S. Sebastião (Fundação da cidade do Rio de Janeiro)
S. Sebastião (»UNDAÇÃo UA CIDADE DO RIO DE JANEIRO) ’ das solidões das chronicas que o pen samento das gerações mortas resurge, envolvido no manto luminoso de suas azas. E para o poeta e o erudito, o philosopho e o iiartista, nenhuma outra fonte se lhes depara de ^concepções mais grandiosas do que aquelles ^sanctuarios silenciosos, de onde os povos passam )iaos espaldares de bronze da historia.
Remontando-nos aos nossos monumentos historicos, encontramol-os encimados por tan tos nevoeiros fabulosos, que, sem a lenda, fora incorreto o desenho dos caracteres, e de li neamentos confusos a embryogenia das grandes emprezas e das lutas sobrehumanas, a que se lançaram os primitivos colonisadores d’este paiz, O dia de S. Sebastião, que relembra o da fun dação da cidade do Rio de Janeiro, nos leva direito á pesquiza de factos reaes,embora desabro chados sob a influencia do maravilhoso e rescendentes de odores mysticos. Era no anno de i563. A’ rainha D. Gatharina, de Portugal, Anchieta e Nobrega fazem chegar noticias de pazes celebradas com os Tamoyos, Índios cannibaes e guerreiros que dominavam a costa do Brazil, desde Cabo Frio até á provín cia de S. Paulo. Prevenindo sublevações futuras, apressou-se aquella soberana em fazer expedir para este porto Estacio de Sá, sobrinho do governador Mem de Sá, que foi ter á Bahia, com duas ga leras armadas, devendo ahi receber ordens de seu tio e partir sem delongas a senhorear o Rio. Mem de Sá, de pos^e de instrucções escriptas, não vacilla, fal-o acompanhar por uma frota, com guarnição de terra e mar, seguindo elle viagem para este porto. Consolidaras pazes com os Tamoyos e recha çar os francezes, era o ideal do governador e de Estacio de Sá, que, aó entrar da barra em i565, alterou este plano, á vista das revelações^
S. SEDASTIAO T í$K>' vlíi ■ KiV I que lhe fizeram em terra, de que os mesmos ín dios haviam violado o pacto e accommettido os aldeamentos portuguezes. A esquadra, á mingua de embarcações peque nas, conservava-se fóra da barra; não obstante algumas sortidas, frustadas pela disciplina dos francezes e seus alliados Tamoyos, Estacio de Sá resolve-se, antes de atacal-os, ir a S. Vicente, que se achava em guerra, calculando que d’isso resultaria prover-se de mantimentos que lhe faltavam, e de canoas armadas que dessem des embarque á sua gente. Sem recursos para corresponder ás represálias do inimigo, que lhe aprisionára alguns bateis, flechando-lhe soldados, fez-se de vela e foi lar gar ancoras no porto de Santos. Os guerreiros gentios, entesando o arco no semi-circulo das praias, escureciam com a som bra a transparência azulada das aguas... Nas montanhas estrugiam os búzios e buzinas de guerra, emquanto que o mar, á semelhança da pelle mosqueada das onças, era marchetado de canoas baloucantes. A’ noite, as fogueiras accendiam-se fumantes, o s c o n s u l t a v a m os oráculos; e as feiticei ras, evocando os gênios de suas cabanas, espu mavam epilépticas nas suas dansas diabólicas. Apezar de manterem-se relações amistosas com os Tamoyos de Iperig, missionados por Anchieta e Nobrega, frequentes sobresaltos aquebrantavam o animo esforçado de Estacio de Sá, visto como, por circumstancias de séria gra vidade, considerava a guerra que devera de-
JK t clarar aos exercitos confederados,uma lucta na qual, com probabilidades irrecusáveis, seria vencido. Nobrega e Anchieta, porém, amparando-lhe o espirito abatido, vaticinaram-lhe exito feliz, entendendo Anchieta que era servido o céo que d’esta ve{ se fundasse a cidade real do Rio de Janeiro. E o jesuita das Canarias que, a julgarmos pela phrase citada de Simão de Vasconcellos, repre senta o principal papel n’este acontecimento, incorpora-se á frota de Estacio de Sá, e a 20 de janeiro, dia de S. Sebastião, a quem tomam por padroeiro da empreza,parte para S.Vicente, arriando ferros no Rio de Janeiro, no mez de março, ao açoute das vagas empoladas e ventos contrários. Chegados que foram, a infantaria desem barca, formam-se trincheiras, cavam-se fossos estratégicos em Villa Velha, junto ao Pão de Assucar. Fitando a immensidade, o olhar penetrante de Anchieta destaca nas serras e nas praias os Tamoyos emplumados e aguerridos ; nos mares que o circumdam, as canoas innumeras dos adversários que subiam á tona d’agua, como o vomito negro do inferno sobre aquella superfície que vozeava nos gritos selvagens dos incolas fe rocíssimos. E elle fallava em nome de Deus aos soldados e flecheiros barbaros, aceendendo-lhes c valor, relembrando-lhes as glorias de seus pais, e as tradições de sua terra.
