A alma do payador Santos Vega · Capítulo 2 de 4
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A alma do payador

A alma do payador

Santos Vega, o payador,

aquele de longa fama,

morreu cantando o seu amor,

como o pássaro na rama.

Quando a tarde já se inclina,

soluçando no poente,

corre uma sombra dolente

sobre a pampa argentina.

E quando o sol ilumina,

com luz brilhante e serena,

do campo imenso a cena,

a melancólica sombra

foge, beijando-lhe o tapete,

no afã de sua pena.

Contam os crioulos do chão

que, em tépida noite de lua,

numa lagoa solitária,

a sombra detém o voo;

que ali se alarga, e um véu

vai sobre as águas formando,

enquanto se apraz escutando,

por singular benefício,

o incessante bulício

que fazem as ondas rolando.

Dizem que, em noite nublada,

se algum moço a sua guitarra,

no travessão do poço,

de propósito deixa pendurada,

chega a sombra, sossegada,

e, ao envolvê-la em seu manto,

soa o prelúdio de um canto

por entre as cordas dormidas,

cordas que vibram feridas

como por gotas de pranto.

Contam que, em noites daquelas

em que a Pampa se abisma

na extensão de si mesma,

sem sua coroa de estrelas,

sobre as coxilhas mais belas,

onde há mais trevo risonho,

luz uma tocha sem dono

entre uma névoa indecisa,

para que a brisa tempere

as brandas asas do sonho.

Mas, se mudado o desmaio

em tempestade no seio,

estoura o trovão côncavo,

que é a palavra do raio;

fere o ombu de soslaio

rubra serpente de chamas,

que, calcinando-lhe as ramas,

serpeia, corre e ascende,

e na alta copa desprende

brilhante chuva de escamas.

Quando, nas sestas de estio,

as miragens arremedam

vastos vagalhões que rolam

sobre um fantástico rio;

mudo, abismado e sombrio,

desce um ginete a encosta

tingida de bela esmeralda,

chega às margens solitárias...

E afunda o potro nas ondas,

com a guitarra às costas!

Se então cruza lá ao longe,

galopando pela planura,

solitário, algum paisano,

vendo o outro nos reflexos

daquele abismo de espelhos,

sente indizíveis quebrantos,

e, erguendo, em vez de seus cantos,

uma oração de ternura,

ao persignar-se murmura:

“É a alma do velho Santos!”

Eu, que nesta terra nasci,

onde esse gênio há cantado,

e o pampero tenho aspirado

que ao payador nutriu aqui,

beijo este chão tão querido,

que às minhas carícias se entrega,

enquanto o orgulho me anega

na convicção de que é minha

a pátria de Echeverría,

a terra de Santos Vega!

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