Útil inda brincando Contos Fora da Moda · Capítulo 11 de 21
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Útil inda brincando

A Urbano Duarte

I

Uma noite o Leopoldo das Neves encontrou no Passeio Público o Viriatinho da Estrada de Ferro, um bom camarada que há muito tempo não via.

E, como os dois amigos se encaminhassem para o terraço, o Viriatinho chamou a atenção do outro para uma bonita mulher que descia a escada em companhia de um sujeito gordo.

- Oh! diabo! é a Clotilde! exclamou o Leopoldo das Neves.

E, levando o amigo pelo braço, embarafustou com ele pela sombria alameda que contorna o lago.

- Que é isso? Foges daquela mulher?

- Como o diabo da cruz.

- Por que?

- Porque me amola; se me visse, eu seria amanhã obrigado a explicar-lhe o que vim fazer ao Passeio Público!

- Amola-te? Ora essa! Eis ali o caso de dizer que dá Deus nozes...

- Perdão, tenho muito bons dentes!

- Nesse, és difícil!

- A Clotilde não é o meu tipo.

- Pois é bonita como seiscentos diabos!

- Não nego! mas o meu ideal é outro. Quisera que a minha amante fosse alta, magra, loura, alva, de olhos azuis, e tivesse vinte e quatro anos, quando muito. Quisera também que fosse viúva, conhecesse um pouco a Europa, e, sem ser literata nem artista, gostasse das letras e das artes.

- Quiseras muitas coisas juntas!

- A Clotilde é o contrário de tudo isso: é mais baixa que alta, é mais gorda que magra, é morena, tem olhos castanhos, e já completou a idade exigida para a senatoria...

- Do Império?

- Não; da República. - É a digna esposa daquele negociante anafado e suarento que viste passar; adormece no Lírico ouvindo o Otelo ; dá o cavaquinho pelos cromos de Guimarães Ferdinando, e delicia-se com a leitura de Xavier de Montepin, - traduzido, note-se, porque nem ao menos sabe francês!...

- E as tuas relações com ela têm tido caráter platônico... ou... positivo?

- Ah, meu amigo, eu dei-lhe, infelizmente, amplo direito de perseguir-me...

- Maganão!

- Quem principiou fui eu. Que queres?... a curiosidade... o vício... a poesia do adultério... Como isso foi? Não sei. Um encontro numa soirée familiar... um aperto de mão mais forte... uma valsa... durante a valsa uma troca de lenços... no lenço dela um perfume capitoso e enervante... uma carta minha que ficou sem resposta... outra... outra ainda...outra, que foi respondida afinal... uma entrevista concedida depois de uma luta homérica entre duas fomes de beijos...

- Bonito!

- Uma entrevista em casa de uma cartomante da rua da Assembléia... Duas horas de prazer, e quatro anos de cativeiro e arrependimento!

- Quatro anos?

- Sim, meu Viriatinho, há quatro anos que isto dura; há quatro anos hipotequei a minha liberdade, o meu sossego, e o meu bom humor; há quatro anos vivo aguilhoado a essa mulher, que se encontra comigo de oito em oito, de quinze em quinze dias, furtivamente, às pressas, mas que me escreve todos os dias, e me atormenta com protestos, exigências, lamúrias, ameaças!...

E Leopoldo das Neves interrompeu a lista das impertinências de Clotilde, batendo violentamente com a bengala na relva:

- Quatro anos! Há quatro anos - calcula! - tenho o coração nas mãos, receoso de que de um momento para o outro o marido descubra tudo, ponha-a na rua a pontapés, e eu seja obrigado a ficar com aquela trouxa às costas!...

- Vejo que já não a amas.

- Nem nunca a amei. Foi um capricho... Quinze dias depois da nossa primeira entrevista em casa da cartomante, já eu me sentia farto e aborrecido!

Os dois amigos encaminharam-se para o terraço.

A noite estava esplêndida. Não havia luar, mas os astros brilhavam intensamente na profunda escuridão do céu. As ondas, derramando-se na praia, pareciam alvíssimas rendas franjando uma enorme colcha azul.