O sibilo das settas de parte a parte, a troca de projectis de arcabuzaria, a abordagem dos na vios e o aprisionamentodascanôas, entretinham indecisas a sorte da guerra, a decisão da con tenda. Entretanto das pelejas, os inimigos deixavam os mares coalhados de cadaveres e as fileiras victoriosas dos portuguezes opulentas de captivos. Anchieta, porém, reclamado pelo superior da Bahia, teve de separar-se da acção e obe decer, N’essa viagem, tocando ao Espirito-Santo, levou palavras de consolação áquellas aldêas, assistiu ao enterramento do padre Diogo Jacome, e providenciou com referencia ás forças mili tares existentes, preoccupado com os successos do momento. Aportando á Bahia, sem perda de tempo, con ferenciou com o governador Mem de Sá, nar rou-lhe os heroicos feitos de Estacio de Sá e dos seus soldados, ponderando-lhe que, para tornar-se definitiva a victoria dos portuguezes e construir as fortificações maritimas, tor navam-se imprescindiveis mais reforços de em barcações e tropas. O governador, de ouvil-o, dispôz-se a vir pessoalmente comrnandar a esquadra em evo luções ; para o que determinou que appareIhassem os melhores navios, bem tripolados e artilhados. Por essa época o bispo D. Pedro Leitão con fere ordens sacras a Anchieta, que, ao lado de
Mem de Sá, vinha compartilhar de suas prova ções, perseguindo igualmente o seu objectivo— a fundação da cidade. Emquanto a frota navegava e dramas igno rados desenrolavam-se no seio das náus e bri gues veleiros, luctas titanicas e episodios len dários enscenavam-se na deslumbrante e collossal bahia do Rio de Janeiro, Aos tiroteios sem tregoas, ás canoas mettidas a pique, aos gemidos dos selvagens acollados aos troncos das arvores pelas flechas que os traspassavam, a fé antiga ia colher no milagre as promessas da victoria. S. Sebastião, que escudara com o dia de seu nome a iniciação da guerra, manifesta-se pro picio nas apparições tangíveis e nas invocações irrevocaveis... São as trevas illuminadas que toucam as chronicas ! — Era em julho de i556. Estado de Sá, firme no seu posto, batia-se com denodo : aquella alma de combatente èra uma sentinella perdida nos arraiaes da defesa e da lealdade. Os francezes e Tamoyos o observavam,com as cautelas que inspiram os grandes desastres, com os receios que geram persistentes azares. Imaginando um ardil, armam elles cento e oitenta canoas de guerra e as occultam n’um
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H'. Il -Í! Mifji ' s ’'M ', Í ii(! i no espaço uma aza escura e compacta, aninha os alaridos barbaros d’aquelle povo que julgava antecipar-se á Victoria. O fogo dos arcabuzes, o sibilo das flechas voadoras, e os golpes pesados e surdos das maças dos selvagens inquietam a superficie do mar, que entoa um canto fúnebre, tranportando no esquife ensanguentado de suas vagas os ca dáveres que tombam .. No ardor que os anima, os belligérantes são insensiveis a tuJo que se passa em torno de si. Entretanto, nunca mais isolados se sentiram de tudo que lhes tenta o viver. E’ que entre o céo e o mar é preciso escolher: vencer ou morrer. Emquanto os indios e os Portuguezes, com a sua natural bravura, combatem sem medida, sem disciplina, alguém, cahindo de joelhos e de mãos postas, á detonação de uma roqueira que dispara e incendeia um punhado de poivora, exclama : — Valha-m.e o martyr S. Sebastião ! E a mulher de um chefe Tamoyo,assombrada, enfiando os deJos nos cabellos hirtos, brada aos seus que fujam, ou serão vencidos. Os Tamoyos, amedrontados, desertam com as suas canoas, deixando algumas aprisionadas e muitos captivos. Depois d’este ata][ue, os guerreiros victoriosos, adornados de flores e no meio de hymnos de festa, dirigiram-se ao templo, a render graças a S. Sebastião; ficando, como lembrança do memorável feito, instituida a celebre festa
