O Entrudo (Bahia)
li! n t r u d o ( r . A H I A ) UAL a origem do entrudo ? E’ esta uma questão de evidencia difficultosa, e de cuja discussão não viria grande luz a destacar os planos do quadro de costumes, que intentamos des crever . Seria elle importado da índia nos Açores, pelos navegantes portuguezes, quando o reino de Pegú, hoje província birmanica, constituia além Ganges estado independente ? Festas populares
TESTAS PORLAUES DO DKAZIL ■) M/-^ i ^ ' w' '-;i * i’ ’ ■ i ■■' ■ja ' : < 1 ^ •■ L, .V;' i % T' ; M; ' ; Adiantando, todavia, uma reflexão parece-nos que a genesis d’esse folguedo deve remontar-se ás abluções, immersões e aspersões, tão intimas ao povo judeu, de quem a Europa assimilou tradições e ritos. Dj mesmo modo porque se encontram ada ptados pelo christianismo os v'elhos cerimoniaes do Levitico, é possível que d’aquellas formulas purificadoras nascesse o entrudo, degenerado na sua indole e na sua feição histórica. Como quer que seja, é um costume especial que leccbemos da antiga métropole, com toda a sua bagagem de desmandos nocivos e ale gres. Dando coma d’esse divertimento publico, que precede os très dias immediatos á quaresma, é ainda na Bahia que encontramos o typo menos brutal, pelo amestiçamento brazileiro. O jogo do entrudo, outr’ora generalisado no paiz, perdura no seu apogéo em quasi todo o noite, e nas provindas do sul onde o elemento estrangeiro tem pouco que veiu E em que consiste elle fóra da corte, isto é, em outras capitaes, villas e sertões / Como se lazia na Bahia, ha bons quinze annos ? Deixando o trabalho de descriminação do que é geral ao leitor, apreciemos no complexo das scenas invariáveis, o que existia de distincte cm usanças locaes. Na Bahia, os preparativos da folia, começavam um a dous mezes antes. N esse decurso, as íamilias conhecidas e as pessoas da amizade preveniam-se mutuamente,
Oi i ^ Cviiil 0 ENTllUDO que iriam em casa « brincar o entrudo. » Os rapazes, especialmente os estudantes de medicina, faziam economias das mezadas, re servando para as laranginhas o que disputuvam ao luxo, aos passeios e aos theatros. Emquantoo exterior da cidade almejava pelo domingo gordo, no lar domestico a industria dos limões de cheiro era florescente e promettedora de lucros compensadores. Em algumas casas, quem entrasse, notaria es tranho movimento. Moças e velhas, meninas e raparigos^ entregues a descostumado labor, sopravam achas de logo, grazinavam, contavam de um até doze. IS’aquelles circulos, a ociosidade era ignorada e osarreme^sos communs. Em volta de um fogareiro, sobre brasas a miudo ateadas, fumava n’um cabore meio d’agua, espessa camada de cera fundida. As fa bricantes de laranginhas espetavam, em pon teiros, limões naturaes, de tamanho irregular. Uma das velhas dispunha o carmin, o anil e o verdete, para o colorido da massa: as moças tomavam de um canivetinho, com que incisavam a delgada pellicula das esphera's translúcidas que esfriavam; as meninas folhea vam livrinhos de pão-de-ouro; e as raparigas i, arranjavam os taboleiros e bandejas, no chão £ da sala. Logo que a cera estava no ponto, dcscnvol- ; via-se o trabalho success! vo das opcrariris afano- , víS y I: sas, trabalho por vezes distribuído coai mcthodo í pelus industriaes.
FESTAS POPULARES 1)0 BRAZIL Retirado do fogo o caboré, afim de abaixar a fervura, mettiam no lastro oleoso e colorido os limões, previamente untados de sabão. Sobre uma cadeira havia uma tigela com cera morna, que servia para soldar as bandas separadas e embutir o orificio deixado pelo cabo por onde os seguravam. Findo esse processo, enchiam as delicadas capsulas com aguas aromatisadas de essencias de canella, rosas, cravo, etc., servindo deconducto ao liquido um pequeno funil de folha de Flandres. Depois, tapavam-as, encobrindo a saliência resultante com um pouco de pão-de-ouro ou de prata, que deixava de ser um recurso de arte, para s,çr um enfeite de bom gosto. A’ proporção que as laranginhas ficavam promptas, uma rapariga arrastava um taboleiro para junto da sinhá-velha, que as contava, ti rando-as de entre os dedos, e as enfileirando por dúzias. E as encommendas choviam... As mulatas e creoulas importunavam as senhoras-moças, pe dindo rendas e babados; da Cidade Baixa tra riam presentes de pannos de alacá e cordões de ouro, coraes e chincdlas,— conquistas de seus reservados carinhos ao grosso comm.ercio da terra, que sempre as exalçou com enthusiasmo sentido e generosidade provada. Vendedeiras de limões de cheiro, cantadeiras afinadas das trovas populares do entrudo, fa zia-se mister que tudo fosse condigno—das se nhoras e das escravas.
