As estações Fabulário · Capítulo 27 de 33
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As estações

velho Chronos, estirado á beira do rio perenne cujas aguas, golfando limpidas e sonóras da urna abundante, correm em direcção ao abysmo , ora, por entre arvoredo gracil, ora por valles tristes de pedregulho esteril ; em ferteis campinas ou em sáfaros arcaes, lisas, serenas , espelhadas ou atropellando -se, precipitando -se de rochas com escachoo, contemplava, sorrindo, o brinquedo das Horas, quando romperam do bosque os seus quatro filhos predilectos a Primavera feminea e os tres mancebos : Estío , Outono e Inverno . Vinham em disputada corrida, atroando a selva com um vozerio raivoso e, mal chegaram

ao sitio em que jazia o deus impassivel, contiveram-se arquejando . E a donzella offegante, com as faces floridas e os claros olhos resplandecendo, disse, por entre lagrimas, que lhe davam mais belleza ao rosto admiravel : - Padre , dá-me outra sorte funde-me nessa agua, muda-me em pedra inerte, torna-me em ave, em bruma, em nuvem ou em astro , faze de mim o que quizeres, mas livra-me da companhia cruel d'estes irmãos que tanto me martyrisam e humilham com doestos e ironias mais ferinos que dardos . E o Estio rubro, adeantando-se , com os cabellos fulvos revoltados, os olhos lançando chispas, atravessou a distancia que o separava de Chronos e, á sua passagem, as hervas pendiam languidas, seccavam as nascentes doceis, acolhiam-se palpitantes os passaros aos ninhos . Inclinando-se ante o deus falou com palavras cálidas : - E' melhor que a conserves a teu lado , Padre . Emquanto trabalhamos na terra para utilidade dos homens ella só cuida em garridice .

Vê os campos que ella atravessou , disse o Outono : só têm flôres . E o lento e livido Inverno accrescentou transidamente : -E' inutil ! Que valem flores ? Chronos ouvio em silencio, por fim, soerguendo-se em recubito , depois de acenar ás Horas para que não se detivessem, chamou a Primavera timida e, acolhendo-a carinhosamente, dirigio-se ao Estio impetuoso : Achas que a devo conservar em minha companhia, assim seja. Ide vós outros, fazei o que vos cabe . Mas que a vida não cesse . E ' preciso que haja pão e linho, fructos e novos rebanhos eo homem não lamente o destino na terra . Ide, guardal-a-ei commigo . E os tres irmãos partiram: o Estio , o Outono e o Inverno . A Primavera ficou junto a Chronos sereno e, em torno d'ella, a terra rebentou em flores . As aguas corriam perennes da urna eram a imagem da Vida attrahida pela Morte . As Horas bailavam cantando e sorrindo : na mão direita rosas, na sinistra a foice . Passaram dias .

Subito , uma manhã, abrumaram-se os ares , toldou-se o azul do ceu de nuvens pardas, os ramos despiram-se das folhas e o Inverno, livido e merencoreo, appareceu taciturno . Adeantando-se para a ribeira eterna logo se congelaram as aguas . Instantes depois alumiou-se o ceu broslando-se de purpura, crepitaram as areias brancas , estalaram os ramos exciduos e um halito de fogo abrazou o espaço - e o Estio appareceu ardendo . Sem animo de falar a Chronos quedou-se no penedio calcinando a rocha em que se assentou em silencio . O Outono chegou por ultimo . -A que vindes ? perguntou o deus. E os tres, á uma, exclamaram' : - Padre, a terra está morta. Aquecia-a, disse o Estio . Foi em vão . Debalde a fecundei, disse o Outono . -Adormeci-a e morreu, disse o Inverno . E o Estio lamentou : Não ha um só novedio . Não ha seara, suspirou o Outono . E o Inverno concluio :

Está morta . Chronos sorrio e, docemente, chamando a Primavera , disse-lhe : - Vai , filha; paira sobre a neve e funde-a com o teu halito, accorda com as canções dos teus passaros a terra que dorme regelada, dálhe a alegria da tua eterna mocidade e a graça que é o teu encanto e, quando assim houveres feito , volta . E foi-se a Primavera cantando . Logo um perfume suave encheu os ares tépidos, rebentaram renovos nos ramos desnudos , sahiram dos ninhos galreiando nuvens de passaros vivazes, enxames de abelhas cruzaram-se zumbindo , desregelaram-se as aguas, desannuviou-se o ceu e a Primavera tornou carregada de rosas . Vai agora, disse Chronos ao Estio : todas as flôres já passaram da infancia, estão em plena puberdade ; cerca-as o cortejo nupcial dos insectos alados e as brisas que passam, enchendo-se de aroma, entoam docemente o epithalamio amoroso . Ellas esperam-te, és o noivo das corollas . Bemdicto seja o teu beijo doirado ,

E foi-se o Estio . E disse o deus ao Outono:-Agora tu, que és a força da seara, o amojo das espigas, o summo dos pomos, a fibra dos linhos, o leite dos rebanhos, vai e completa a obra da fecundação com a substancia , o sabor e a belleza. Que os homens te bemdigam á hora da colheita e que os armentios saudem a tua passagem com as suas vozes sonoras . E foi -se o Outono . Instantes depois disse o deus veneravel : Estão os paióes replectos, é hora de repouso . Agora tu, Inverno . Vai, adormece a terra para que ella se refaça no somno . E foi-se o Inverno . Cumprida a missão tornaram os mancebos maravilhados do milagre porque encontraram todas as facilidades nos prados e nos montes ferteis da terra vasta que julgavam morta . -Tudo deveis áquella que tão ingratamente repellistes . Tinheis a flor por despresivel e a flôr é a boca que recebe o beijo, é o ponto em que se encontram as almas : a alma que fecunda e a alma que gera .

Sois a força, a reproducção e o repouso , nada, porém, se faz sem o amor, que é a essencia da Fecundidade e a Primavera, vossa irmã e vossa precursora, é o amor que desperta, ao som do canto e enlanguece com o aroma, a terra, noiva immortal que despe o veu branco e friissimo e veste-se de verde e de ouro para a festa magnifica da Eternidade, que é a Vida . A Primavera é a adolescencia, é a manhã suave, é o beijo , é vossa irmã, saudai-a . E o Estio illuminou-se, reflorio -se o Outono, mais alvo se fez o Inverno e assim os tres irmãos fizeram as pazes com a linda irmã e, desde então nunca mais, por fortuna da terra e gloria dos ceus magnificos, houve rusga entre os quatro filhos de Chronos - a Primavera, o Estio , o Outono e o Inverno, renovadores do mundo e bemfeitores do Homem .

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