Parte IV A Caveira · Capítulo 5 de 5
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Parte IV

É necessário falarmos de Marta... É a luz única deste quadro negro... Nem a história valia a pena de ser ouvida, se não tivesse um heroísmo de virtude para a admiração, e uma santa para o culto das almas nobres, e apaixonadas pelo sublime do martírio.

Por ventura, pode o senhor compreender a situação de um homem, que tem desmaiada nos braços aquela por quem fora atraiçoado...? Não é bastante compreender isto: é necessário compenetrar-se mais da minha situação...

Marta iludira-me... ou iludira-se; Marta desprezara-me com cinismo indigno da sua idade; Marta escarnecera as loucuras que me sacrificaram a ela; Marta desmaiara, adivinhando a morte do meu rival... Compreende por ventura agora o tormento indefinível da minha situação?... Não compreende, porque se eu lhe disser que naquele trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que dera a minha vida pela do rival assassinado, com tanto que Marta não fosse assim desgraçada... o senhor, por certo, não concebe este fenômeno, este sacrifício... esta monstruosidade de resignação... Quem sabe!... a sociedade capitular-me-ia de imbecil, e o meu amigo, por muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inofensivos, não é assim? »

Não lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. João me adivinhara. Corei, de certo, quando fui surpreendido no segredo dos meus juízos. Nada menos lisonjeiro que o meu silencio para o pobre velho! Era de certo um pungente assentimento à sua conjectura! A dor é generosa, e cala as afrontas. Reconheço hoje que ultrajei aquele grande sacrifício, que compreendo agora. Se não receasse mesclar com a gravidade melancólica desta narrativa um anexim popular e graciosamente filosófico, diria que o diabo não quis nada com rapazes, e D. João de Noronha, de certo, não era mais privilegiado que Lúcifer para tirar de mim melhor partido.

D. João prosseguiu:

«A família de Marta veio encontrar-me, com ela nos braços. A mãe, que profetizara, em seus virtuosos presentimentos, a desgraça da filha, apertou-a contra o seio, cobriu-a de lágrimas, e acordou-a daquele letargo, com aflitivos gemidos.

Marta abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os lábios. Esperávamos ansiosos que a sua angustia respirasse pelas lágrimas. Não chorou uma só. Enquanto os sinos dobravam a finados pela alma dos dois amantes, Marta estremecia, mas não posso dizer-lhe como era aquele tremor... A corda de um instrumento ferida, e deixada ao impulso da vibração estremece assim.

No fim de três dias extinguiu-se o sofrimento, porque a vimos pender serenamente a cabeça nos braços de sua mãe. Felicitamo-nos pelo repouso da infeliz. Imaginamos que ela devia acordar mais tranquila, ou, pelo menos, mais desabafada daquela agonia que lhe sufocava não só os gemidos, mas até a respiração. Esperamos... mas quem não esperava era o medico, que, ao retirar-se, deixou dito que não era Cristo para restituir a filha à viúva de Nahim.

Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se morre assim? Dizem que a morte é a aniquilação da matéria... mas aquele anjo morreu dentro em si, antes que os sintomas da destruição nos revelassem o rápido dilacerar daquela morte! Quem dirá que aquela mulher sofreu no corpo? Ninguém! A alma, só a alma, este ser imortal que foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada no seu mistério de dores inconcebíveis, relutando por estalar as algemas que a prendem ao cavalete do corpo... a alma, e só a alma, meu amigo, consumou aquele trance de incomportável inferno, e passou ao mundo da penitencia ou da gloria...

Agora principia a minha cena nesta tragedia... É só minha, e só eu a compreendo... mas hei de contar-lhe a. Acompanhei à igreja de S. Francisco o cadáver de Marta. Fui o último que se retirou de ao pé da sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em três anos sucessivos, lhe ajoelhou na pedra que eu não queria fosse a nossa eterna separação.

Empreguei os meios para obrigar o coveiro a não tocar em aquela sepultura durante três anos.

Findo este prazo, venci com dinheiro a repugnância do coveiro, e a pedra que cobria os ossos de Marta foi levantada.

Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror, agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do Santíssimo Sacramento.

O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava maquinalmente a enxada com que afastava as camadas da terra.

Não posso dizer-lhe até que ponto fui enganado pelas larvas que a desvairada fantasia, ou a misteriosa realidade revocou em volta de mim... Estou quase jurando-lhe que a vi... a ela... como nos dias da sua esplendida formosura iluminada pelo resplendor da sua inocência, purpureada do pejo com que a candura se rende ao império dos instintos... Era ela, quando, nos primeiros tempos da nossa infância, me oferecia de seu coração a parte que não podia dar a sua mãe, e a seus irmãos... Era ela, quando me perguntava o segredo daquela atração irresistível, que a arrastava para mim, que a entristecia sem motivo, que a fazia ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia sonhar umas delicias que sua mãe lhe não explicava nem realizava com os seus carinhos... Foi assim que eu a vi, enquanto o eco da enxada, que feria o seio da sepultura, reboava nas naves da igreja... Gelava-se-me de terror o pensamento... a fantasia esfriava-se ao roçar pela mortalha de aqueles ossos, e eu sentia-me morto em metade da vida, quando a terra sacudida da enxada me vinha cair aos pés.

E depois... as larvas, que a razão não podia espavorir, tornavam a cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se nas grades do coro, a tremularem por entre os cortinados dos altares, e a esvoaçarem na abobada do templo como nuvens escuras, espedaçadas pela tempestade.

Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus pés... tinha a face lacerada pelos vermes. E era bela ainda... Devo ser sincero, meu amigo... É impossível que a imaginação me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... senti o frio das suas mãos... ergui-a de meus pés... perdoei-lhe... chorei com ela...

A voz de um homem chamou a minha alma à realidade acerba daquela cena, que se me figurava um sacrilégio, uma profanação.

Era o coveiro, que me dizia: «a enxada já topou com os ossos. »

Esta nova, comunicada friamente pelo coveiro, alvoroçou-me, e coou-me nas veias não sei que terror semelhante ao do sacrílego, que não tem ainda bastante barbarizada a alma pelo crime, e vacila, horrorizado de si próprio, quando atira ao pavimento do altar as hóstias contidas no cálix, que rouba.

Aqueles ossos, aquele meu tesouro, ambicionado há três anos, tinham agora para mim uma superstição, um cunho sagrado, que me fazia na alma não sei que pesar semelhante ao remorso.

Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do coração, que se arrependera. Quis deixar intactas aquelas cinzas. Lutei comigo para vencer um excesso de medo, um abuso, talvez, da imaginação. Não pude; mas não pude também retirar-me sem uma relíquia, um ser sem alma, uma recordação para as lágrimas, e uma gloria só minha neste mundo... a gloria de possuir na morte uma companhia que tivesse sido incentivo de lágrimas, já que não pude conseguir como companheira na vida essa preciosa existência, que me espera há sessenta e seis anos na eternidade.

Eis-aqui a relíquia, a testemunha imóvel, terrível, e silenciosa dos longos sofrimentos de um homem, que atravessou uma longa existência, sem conciliar com os prazeres do mundo a eterna viuvez da sua alma!

Eis-aqui a caveira de Marta que eu revisto a cada instante das feições com que a vi partir deste mundo. Há ali em aquelas orbitas uns olhos que me veem... olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos angustiosos desta paixão desastrada, eu vejo sempre esta caveira, animada umas vezes do gracioso riso da inocência, outras vezes das contorções frenéticas da desesperação... Há ali em aqueles ossos, onde os lábios articulavam hinos dos anjos, uns lábios que, a cada instante, me balbuciam um perdão... E tenho momentos de inferno nas minhas dolorosas contemplações, aqui diante desta redoma... Às vezes juraria que essa caveira estremece em convulsões rancorosas contra mim, balbuciando o nome do homem, que a levou consigo à sepultura!... Então... sinto-me demente, porque tenho ciumes do nada... ciumes destas cinzas esquecidas no mundo... ciumes da memoria de outras cinzas, que, há três quartos de século, esperam o dia final... É lamentável a situação deste pobre velho, que não pôde roubar-se a uma agonia, das que o mundo reputa quimeras, não é assim?

Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lhe o não disse, nem lhe o diria, se lhe não acreditasse umas lágrimas que lhe vejo nos olhos.

Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dor. O que eu não creio é na morte. A morte é uma palavra convencional, com que os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio de uma nova existência. A imortalidade é uma ideia abstrata de tudo que é compreensível aos homens. O homem não explica a imortalidade, em quanto não sobe um grau na escala dos seres inteligentes. Veja se me compreende... Há uma escala de seres que principia na matéria bruta, e termina nos espíritos. As funções do espirito, sem formas corpóreas, pertencem à criatura, superior ao homem. Ora, o homem não explica essas funções, que devem ser a sua futura existência, pela mesma razão que o animal, inferior ao homem, não compreende as funções do pensamento aperfeiçoadas, mas não perfeitas, no homem. Todos os seres, por tanto, vão subindo na escala da inteligencia. Todos se transfiguram de forma em forma até deixarem na terra o involucro da matéria, e vagarem nos espaços incógnitos como vagam os espíritos. É lá em cima, nas proximidades do grande mistério, ao clarão da eterna luz, que se lê o livro de Deus. É nas regiões, que a minha alma adivinha, que eu devo sentir pelo órgão espiritual em que recebi a interminável impressão de agonia, que foi na terra a minha lenta peregrinação. O amor ardente e sublime não é um atributo do espirito? Aquele que muito ama, e muito devorado morre de paixões grandes e ideais, não é um profeta da vida futura, uma preexistência do futuro amor? A não ser o amor, qual será a existência do espirito?

Conheço que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que quis elevar o seu espirito à altura das minhas grandes doutrinas, do meu querido segredo. Quis convencê-lo, não digo bem, quis entusiasmá-lo por essa eternidade em que aí se fala, despida de afetos, de poesia, de esperanças, e... deixe-me dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...

Meu amigo, há na minha vida um oásis. Tenho exaltações de jubilo, aqui, neste quarto, onde conto, há perto de setenta anos, os minutos da minha existência. Este gozo é a minha convicção na imortalidade... É a minha esperança, confirmada pela meditação e pela ciência, de que hei de encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do céu...

Basta... Seja digno da minha confidência... Não diga às turbas de Vila Real os segredos de D. João de Noronha. Aqui escarnecem-se os que sofrem, logo que não sofrem pelas más colheitas do vinho, ou pela barateza dos cereais. Não fale a linguagem dos espíritos, onde a matéria organizada dispõe do maquinismo da boca para lhe dar uma gargalhada em resposta. »

D. João de Noronha despediu-me.

Desde esse dia foram mais da alma e da inteligencia as nossas comunicações. Aprendi com ele a ciência do espiritualismo. Se depois me materializei, é porque a faísca daquele gênio não me tinha abrasado mais que a superfície da matéria. O espirito tem a força dos imponderáveis. A força da matéria pode muito bem calcular-se pela força dos vapores... tantos cavalos.

Pergunta-me uma senhora de crítica muito fina:

— Como se explica o casamento de D. João de Noronha aos 86 anos de idade, com uma donzela sua contemporânea?!

— De uma maneira muito simples. As nupcias de D. João não podem considerar-se físicas nem morais. «Absurdo! — replica a espirituosa dama. » Está enganada, minha senhora. D. João tinha uma pequena fortuna, e queria deixá-la a uma criada, que o servira desveladamente toda a sua vida. D. João encarava filosoficamente as formulas sacramentais do casamento. Achava-o utilíssimo como carimbo de contrato civil. Casou-se para recompensar uma criada que lhe consolou muitas lágrimas, e lhe enxugou nas faces mortas as últimas que ele chorou. Era digna do sacrifício. Poucos dias suportou a viuvez.

— E a caveira? — perguntou ainda a amável sindica dos meus romances.

— A caveira deve estar confundida nos ossos de D. João de Noronha. A viúva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na mesma mortalha.

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