0 ENTRUDO ‘ y>ii 'U Lx M' ihMí!« i- — : ,u:ir IIt; Uma outra especulação de familin eram os so nhos^ com os quaes as bellas yáyás cuculavam douradas sopeiras collocadas sobre toalhas de cambraia e de crivo, que forravam os taboleiros envernizadosdas creoulas de béca e de pencas de chaves. No centro d’estes, uma garrafa branca de crystal, que continha a calda, exhalava o per fume das ílôrcs de larangeira na madrugada dos vergeis. Um palito fincado em cada um dos sonhos e um pires em que os serviam aos compradores, revelavam a boa ordem da quitanda e o gosto artístico das gentis doceiras, cujo capricho re tribuíam immediatos proventos. No domingo de entrudo, desde muit^cedo, via-se correndo, de uma para outra pora, um creoulo agil, uma negra risonha e patusca. O creoulo, sustendo entre as duas mãos enormeseringa,fazia pontaria,empurrando uma rotula; a negra, desviando a um lado uma bacia d’agua, invadia uma casa .. Momentos depois; ouvia-se o baque do li quido, uma algazarra infernal, alguma cousa de semilhante a uma briga. E os dous sahiam... Nas vendas,os taverneiros recolhiam as amos tras penduradas, e os foliões da ralé formiga vam aos balcões. Eram os prelúdios da festa. E ao compasso accelerado ou tardio das chinellinhas, que batiam nas pedras como o estalo dos bilros nas rendas das almofadas, uma voz
FESTAS POPULARES RO RRAZIL feria o ar, e uma figura esbelta e graciosa descia uma ladeira, cantando: Ahi vai, ahi vai Laranginhas de primo-, (mrnpre, yáyá, laranginhas, Para entrudá seu cmiâ. P? de yáyá, e de yôyô, (^ueni que entrudá seu amó ! .. . K a vendedeira de sonhos, mercando faceira : Sonhos, yáyá, está sonhos Feitos por mão de sinhá, Vem compra á sua negra P’ra sinhá não se qangd, ^ Com suas mãos delicadas Bateu ovos e farinha; Compre, yôyô, esses sonhos, Foi Jeitos por sinhasinha. E' de yáyá, e' de yô} ô, Quem qué sonha com seu amo !.... E muitos psius ! repetidos das janellas, faziam-n as mais deligentes, servindo áfreguezia, Qepois das duas horas, o folguedo crescia. 'Bacias e quartinhas d agua inundavam os pas santes ; e o polvilho c o vermelhão mascaravam o escravo ou o homem da plebe, que seguiam seu caminho. Sorprehendido por turbulentos que o perse guiam ás gargalhadas, um individuo, juntando as pernas e aos pulinhos„ com o chapéo de sol
0 ENTRUDO -iíjj aberto, protegendo-se dos limões o seringas, implorava aborrecido: — Não joguem!... não pcsso me molhar, que estou doente! Esta phrase era correspondida por uma sa raivada de laranginhas e esguichos, que o des concertavam. Descompusturas e vaias estrondavam em outros logares. — Eram os pretos e pretas ve lhas, que se debatiam nas esquinas ou nos chafa rizes, comparte da cabeça e do rosto empastada de alvaiade e vermelhão, que os tornavam irrisórios. As moças mudavam de vestido, e raros projectis, vibrados á distancia, partiam um vidro, resvalavam n’uma porta, entravam por uma janella. E a mulata descantava : Quem entruda seu amó E’ signal de intimidade ; Yáyá, entrude a yÔ3'ô, Para lhe ter amizade. E’ de yáyá, é de yôyô, Quem qiió entrudá seu amô... E todos preveniam-se para o combate, que travava-se depois do jantar, esvasiando taboleiros e taboleiros de assetinados limões. Nas casas de gente pobre, as gamellas trans bordavam d’agua limpida e cheirosa, em que sentavam á força pessoas da convivência ou os incautos que agarravam.
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FKSTAS POPULÄRES DO BRAZIL L i|iil^ K assim perduia o entrudo em varias provincias do Brazil, e brincava-se na Bahia, de onde OS echos não nos trazem, ha longos annos, um hymno das suas festas e o som de uma d’aquellas cantigas que outr’ora alvoraçaram a nossa alma infantil. ' í íh;