S. SEBASTIÃO I das canoas, de que dão noticia os chronistas de I nota, e que durou ate' os ultimos tempos da colonia, como se póde verificar nos archives da I nossa municipalidade. E da lenda que os alliados dos francezes I recordando-se d’aquella hora fatal,perguntavam^ aos portuguezes: Quern era aquelle gentil-homem que an dava armado durante o conflicto, e saltando em nossas canoas? Ao que elles respondiam, na convicção inatí balavel de suas crencas • O gentil-homem que vistes, era S. Sebas- (1 tião, o nosso padroeiro. O segredo da lenda existe na sua propria naI tureza. Este quadro é apsychologia do intrépido ; marinheiro portuguez, todo entregue ás suas .,idéas mysticas e aos prejuizos religiosos das ; raças antigas. ^ Dasperipecias eoccurrencias durante a travesnsia de Mem de Sá,nada poderemos assignalar’que lelle trouxera comsigo o bispo D. Pedro Leitão, tfAnchieta e outros padres, vindo aqui fundear ■ em iSyd, é o que nos demonstram as chronicas, E Estacio de Sá e seus soldados sustentavam Ã-efregas valorosas, conquistando em cada uma -i’ellas um laurel á sua apotheose. O inimigo, porém, era avultado como os ^raos de area nas nossas plagas 5 e em cada H.ertão as redes dormiam vasias, porque as ve- .edas entulhavam-se de selvagens álerta. . A fadiga, a escassez de viveres e a morte coueçavam a passar revista aos batalhões teme-
rarios, que sentiam já o arcabuz pesair-lhes no hombro, e o arco cie ipe desobedecer-lhes ao braço outr’ora fortissimo. N’essa conjunctura, aos i8 de janeiro, as velas da esquadra de Mem de Sá alvejam no horizonte. Aproximando-se,o convés da capitanea trans muda-se n’um escarpamento de luz, por onde dous vultos gigantescos — Anchieta e o gover nador — sobem e,devassam a immortalidade. Mem de Sá, homem de fé viva, estacionado na entrada da barra, resolve-se a assediar as aldêas e baluartes inimigos no dia de S. Se bastião, a quem intercede e toma por patrono do audaz commettimento. Desembarcando com armas e munições, con fiando o commando da infantaria a Estacio de Sá, no amanhecer do dia 20, assalta a inex pugnável fortificação de Uruçumirá, sendo ahi Üechado Estacio de Sá, e de cujo ferimento veiu a fallecer um mez mais tarde. Arrasados os reductos, incendiadas as aldêase desbaratados os francezes, novas graças foram dadas ao divino Martyr, a quem o governador e os seus bravos attribuiram o successo da; batalha. Terminada a guerra, parte Anchieta pará: S. Vicente, regressando opportunamente com o| illustre Nobrega e mais padres da Companhia; Apenas á flor da terra branqueavam os muros da cidade, o silencio e a tristeza rendiam as derradeiras homenagens ao cadaver de Estacio] de Sá. Irí?'*
S. SEBASTIÃO A sua inhumação foi simples e rapida como a dos heroes de Homero ! O governador demarcava limites, activava a construçcão das muralhas e fortificações, esco lhendo os jesuitas logar para edificação de um collegio, ao qual o rei D. Sebastião cedeu patrimônio. E Anchieta assiste á fundação da cidade nas cente que, devido ao nome do rei de Portugal e á protecção do milagroso Santo na trilha das victorias alcançadas, denominou-se — cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro. Das chronicas religiosas do século xvi foi esta a superstição tradicional que produziu mais gloriosos effeitos.