um

espectaculo de dor e d'espanto para o ceu e para a terra!--Tomae,

Senhor, tomae tudo...--A minha filha também?... Oh! a minha filha, a

minha filha... tambem essa vos dou, meu Deus.--E agora, que mais quereis

de mim, Senhor? (_Toca o orgam outra vez_.)

*Côro*, _dentro_. Fiant aures tuæ intendentes; in vocem deprecationis

meæ.

*Jorge*. Vinde, minha irman, é a voz do Senhor que vos chama. Vai

começar a sancta cerimonia.

*Magdalena*, _inchugando as lagrymas e com resolução_. Elle foi?

*Jorge*. Foi sim, minha irman.

*Magdalena*, _levantando-se_. E eu vou. (_Sahem ambos pela porta do

fundo_.)

SCENA X

_Corre o panno do fundo, e apparece a egreja de San'Paulo: os frades

sentados no côro. Em pé juncto ao altar-mór, o_ PRIOR DE BEMFICA. _Sôbre

o altar dois escapularios dominicanos_. MANUEL DE SOUSA _de joelhos com

o hábito de noviço vestido, á direita do Prior. O_ ARCEBISPO _de

capa-magna e barrete no seu throno, rodeado dos seus clerigos em

sobrepelizes. Pouco depois entra_ JORGE _acompanhando_ MAGDALENA _tambem

ja vestida de noviça e que vai ajoelhar á esquerda do Prior.--Toca o

orgam_.

*Côro*. Si iniquitates observaveris, Domine; Domine, quis sustinebit?

*Prior*, _tomando os escapularios de cima do altar_. Manuel de

Sousa-Coutinho, irmão Luiz de Sousa, pois em tudo quizestes despir o

homem velho, abandonando tambem ao mundo o nome que n'elle

tinheis!--Soror Magdalena! Vós ambos, que ja fostes nobres senhores no

mundo, e aqui estais prostrados no pó da terra, n'esse humilde hábito de

pobres noviços; que deixastes tudo, até vos deixar a vós mesmos...

filhos de Jesus Christo, e agora de nosso padre San'Domingos, recebei

com este bento escapulario...

SCENA XI

O PRIOR DE BEMFICA, _o_ ARCEBISPO, MANUEL DE SOUSA, MAGDALENA, etc.

MARIA, _que entra precipitadamente pela egreja em estado de completa

alienação; traz umas roupas brancas, desalinhadas e cahidas, os cabellos

soltos, o rosto macerado, mas inflammado com as rosetas ethicas, os

olhos desvairados; pára um momento, reconhece os pais e vai direita a

elles.--Espanto geral: a cerimonia interrômpe-se_.

*Maria*. Meu pae, meu pae, minha mãe! levantae-vos, vinde. (_Toma-os

pelas mãos; elles obedecem machinalmente, veem ao meio da scena:

confusão geral_.)

*Magdalena*. Maria! minha filha!

*Manuel*. Filha, filha!... Oh, minha filha!... (_Abraçam-se ambos

n'ella_.)

*Maria*, _separando-se com elles da outra gente, e trazendo-os para a

bôcca da scena_. Esperae: aqui não morre ninguem sem mim. Que quereis

fazer? Que cerimonias são éstas? Que Deus é esse que está n'esse altar,

e quer roubar o pae e a mãe a sua filha?--(_Para os circumstantes_) Vós

quem sois, espectros fataes?... quereis-m'os tirar dos meus braços?...

Esta é a minha mãe, este é o meu pae... Que me importa a mim com o

outro? Que morrêsse ou não, que esteja com os mortos ou com os

vivos--que se fique na cova ou que resuscite agora para me mattar?...

Matte-me, matte-me, se quer, mas deixe-me este pae, ésta mãe, que são

meus.--Não ha mais do que vir ao meio de uma familia e dizer: «Vós não

sois marido e mulher?... e ésta filha do vosso amor, ésta filha criada

ao collo de tantas meiguices, de tanta ternura, ésta filha é...»--Mãe,

mãe, eu bem o sabia... nunca t'o disse, mas sabia-o: tinha-m'o ditto

aquelle anjo terrivel que me apparecia todas as noites para me não

deixar dormir... aquelle anjo que descia com uma espada de chammas na

mão, e a atravessava entre mim e ti, que me arrancava dos teus braços

quando eu adormecia n'elles... que me fazia chorar quando meu pae ia

beijar-me no teu collo.--Mãe, mãe, tu não hasde morrer sem mim... Pae,

dá ca um panno da tua mortalha... dá ca, eu quero morrer antes que elle

venha: (_incolhendo-se no hábito do pae_) quero-me esconder aqui, antes

que venha esse homem do outro mundo dizer-me na minha cara e na

tua--aqui deante de toda ésta gente: «Essa filha é a filha do crime e do

peccado!...» Não sou; dize, meu pae, não sou... dize a essa gente toda,

dize que não sou. (_Vai para Magdalena_) Pobre mãe! tu não podes...

coitada!... não tens ánimo...--nunca mentiste?... Pois mente agora para

salvar a honra de tua filha, para que lhe não tirem o nome de seu pae.

*Magdalena*. Misericordia, meu Deus!

*Maria*. Não queres? Tu tambem não, pae?--Não querem. E eu heide morrer

assim... e elle vem ahi...

SCENA XII

MARIA, MAGDALENA, MANUEL; o ROMEIRO e TELMO _que apparecem no fundo da

scena sahindo detrás do altar-mór_.

*Romeiro*, _para Telmo_. Vai, vai; ve se ainda é tempo: salva-os,

salva-os, que ainda podes... (_Telmo dá alguns passos para deante_.)

*Maria*, _apontando para o romeiro_. É aquella voz, é elle, é elle.--Já

não é tempo... Minha mãe, meu pae, cobri-me bem éstas faces, que morro

de vergonha... (_Esconde o rosto no seio da mãe_) morro, morro... de

vergonha... (_Cái e fica morta no chão. Manuel de Sousa e Magdalena

prostram-se ao pé do cadaver da filha_.)

*Manuel*, _depois de algum espaço, levânta-se de joelhos_. Minha irman,

rezemos por alma... incommendemos a nossa alma a este anjo que Deus

levou para si.--Padre prior, podeis-me lançar aqui o escapulario?

*Prior*, _indo buscar os escapularios ao altar-mór e tornando_. Meus

irmãos, Deus afflige n'este mundo áquelles que ama. A coroa de glória

não se dá senão no céu.

(_Toca o orgam; e cái o panno_.)

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