Como eu me diverti Contos Fora da Moda · Capítulo 15 de 21
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Como eu me diverti

Conto Comédia

Personagens

Jorge, empregado no comércio.

O Comendador Andrade, negociante, sócio principal da firma Andrade, Gomes & Companhia.

Um Médico

Dona Maria, excelente senhora de meia idade, estabelecida com casa de alugar cômodos a moços solteiros.

A ação passa-se no Rio de Janeiro, em quarta feira de cinzas. Atualidade.

Ato Único

A cena representa a sala e a alcova que Jorge ocupa em casa de Dona Maria. Atirado sobre um velho canapé um hábito de frade encardido de suor e sujo de lama. No chão, um par de luvas, igualmente sujas, e um nariz de papelão quase a desfazer-se, preso a uns grandes bigodes e a um par de óculos.

Cena Primeira

Dona Maria, o Médico

O Médico - Que tem ele?

Dona Maria - Não sei, doutor, não sei. O senhor Jorge tem muito bom coração, mas tem muito má cabeça: é doido pelo Carnaval.

O Médico - Gabo-lhe o gosto.

Dona Maria - Ontem vestiu-se de frade, pôs aquele nariz postiço e andou, num carro todo enfeitado de flores, ao lado de uma sujeita que mora no Hotel Ravot, acompanhando um préstito. Só o vestuário da pelintra lhe custou perto de oitocentos mil réis!

O Médico - Quem lhe disse?

Dona Maria - Os meus hóspedes não têm segredo para mim.

O Médico - Adiante.

Dona Maria - Para se não constipar, o pobre moço levou consigo, por baixo do hábito, uma garrafa de conhaque e de vez em quando atiçava-lhe que era um gosto! Quando o préstito passou pela primeira vez na rua do Ouvidor (eu estava lá...) já ia o frade que não se podia lamber! Depois na rua da Constituição - isto sei eu por um amigo dele, que tudo viu - outro moço, também fantasiado, bifou-lhe a pelintra, e isso deu lugar...

O Médico - ... a um rolo! Pudera!...

Dona Maria - Racharam-lhe a cabeça!

O Médico - Naturalmente.

Dona Maria - E o demônio do rapaz andou toda a noite, de cabeça rachada, à procura da tal mulher, dos Fenianos para os tenentes e dos Tenentes para os Democráticos, bebendo sempre, até cair na rua do Fogo, às três horas da madrugada!...

O Médico - Com efeito!

Dona Maria - A polícia levou-o para a estação da travessa do Rosário, e pela manhã uns amigos que tinham sido avisados, trouxeram-no para casa.

O Médico - Onde está ele?

Dona Maria - Naquela alcova. Há cinco horas que ali está deitado, sem dar acordo de si. Por isso, mandei chamá-lo, doutor.

O Médico - Fez bem. Vamos vê-lo.

(Entram na alcova)

Cena Dois

Jorge, O Médico, Dona Maria

Na alcova, Jorge está de cama, com a cabeça amarrada, os olhos fechados, os braços caídos. O Médico, ao ver o enfermo tem um movimento que escapa à Dona Maria.

O Médico (tomando o pulso do doente) - Não tem febre. (Depois e examinar-lhe a cabeça.) O ferimento nada vale... Já lhe puseram uns pontos falsos; é quanto basta... O seu hóspede tem apenas o que os estudantes chamam “uma ressaca”; precisa de descanso e mais nada. Quando voltar a si, se quiser tomar alguma coisa, dê-lhe uma canja, dois dedos de vinho do Porto misturado com água de Vichi, um pouco de marmelada, e disse. Se amanhã continuar incomodado, que tome um laxante.

Cena três

O Médico, Dona Maria

Na sala.

O Médico (Tomando o chapéu) - A senhora não imagina como estimei por ter sido chamado para ver este senhor Jorge. Foi uma providência.

Dona Maria - Por que, doutor?