- Queres um conselho, Viriato? Foge das ligações dessa espécie.

- Ah! de que me serve o teu conselho?

- Por que?

- Aqui onde me vês, estou ralado de inveja!

- De inveja?

- Sim, confesso-te que guardo dentro esse sentimento ignóbil. Invejo a perseguição de que te dizes vítima e, - palavra! - tenho ciúmes, ciúmes incoerentes, dessa mulher que não é minha, que não conheço, apenas entrevi... Eu dava dez anos de vida - vê tu lá! - pelo prazer de entrar com ela furtivamente em casa de uma cartomante misteriosa e hospitaleira!

Leopoldo das Neves encarou fixamente o outro, e, depois de uma grande pausa, perguntou-lhe, segurando-o por um botão do casaco:

- Viriatinho, és meu amigo?

- Certamente.

- Queres prestar-me um grande serviço?

- Qual?

- Um serviço que não te será desagradável.

- Que ordenas tu?

O amante de Clotilde recuou uns passos, apontou para o lado da rua, e declamou o verso de D. Salustio

De plaire à cette femme et d’être son amant!

O Viriatinho soltou uma gargalhada tão cristalina e vibrante que chamou a atenção das pessoas que passavam.

- Não te rias! estou falando sério!...

- Mas isso é lá possível! Tirar-te do lance, eu!... E ela tão apaixonada por ti!...

- Conheço-a como as palmas das minhas mãos; dar-te-ei as instruções necessárias... Desde que estejas munido de todos os recursos estratégicos, desde que saibas como atacar a praça, a vitória nãos será difícil.

- Olha que sou um péssimo general!

- Deixa-te de modéstias! Vamo-nos embora... Pelo caminho irei te desenvolvendo o plano do ataque.

- Vamos lá!

Os dois amigos tomaram a direção da escada.

- Não calculas como vais ser útil! disse Leopoldo das Neves, descendo.

- “Útil inda brincando”, acrescentou Viriatinho, descendo também, e apontando para o desgracioso Cupido que desde 1783 dá de beber aos fluminenses.

II

Mês e meio depois desse encontro no Passeio Público, Leopoldo das Neves estava sozinho em casa, e sentia um aborrecimento de morte.

Era uma noite chuvosa e fria.

Tentou escrever, e não conseguiu alinhar quatro palavras; quis ler um livro interessante, que ainda não conhecia, e fechou o volume logo depois da segunda página; sentou-se ao piano, e sentiu as mãos pesadas como se fossem de chumbo. Acendeu um charuto, e deitou-se na cama a fio comprido, contemplando os bicos dos pés.

Tinham-se já passado quarenta dias depois que ele apresentara Viriatinho a Clotilde, numa soirée , em casa de um tal Comendador Freixo.

Leopoldo tratara Clotilde com muita indiferença, passando a noite a jogar o voltarete com o marido dela, um major de engenheiros e um Médico. De vez em quando o Viriatinho lhe aparecia na sala de jogo, e, por gestos, o informava de que tudo corria às mil maravilhas.

Terminada a soirée , os dois amigos saíram juntos e, na rua deram cinqüenta passos ao lado um do outro sem falar.

Leopoldo quebrou o silêncio:

- Então, César? Chegaste, viste e venceste?

Por única resposta o Viriatinho tirou da algibeira um pequenino lenço e apresentou-o a Leopoldo, dizendo:

- Vê se conheces este perfume.

- Bravo!... as coisas chegaram à cerimonia, meio maometana, da troca dos lenços?

- Tal qual como contigo. Primeiro que tudo, e modéstia à parte, não há dúvida que lhe fiz certa impressão. É que naturalmente me achou parecido com algum herói de Xavier de Montépin. O resto já tu sabes: uns olhares ardentes e expressivos... uns apertos de mão durante a primeira quadrilha... logo em seguida uma valsa, e a troca dos lenços... Depois de amanhã lhe escreverei uma carta...

Os dois amigos separaram-se, e, desde essa ocasião, Leopoldo não mais esteve com o Viriato. A correspondência de Clotilde cessou completamente.

