Capítulo III
— “Henriqueta…”
Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O rosto incendiou-se-lhe daquele encarnado do pudor ou da raiva. Esta sensação violenta não podia ser desapercebida. O visconde, que parecia estranho à conversação íntima daquelas supostas amigas, não o pôde ser à agitação febril de sua filha.
— “Que tens, Elisa?!” - perguntou ele sobressaltado.
— “Nada, meu pai… Foi um ligeiro incomodo… Estou quase boa…”
— “Se queres respirar vamos ao salão, ou vamos para casa…”
— “Antes para casa” — respondeu Elisa.
— “Eu vou mandar buscar a sege” — disse o visconde; e retirou-se.
— “Não vás, Elisa…” - disse o dominó, com uma voz imperiosa, semelhante a uma ameaça inexorável.— “Não vás… Porque, se vais, contarei a todo o mundo uma história que só tu hás de saber. Este outro dominó, que tu não conheces, é um cavalheiro: não temas a menor imprudência.”
— “Não me martirizes!” — disse Elisa. — “Eu sou infeliz de mais, para ser flagelada com a tua vingança… Tu és Henriqueta, não és?”
— “Que te importa a ti saber quem eu sou?!…”
— “Importa muito… Sei que és desgraçada!… Não sabia que vivias no Porto; mas palpitou-me o coração que eras tu, apenas me chamaste Laura.”
O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege não podia tardar, e convidando a filha para dar alguns passeios no salão do teatro. Elisa satisfez a carinhosa ansiedade do pai, dizendo que se sentia boa, e pedindo-lhe que se demorasse até mais tarde.
— “Onde julgavas tu que eu existia? No cemitério, não é assim?” - perguntou
Henriqueta.
— “Não: sabia que vivias, e profetizava que devia encontrar-te… Que história me queres tu contar?… A tua? Essa já eu sei… Imagino-a… Tens sido muito infeliz… Olha, Henriqueta… Deixa-me dar-te esse tratamento afetuoso com que nos conhecemos, com que fomos tão amigas, alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo estigma de infortúnio…”
— “O mesmo… Não!…” — atalhou Henriqueta.
— “O mesmo, sim, o mesmo… E se me forças a contradizer-te, direi que invejo a tua sorte, seja ela qual for…”
Elisa chorava, e Henriqueta emudecera. Carlos estava impaciente pelo desfecho desta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas duas mulheres, e fazê-las amigas, sem saber a razão porque eram inimigas. A beleza impõe-se à compaixão. Elisa era bela, e Carlos era de uma sensibilidade extremosa.
A máscara poderia ser, mas a outra era um anjo de simpatia e formosura. O espírito gosta do mistério que esconde o belo; mas decide-se pela beleza real, sem mistério.
Henriqueta, depois de alguns minutos de silêncio, durante os quais não era possível avaliar-lhe o coração pela exterioridade da fisionomia, exclamou com ímpeto, como se despertasse de um sonho, daqueles íntimos sonhos de dor, em que a alma se reconcentra:
— “Teu marido?”
— “Está em Londres.”
— “Há quanto tempo o não visite?”
— “Há dois anos.”
— “Abandonou-te?”
— “Abandonou-me.”
— “E tu?… Abandonaste-o?”
— “Não concebo a pergunta…”
— “Ainda o amas?”
— “Ainda…”
— “Com paixão?”
— “Com delírio…”
— “Escreves-lhe?”
— “Não me responde… Despreza-me, e chama-me Laura.”
— “Elisa!” — disse Henriqueta, com a voz trêmula, e apertando-lhe a mão com entusiasmo nervoso — “Elisa! Perdoo-te… És bem mais desgraçada que eu, porque tens um homem que pôde chamar-te Laura, e eu não tenho senão um nome… Sou Henriqueta! Adeus.”
Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado daquele prólogo de um romance. Henriqueta tomou-lhe o braço com precipitação, e saiu do camarote abaixando levemente a cabeça aos cavalheiros, que se davam tratos por adivinhar o segredo daquela conversa.
— “Não pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta; mas não me atraiçoes, se queres a minha amizade.”
— “Como hei de eu atraiçoar-te, se não sei quem és? Podes chamar-te Júlia em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais… Tudo mistérios!
Tens-me, há mais de uma hora, num estado de tortura! Eu não sirvo para estas
emboscadas… Diz-me quem é aquela mulher…”
— “Não viste que é D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado?”
— “Não a conhecia…”
— “Então que mais queres que eu te diga?”
— “Muitas outras coisas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes tem aquela Laura, que se chama Elisa. Fala-me do marido daquela mulher…”
— “Eu te digo… O marido daquela mulher chama-se Vasco de Seabra.. Estás satisfeito?”
