Segunda parte - Capítulo XII Os Bem-Casados · Capítulo 29 de 31
Obra Menu

Segunda parte - Capítulo XII

Durante a semana Pedro Carpinteiro foi várias vezes dizer a D. Alípia que mandasse chamar Licínio, porque a mãe dele agonizava. Certificada por outras fontes da notícia, a matrona afinal convenceu-se e disse a Angélica: — Minha filha, estou muito indecisa. Meu dever é mandar chamar o Sr. Licínio; mas tenho tanta pena dele, coitado! Imagino como não ficará triste sabendo da notícia. Depois, uma alma sensível como a dele assistir ao horror de uma agonia… Acho melhor poupar-lhe esse espetáculo doloroso. Além disso, o serviço se ressentiria, se ele, mesmo por uns dias, deixasse a fazenda. Porque, ao receber o aviso, seria bem capaz de deixar tudo e vir. — Lá isso vinha mesmo — observou a filha. — Mamãe, tenho para mim que o Licínio não regula bem. Não nota que às vezes ele tem assim uns modos… umas reviravoltas? — Aquilo é gênio — opinou D. Alípia. — É; mas quando a gente o esbarra como deve ser, fica melhor. Não se lembra daquela vez que ele fugiu para o mato? Tratamo-lo mal uns tempos e ele ficou feito uma seda. — Isto é verdade — concordou D. Alípia. — É preciso ir aos poucos e com jeito encurtando o cabresto, para evitar muitas contrariedades. Pensa que nestes últimos dias não tenho tido agravos dele? — Licínio tem isso mesmo, mamãe; de tempos a tempos noto-lhe umas mudanças…

— Então não o avisamos? — É melhor. Para quê? Ele não pode dar vida à mãe e iria inutilmente sofrer e atrapalhar o serviço. Afinal de contas, Licínio pouco se importa com ela. Há quantos anos não a vai ver? Também, seria absurdo ter considerações com uma criatura daquela ordem! D. Alípia suspirou, filosofando: — Tem razão. Há certas mães desnaturadas a quem não sei para que Deus dá filhos! E ficou assentado nada dizerem. Na sexta-feira Pedro foi comunicar-lhes a morte de D. Ismênia. Tinha os olhos vermelhos de chorar, e o sentimento fazia-o gaguejar ao dar a triste nova. — Querem que eu vá à fazenda avisar o Sr. Licínio? — perguntou. — Não é preciso — respondeu a matrona —; mandarei eu mesma. — O enterro é amanhã, às cinco da tarde. D. Alípia, consternada, conferenciou de novo com Angélica. Contrariava-a ter isso acontecido no meio da semana. Resolveu por fim: — Quer saber, Angélica? Não mando nenhum aviso. Saberá domingo, quando vier. Também, que adiantaria chegar mais cedo? O que tinha de acontecer, aconteceu. Morreu, e o Sr. Licínio não poderá ressuscitá-la. — Acho até uma obra de caridade não dizer nada agora — opinou Angélica. — Tem tempo de sobra para saber depois. Eu mesma dar-lhe-ei a notícia com toda a suavidade, para evitar um choque muito grande. E após uns momentos de silêncio: — Olhe, Angélica, estou com vontade de chorar, só de pensar em D. Ismênia morta. É esquisito, mas estou… No fundo sempre lhe dediquei amizade. Tinha seus defeitos, não há dúvida, mas era uma boa criatura. — Tão humilde… — concordou Angélica, enxugando uma lágrima. — Coitada!

1/1
Menu

Fazer anotação