Parte III
Heitor Corrêa, reanimado pelos alentos da desesperação, ergueu-se, e esgrimiu ainda o florete com braço impotente. Mesquita, ferido num braço, afastou-lhe os botes, com admirável presença de espirito.
O duelo em Vila Real era uma coisa nova. O fato, em um dia tal, redobrava de escândalo. Não se atravessavam as multidões espessas, que reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espanto não era a moral ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como razão suprema de tal algazarra estar exposto o Santíssimo Sacramento, quando dois homens se cortavam a ferro frio.
As autoridades, cônscias do acontecimento, deram ordens imediatas de captura. Estas ordens não podiam ser cumpridas por meirinhos; e não houve desgraçadamente autoridade militar que capturasse os duelistas.
Heitor Corrêa, exausto de forças, perdidas no sangue, que os recursos da cirurgia não estancara, desmaiou, e deu sintomas de morto. O alferes de cavalaria, ligeiramente ferido no braço, curava-se numa botica, afetando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na rua. de entre elas saiam gritos terríveis de «morra! » Os que assim gritavam diziam que estava exposto o Santíssimo Sacramento; e, por tanto, não podiam deixar de matar o impio que desacatara, em quinta feira santa, a solenidade da paixão de Cristo. Como eles saciavam a sede de sangue com o fervor beatifico das suas crenças, explicam-no milhares de fatos semelhantes que acompanham sempre a edificante história dos muito austeros autores da integridade religiosa, tanto em Roma, como em Constantinopla.
Fernando Corrêa, irmão de Heitor, estava à janela quando viu entrar seu irmão nos braços de dois soldados. Desceu ao átrio, e interrogou o fato. Contaram-lhe, com as mais irritantes circunstâncias, o acontecimento.
Fernando, sem atender a suplicas da família, e de amigos prudentes, saiu de casa, tal qual estava, embrulhado num capote. Mas, debaixo deste capote, levava um bacamarte.
Quando chegou à entrada da rua do Jogo da Bola, viu um grupo de povo, que parecia vedar a saída de uma botica. Lá dentro estava Pedro de Mesquita, a quem faltara a coragem para afrontar a força bruta da populaça.
Em frente dessa botica morava a infeliz Marta, a atribulada amante daquele homem, que ali estava ameaçado das iras da plebe, tigre desenfreado da licença, em aqueles dias de escravidão, logo que um acaso lhe alargasse um pouco as algemas.
Fernando Corrêa abriu uma clareira entre a multidão. Descobriram-se todos, exclamando: «Chega o fidalgo! deixem passar o fidalgo. »
E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmão.
— Assassino... não!... — respondeu o alferes. — Fui eu quem o feri, e honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.
Fernando Corrêa, estupido como fatalmente são os que podem contar muitos avós robustos de músculos, e nenhum de vigor intelectual, não compreendeu a delicadeza daquela resposta. O que ele praticou é um ato de barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo atrás, aperrou o bacamarte, e despejou-lhe o, à queima roupa, no peito.
Foi horrível, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de meus olhos, noite e dia, porque nesse instante ouvi um grito de arrepiar as carnes. Era Marta que caíra, com a face na lage da janela, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebível dos tormentos possíveis nesta vida.
Voltaram-se todos para aquela janela, e viram-me... a mim, que subira, alentado pela coragem da minha dor, as escadas daquela casa, e levantara da janela a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de mim... não vi ninguém, excepto uma criada que chorava, perplexa, sem atinar com o que devia fazer. A família, a essa hora, na igreja da Misericórdia, orava, talvez, à Virgem protetora das virgens...
Fernando, consumado o assassínio, saiu galhardamente por entre as turbas que saudavam o nobre algoz. A paralisia do terror gelara os poucos que lhe reprovavam a infâmia. Ninguém ousou, sequer, lembrar-lhe que aquele sangue lhe tingia os pergaminhos!
O nobre amante de Marta foi conduzido ao quartel. O seu último lance de olhos nesta vida, viram-no todos fixar-se na janela da infeliz. Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.
Passada uma hora, Fernando Corrêa, montado numa possante mula, e seguido de um criado, e dois bacamartes, passava em Almádena, caminho de Lisboa. E, para que esta circunstância me não esqueça, dir-lhe-hei que, um mês depois, o assassino, impune pelo privilegio dos seus pergaminhos, entrava em Vila Real, com um alvará de real mercê que o isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita.
O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabeça ao fidalgo, que passava soberbo por entre aqueles que lhe liam na face a altivez do assassino, que zombara da lei.
Heitor Corrêa... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos dobraram por alma de Pedro de Mesquita.