— “Não… Quero saber que relações tens tu com esse Vasco ou com aquela Laura?”
— “Não saberás mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um profundo silêncio a respeito do que ouviste. À menor pergunta que me faças, deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma mulher de soalheiro. Eu contraí contigo a obrigação de te contar a minha vida?”
— “Não; mas contraíste com a minha alma a obrigação de eu me interessar na tua vida e nos teus infortúnios desde este momento.”
— “Obrigado, cavalheiro! — Juro-te uma sincera amizade. — Hás de ser o meu confidente.
Estava, outra vez, na plateia. Henriqueta aproximou-se ao quarto camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na frisa, segurou-se ao peitoril do camarote, e travou conversação com a família que o ocupava. Carlos acompanhou-a em todos esses movimentos, e preparou-se para um novo enigma.
Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma análise rigorosa. Não era possível, porém, fazê-la tirar a luva da mão esquerda.
— “Dominó, porque não deixas ver este anel?” — perguntava uma senhora de olhos negros, e vestida de negro, como uma viúva rigorosamente enlutada.
— “Que te importa o anel, minha querida Sofia!?… Falemos de ti, aqui em segredo. Ainda vives melancólica, como a Dido da fábula? Fica-te bem essa cor de esquifes, mas não sustentas o caráter artístico com perfeição. A tua tristeza é fingida, não é verdade?”
— “Não me ofendas, dominó, que eu não te mereço essa injúria… A desgraça nunca se finge…”
— “Disseste uma verdade, que é a tua condenação. Eu, se tivesse sido abandonada por um amante, não vinha aqui dar-me em espetáculo a um baile de máscaras. A desgraça não se finge, é verdade; mas a saudade esconde-se para chorar, e a vergonha não se ostenta radiosa desse sorriso que te brinca nos lábios…
Olha, minha amiga, há umas mulheres que nasceram para esta época, e para estes homens. Há outras que a Providência caprichosa atirou a esta geração corrompida como os imperadores romanos atiravam os cristãos ao anfiteatro dos leões.
Felizmente que tu não és das segundas, e sabes harmonizar com o teu gênio folgazão e desleixado uma hipocrisia que te vai bem num sofá de penas, onde tu recostas com um perfeito conhecimento das atitudes lânguidas das mulheres cansadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio!… És a única mulher para quem este país é pequeno. Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abades de Versalhes, e as filhas do Regente, e as Heloísas desenvoltas dos abades, e as aias da duquesa do Maine… et cetera. Isto por cá é pequeníssimo para as Frineias. Uma mulher da tua índole morre asfixiada neste ambiente pesado em que o coração, nas suas expansões românticas, encontra, quase sempre, a mão
burguesa das conveniências a tapar-lhe os respiradouros… Parece que te enfadas de mim?”
— “Não te enganas, dominó… Obsequeias-me se me não deres o incômodo de te mandar retirar.”
— “És muito delicada, minha nobre Sofia!… Já agora, porém, deixa-me dar-te uma ideia mais precisa desta mulher que te enfada, e que, apesar das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me cá… Tens uma sincera paixão, uma saudade pungente por aquele belo capitão de cavalaria que te deixou, tão sozinha, com as tuas agonias de amante?”
— “Que te importa?…”
— “És cruel! Pois não ouves o tom sentimental com que te faço esta pergunta?… Quantos anos tens?…”
— “Metade e outros tantos…”
— “A resposta não me parece tua… Aprendeste essa vulgaridade com a filha do teu sapateiro?… Ora olha: tu tens 38 anos, a não ser mentiroso o assento de batismo, que se lê no cartório da freguesia dos Mártires em Lisboa.
Aos vinte anos amavas com ternura um tal Pedro Sepúlveda. Aos vinte e cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com delírio, um tal Sebastião de Meireles. Aos 35, amavas, em Londres, com frenesi um tal…
Como se chamava… Não me recordo.. Diz-me, por piedade, o nome desse homem, que, senão, fica o meu discurso sem o efeito do drama… Não dizes, má?… Ai!…
Eu tenho aqui a mnemônica…”
Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou ver um anel… Sofia estremeceu, e corou até às orelhas.
— “Já te recordas?… Não cores, minha querida amiga… Que não fica bem ao teu caráter de mulher que conhece o mundo pela face positiva… Deixa-me agora arredondar o período, como dizem os literatos… Ora tu, que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres fingir, debaixo desse vestido negro, um coração varado de saudades e órfão de consolações?… Adeus, minha bela hipócrita…”
Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o braço a Carlos.