Durante os primeiros dias ele sentiu-se feliz, aliviado - uf! - daquela pesada algema que durante quatro anos penosamente arrastara. Depois vieram-lhe... como direi?... remorsos. Recordava-se do passado; saudosas cenas se renovavam no seu cérebro inquieto.

Clotilde aparecia-lhe agora com toda a sua meiguice, como todo o seu ardor de mulher que fecha os olhos e se entrega resolutamente a um homem, como se mergulhasse no oceano

Depois, ele passou todas noites consecutivas a sonhar com ela: via-a muito alta, muito magra, muito loura, de olhos azuis, a tocar harpa, dizendo-lhe: - Aqui me tens! Agora, sim, agora sou o teu ideal!...

Naquela noite chuvosa e úmida, Leopoldo sentia-se mais do que nunca envergonhado do seu procedimento. Por fim de contas,. Clotilde era uma bonita mulher, e uma boa rapariga, que só tivera um defeito: amá-lo exageradamente. E que fez ele? Uma canalhice: entregou-a ao Viriatinho, ao Viriatinho da Estrada de Ferro, um pulha, uma besta que com certeza não saberia apreciá-la.

O ingrato monologava esta interrogação terrível: - Já teriam indo à rua da Assembléia? - quando ouviu bater à porta.

Foi abrir. Era o Viriatinho, que entrou alegre e radiante.

- Está chovendo: tinha certeza de encontrar-te em casa. Venho trazer-te notícias da minha conquista... Fomos hoje à cartomante!...

Leopoldo estremeceu, teve um sorriso contrafeito, e agarrou-se a um móvel para não cair.

- Arre! Custou! Escrevi nada menos que de seis cartas! As três primeiras ficaram sem resposta. Afinal foi ela própria quem me indicou o buen retiro da rua da Assembléia... Talvez o mesmo quarto, hein?

- Talvez...

- Olha: sobem-se duas escadas... abre-se uma grade de pau... entra-se num corredor,,, primeira alcova à direita... com uma janela que dá para uma área... Embaixo uma casa de fumos... É isso?...

As palavras de Viriatinho penetravam no coração de Leopoldo das Neves como outras tantas punhaladas. O pobre diabo teve ímpetos de agarrar uma bengala, e por pela porta a fora, a pauladas, o seu substituto; mas - que diabo! - o culpado de tudo não tinha sido ele próprio?... ele próprio não lhe indicara os meios de seduzir Clotilde?... não era esse o resultado fatal de uma combinação infame, proposta espontaneamente por ele?...

O Viriatinho observou:

- Mas... valha-me Deus! acho-te assim a modo de contrariado... Estás arrependido?

- Eu?... que idéia!... murmurou Leopoldo sufocado; que idéia!...

- Olha, se queres que te diga, acho que tinhas muita razão... A Clotilde é bonita, isso é, mas que mulher vulgar, que espírito acanhado!... Não tem por onde se lhe pegue!...

- Não te dizia? acudiu vivamente Leopoldo, regozijado por essa opinião; a Clotilde não vale nada!

- Sabes? não estou disposto a agüentar aquilo quatro anos, como tu... Nada! na primeira ocasião desfaço-me dela! Quis apenas prestar-te um serviço, e folgo de ter sido “útil inda brincando”.

Alguns minutos depois, o Viriatinho saiu, e Leopoldo das Neves ficou aniquilado pelo desgosto.

Foi para o seu quarto de dormir, abriu um armário, e tirou um vidro de perfumaria, o extrato predileto de Clotilde, há três anos esquecido no fundo daquele móvel. Ensopou o lenço, aspirou longamente aquele perfume “capitoso e enervante” como se quisesse anestesiar-se; depois, atirou-se à cama, enterrou a cabeça no travesseiro, e numa crise de nervos, começou a chorar desesperadamente, soluçando o nome dela.

Passou assim toda a noite.

III

Ela enviuvou há um ano. Eles casaram-se há seis meses.

Quando se encontram com o Viriatinho da Estrada de Ferro, fingem que o não conhecem.

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