Segunda parte - Capítulo XI Os Bem-Casados · Capítulo 28 de 31
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Segunda parte - Capítulo XI

Um dia, como Leôncio lhe dissesse que sua mãe estava doente, Licínio entristeceu-se e disse a D. Alípia que desejava ir visitá-la. — O senhor está incomodado à toa — respondeu a sogra. — Decerto são as macacoas que ela sempre tem tido. O Leôncio exagera muito. E por que haveria de adoecer? Não cuida da casa, não bole numa palha, passa uma vida sossegada! Este “sossegada” teve uma inflexão sui generis que levantou uma pequena desconfiança na alma de Licínio. Adivinhou o insulto rebuçado no eufemismo. Por que a sogra odiava sua mãe, devia ele, que era filho, odiá-la também? Insistiu intrepidamente, com o fim de analisar-lhe os sentimentos. — Disse que está de cama, passando mal. — Histórias, decerto, Sr. Licínio! Exageros do Leôncio. Mesmo que estivesse, podia ser apenas… cansaço de andar. Isso de tirar esmolas deve ser cansativo. É uma vida de andarilho. — Mamãe não pede pelas ruas — retrucou Licínio. — Trata dela a Maroca do Pedro, e, assim, é como se pagasse uma dívida, pelo muito que a mamãe a serviu outrora. D. Alípia enrugou o beiço e franziu o nariz, como quem significava que dava tudo na mesma e era sempre aviltante. — Em todo caso — prosseguiu Licínio com mansidão, porém com firmeza —, faz tanto tempo que não a vejo, que vou hoje fazer-lhe uma visita. Confesso-lhe que tenho tido remorsos de a ter esquecido tantos anos!

D. Alípia encrespou mais o nariz, meio agastada, com algumas “verdades” prestes a borbotar-lhe da boca; mas preferiu afastar-se para o outro cômodo, lançando-lhe uma última frase: — O senhor pode ir, mas lembre-se de que esperamos daqui a pouco o noivo da Noêmia e seria uma desfeita não estar aqui conosco para recebê-lo. Sentindo a proibição que encerravam essas palavras, Licínio pendurou o chapéu que havia tomado para sair. Em seguida, prestando atenção, ouviu no compartimento contíguo D. Alípia zunzunar ininterruptamente o que quer que fosse, respondendo-lhe Angélica com indignação abafada. Pareciam ambas irritadas. Durante o resto do dia Licínio não encontrou oportunidade para sair. Era como se secretamente conspirassem para tomar-lhe as horas todas. Passou a maior parte do tempo a fazer sala, com as outras pessoas da família, para o noivo da cunhada. Este era um moço imberbe e tímido que morava num lugarejo próximo. Estava doidamente apaixonado por Noêmia que, com o passar dos anos, embora perdesse alguns atrativos da menina, ganhara em mimo e graça angelical. Era fina de rosto e tinha um ar etéreo de sílfide e de visão. O noivo, perto dela, adorava-a com os olhos e com a boca aberta. Licínio, sem saber por quê, sentiu por ele, ao mesmo tempo, simpatia e piedade.

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