Capítulo V
“Carlos.
Sem ofender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do dominó, porque, em boa verdade, eu continuo a ser para ti um dominó moral, não é assim?”
Passaram-se catorze dias, depois que tiveste o mau encontro de uma mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. Vítima da tua delicadeza, levaste o sacrifício a ponto de te mostrares interessado na sorte dessa célebre desconhecida que te mortificou. Não serei eu, generoso Carlos, ingrata a essa manifestação cavalheirosa, embora ela será um rasgo de artista, e não um desejo espontâneo.
Queres saber porque tenho demorado catorze dias este grande sacrifício que vou fazer? É porque ainda hoje me levanto de uma febre incessante, que me insultou naquele camarote da segunda ordem, e que, neste momento, parece declinar.
Permita Deus que seja longo o intervalo para ser longa a carta: mas eu sinto-me tão pequena para os sacrifícios grandes!… Não te quero responsabilizar pela minha saúde; mas, se o meu silêncio de longos tempos suceder a esta carta, conjectura, meu amigo, que Henriqueta caiu no leito, donde há de erguer-se, se não é graça que os mortos hão de erguer-se um dia.
Queres apontamentos para um romance que terá o mérito de ser português?
Vou dar-tos.
Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus pais tinham o lustre dos brasões, mas não brilhavam nada pelo ouro. Viviam sem fausto, sem história contemporânea, sem bailes e sem bilhetes de boas-festas. As visitas que Henriqueta conhecia eram, no sexo feminino, quatro velhas suas tias, e, no masculino, quatro caseiros que vinham
anualmente pagar as rendas, com que seu pai regulava economicamente uma nobre independência.
O irmão de Henriqueta era um moço de talento, que granjeara uma instrução, enriquecida sempre pelos desvelos com que afagava a sua paixão única. Isolado de todo o mundo, o irmão de Henriqueta confiou a sua irmã os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um espírito varonil, e inspirou-lhe uma ambição faminta de ciência.
Bem sabes, Carlos, que falo de mim, e não posso, nesta parte, engrinaldar-me de flores imodestas, se bem que não me faltariam depois espinhos que me desculpassem as vaidosas flores…
Eu cheguei a ser o eco fiel dos talentos do meu irmão. Nossos pais não compreendiam as práticas literárias com que aligeirávamos as noites de Inverno; e, mesmo assim, folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos olhos aquele rir de bondoso orgulho, que tanto inflama as vaidades da inteligência.
Aos dezoito anos achei pequeno o horizonte da minha vida, e enfastiei-me da leitura, que mo fazia cada vez amesquinhar-se mais. Só com a experiência se conhece o quanto a literatura modifica a organização de uma mulher. Eu creio que a mulher, apurada na ciência das coisas pensa de um modo extraordinário na ciência das pessoas. O prisma das suas vistas penetrantes é belo, mas as lindas cambiantes do seu prisma são como as cores variegadas do arco-íris, que anuncia tempestade.
Meu irmão lia-me os segredos do coração! Não é fácil mentir ao talento com as hipocrisias do talento. Compreendeu-me, teve dó de mim.
Meu pai morreu, e minha mãe pediu à alma de meu pai que lhe alcançasse do Senhor uma vida longa para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um milagre na rápida convalescença com que minha mãe saiu de uma enfermidade de quatro anos.
Eu vi um dia um homem no quarto de meu irmão, onde entrei como entrava sempre sem receio de encontrar um desconhecido. Quis retirar-me, e meu irmão chamou-me para me apresentar, pela primeira vez na sua vida, um homem.
Este homem chama-se Vasco de Seabra.
Não sei se por orgulho, se por acaso, meu irmão chamou a conversa ao campo da literatura. Falava-se em romances, em dramas, em estilos, em escolas, e não sei que outros assuntos ligeiros e graciosos que me cativaram o coração e a cabeça.
Vasco falava bem, e revelava coisas que me não eram novas com estilo novo.
Naquele homem, via-se o gênero aformoseado pela arte que só na sociedade se adquire. Em meu irmão faltava-lhe o relevo de estilo, que se lapida ao trato dos maus e dos bons. Bem sabes Carlos, que te digo uma verdade, sem pretensões de bas-bleu, que é de todas as misérias a mais lastimosa miséria das mulheres cultivadas.