O Médico - Conheço-o, mas não sabia que se tratava dele. É o namorado, quase noivo de minha afilhada, filha do meu amigo Raposo. A menina gosta dele, e o pai já estava meio inclinado a consentir no casamento; tinham-lhe dado boas informações sobre este pândego. Agora, porém, vou prevenir o compadre, e dissuadir minha afilhada, que é muito dócil e me ouve acatamento.

Dona Maria - Valha-me Deus! e sou eu a culpada de tudo isto!

O Médico - Culpada, por que?

Dona Maria - Por ter mandado chamar o padrinho! Pobre rapaz!...

O Médico - A senhora deve estar, pelo contrário, satisfeita, por ter indiretamente contribuído para este resultado. (Voltando-se para a alcova) Que grande patife! namorar uma menina pura como uma flor, e andar de carro, publicamente embriagado, em companhia de uma prostituta.

Dona Maria - No carnaval tudo se desculpa.

O Médico - Nada! - eu sou o padrinho, o segundo pai daquele anjo!

Cena Quatro

Dona Maria, tomando O Médico pelo braço

Dona Maria - Doutor, doutor, não vá assim zangado com o senhor Jorge... não diga nada à família da menina... Ah! se eu soubesse... Mas que quer?... Vejo que este hóspede tem segredos para mim... (O doutor tenta safar-se). Ouça doutor... ele tem um bom emprego... é muito estimado pelos patrões...

O Médico - E a minha afilhada tem um dote de cento e cinqüenta contos.

Dona Maria (aterrada, largando o braço do Médico) - Cento e cinqüenta contos!

O Médico ( saindo) - Fora o que lhe há de caber por morte do pai! (Chegando à porta, para, volta-se e diz: ) Canja... vinho do Porto... água de Vichi... marmelada... e disse!

Cena Cinco

Dona Maria, depois Andrade

Dona Maria fica perplexa, de olhos baixos, na atitude de Fedra, quando diz:

Juste ciel! qu’ ai je faite aujourd’hui?

É despertada bruscamente pelo Comendador Andrade, que entra com espalhafato.

O Comendador (gritando) - Onde está o senhor Jorge?

Dona Maria ( consigo) - Um homem zangado! É ele, é o pai da menina!

O Comendador - Senhora, pergunto-lhe pelo senhor Jorge!

Dona Maria - Está doente... naquela alcova... dorme...

O Comendador - Já me contaram as façanhas que ele praticou esta noite! (Apanhando o nariz postiço.) Cá está uma prova!

Atira-o longe.

Dona Maria - Desculpe-me essa rapaziada, e não lhe negue a mão da menina.

O Comendador - A mão da menina! Que menina?

Dona Maria - Sua filha.

O Comendador - Minha filha? Qual delas? Pois este mariola ainda por cima se atreve a erguer os olhos para uma das filhas do seu patrão!

Dona Maria - Do seu patrão? Ah! então não é o senhor Raposo?

O Comendador - Que Raposo, nem meio Raposo! Eu sou o Comendador Andrade, sócio principal da firma Andrade, Gomes & Companhia! - O senhor Jorge está dormindo, disse a senhora.

Dona Maria - Sim, senhor.

O Comendador - Pois bem; quando acordar, diga-lhe que eu aqui estive, e o ponho no olho da rua! Que apareça para fazermos as contas!

Dona Maria - Atenda, senhor Comendador!

O Comendador - A nada atendo! A casa Andrade, Gomes & Companhia não pode ter empregados que se embriagam e passam a noite no xadrez! Era o que faltava!

Sai arrebatadamente.

Cena Seis

Jorge, Dona Maria

Na alcova, Dona Maria sai.

Jorge (Abre um olho, depois o outro, olha em volta de si, certifica-se que está em sua casa, dirige à Dona Maria um sorriso de agradecimento, solta um longo suspiro, e exclama com voz rouca e sumida) - Como eu me diverti!

Cai o pano

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