Capítulo I S. Bernardo · Capítulo 1 de 36
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Capítulo I

Antes de iniciar este livro, imaginei construil-o pela divisão do trabalho.

Dirigi-me a alguns amigos, e quasi todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionaes. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira acceitou a pontuação, a orthographia e a syntaxe; prometti ao Archimedes a composição typographica; para a composição literaria convidei Lucio Gomes de Azevedo Gondim, redactor e director do Cruzeiro . Eu traçaria o plano, introduziria na historia rudimentos de agricultura e pecuaria, faria as despesas e poria o meu nome na capa.

Estive uma semana bastante animado, em conferencias com os principaes collaboradores, e já via os volumes expostos, um milheiro vendido graças aos elogios que, agora com a morte do Costa Brito, eu metteria na esfomeada Gazeta , mediante lambugem. Mas o optimismo levou agua na fervura, comprehendi que não nos entendíamos.

João Nogueira queria o romance em lingua de Camões, com periodos formados de traz para diante. Calculem.

Padre Silvestre recebeu-me friamente. Depois da revolução de Outubro, tornou-se uma fera, exige devassas rigorosas e castigos para os que não usaram lenços vermelhos. Torceu-me a cara. E eramos amigos. Patriota. Está direito: cada qual tem as suas manias.

Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lucio Gomes de Azevedo Gondim, periodista de boa indole e que escreve o que lhe mandam.

Trabalhámos alguns dias. Á tardinha Azevedo Gondim entregava a redacção ao Archimedes, trancava a gaveta onde guarda os nickeis e as pratas, tomava a bicycleta e, pedalando meia hora pela estrada de rodagem que ultimamente Casimiro Lopes andava a concertar com dois ou tres homens, alcançava S. Bernardo. Commentava os telegrammas dos jornaes, atacava o governo, bebia um copo de cognac que Maria das Dores lhe trazia e, sentindo-se necessário, commandava com submissão:

— Vamos a isso.

Iamos para o alpendre, mergulhavamos em cadeiras de vime e ageitavamos o enredo, fumando, olhando as novilhas Caracu que pastavam no prado, em baixo, e mais longe, á entrada da mata, o telhado vermelho da serraria.

A principio tudo correu bem, não houve entre nós nenhuma divergencia. A conversa era longa, mas cada um prestava attenção ás proprias palavras, sem ligar importancia ao que o outro dizia. Eu por mim, enthusiasmado com o assumpto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a consideral-o uma especie de folha de papel destinada a receber as idéas confusas que me fervilhavam na cabeça.

O resultado foi um desastre. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro, o redactor do Cruzeiro apresentou-me dois capitulos dactylographados, tão cheios de besteiras que me zanguei:

— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernostico, está safado, está idiota. Ha lá ninguém que fale dessa fórma!

Azevedo Gondim apagou o sorriso, enguliu em secco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.

— Não pode? perguntei com assombro. E porque?

Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.

— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negocios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguem me lia.

Levantei-me e encostei-me á balaustrada para ver de perto o touro Limosino que Marciano conduzia ao estabulo. Uma cigarra começou a chiar. A velha Margarida veio vindo pelo paredão do açude, curvada em duas. Na torre da igreja uma coruja piou. Estremeci, pensei em Magdalena. Em seguida enchi o cachimbo:

— É o diabo, Gondim. O mingau virou agua. Tres tentativas falhadas em um mez! Beba cognac, Gondim.

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