Vasco retirou-se, e eu quisera antes que ele se não retirasse.
Disse-me meu irmão que aquele rapaz era uma inteligência superior, mas depravada pelos maus costumes. A razão por que ele viera a nossa casa era muito simples; encarregara-o seu pai de falar com meu irmão a respeito da remissão de uns foros.
Vasco passou nesse dia por debaixo das minhas janelas: fixou-me, cortejou-me, corei, e não me atrevi a segui-lo com os olhos, mas segui-o com o coração. Que suprema miséria, Carlos! Que renúncia tão impensada faz uma mulher da sua tranquilidade.
Voltou um quarto de hora depois: retirei-me, sem querer mostrar-lhe que o percebia; fiz-me distraída, por entre as cortinas, a contemplar a marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar precipitado sobre aquele indiferente que me fazia corar e sofrer. Viu-me, adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda. Eu vi o gesto da cortesia, mas fingi-me e não lhe correspondi. Foi isto um heroísmo, não é verdade?
Seria; mas eu tive remorsos, apenas ele desaparecera, de o tratar tão grosseiramente.
Demorei-me nestas puerilidades, meu amigo, porque não há nada mais grato para nós que a recordação dos últimos instantes de ventura a que se prendem os primeiros instantes da desgraça.
Aquelas linhas fastidiosas são a história da minha transfiguração. Aí principia a longa noite da minha vida.
Nos dias imediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os perigos da minha fraqueza, e quis ser forte. Resolvi não vê-lo mais: revesti-me de um orgulho digno da minha imodesta superioridade às outras mulheres: sustentei este caráter dois dias; e, ao terceiro, era fraca como todas as outras.
Eu já não podia divorciar-me da imagem daquele homem, daquelas núpcias infelizes que meu coração contraíra. O meu instinto não era mau; porque a educação tinha sido boa; e, não obstante a humildade constante com que sempre sujeitei a minha mãe os meus inocentíssimos desejos, senti-me então, com mágoa minha, rebelde, e capaz de conspirar contra a minha família.
A frequente repetição dos passeios de Vasco não podia ser indiferente a meu irmão. Fui suavemente interrogada por minha mãe a tal respeito, respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmão pressentiu a necessidade de matar aquela inclinação nascente, e expôs-me um quadro feio dos costumes péssimos de Vasco, e o conceito público em que era tido o primeiro homem a quem eu tão francamente me oferecia em namoro. Fui altiva com o meu irmão, e adverti-lhe que os nossos corações não tinham contraído a obrigação de se consultarem.
Meu irmão sofreu; eu também sofri; e, passado o momento da exaltação, quis cerrar a ferida que abrira naquele coração, desde a infância identificado com as minhas vontades.
Este sentimento era nobre; mas o do amor não era inferior. Se eu pudesse reconciliá-los ambos! Não podia, nem sabia fazê-lo! Uma mulher, quando principia a sua dolorosa tarefa do amor, não sabe mentir com aparências, nem calcula os prejuízos que pode evitar com um pouco de impostura. Eu fui assim. Deixe-me ir abandonada à correnteza da minha inclinação; e, quando forcejei por me tornar tranquila, à isenção da minha alma, não pude vencer a corrente.
Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e a grande paixão que elas exprimiam não era ainda igual à paixão que me faziam.
Meu irmão quis tirar-me de Lisboa, e minha mãe instava pela saída, ou pela minha entrada a toda a pressa nas Salésias. Informei Vasco das intenções de minha família.
No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno de outra sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mãe, e foi urbanamente repelido. Eu soube-o, e torturei-me! Não sei do que seria então capaz a minha alma ofendida! Sei que foi capaz de tudo que pode caber em forças de uma mulher, contrariada nas ambições que nutrira, sozinha consigo, e conjurada a perder-se por elas.
Vasco, irritado num nobre estímulo, escreveu-me, como quem me pedia a mim a satisfação dos desprezos da minha família. Respondi-lhe que lha dava plena,
como ele a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela porta da desonra, e muito cedo entraria nela com a minha honra ilibada. Que desgraça! Naquele tempo até as pompas de estilo me seduziam!… Respondi que sim, e cumpri.
Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciência é curta. Até ao correio que vem.
Henriqueta.”