ATO V: Rio das fadas
Quem atravessasse aquele trecho da mata dificilmente notaria o estreito curso d'água escondido entre a pedreira e a vegetação. A água corria sobre as pedras cobertas de musgo, formando pequenos espelhos que refletiam as copas das árvores e espalhavam pontos de luz entre as sombras. Bromélias e orquídeas brotavam das fendas da rocha, misturando o perfume das flores ao cheiro úmido da terra recém-aquecida pelo sol da manhã.
Parecia apenas mais um dos incontáveis recantos esquecidos da natureza, preservado por seu difícil acesso. Um viajante desatento jamais chamaria aquele filete de água de rio. Para as fadas que viviam entre as raízes e as fendas, porém, ele era largo o bastante para separar um mundo do outro.
De um lado, sob as folhas de uma samambaia, uma pequena silhueta observava a corrente tocar lentamente a mão de um corpo humano nu, estendido à margem do riacho.
Aquela pele clara, imóvel sobre a terra escura, contrastava com o verde intenso da vegetação, enquanto os cabelos curtos balançavam suavemente ao sabor da brisa que atravessava a clareira. Os braços repousavam ao lado do corpo, e o rosto permanecia voltado para o céu, como se aquela pessoa tivesse apenas escolhido aquele lugar para descansar depois de uma longa caminhada. Nada naquela cena parecia perturbar a tranquilidade da mata, e era justamente essa serenidade que fazia o cadáver parecer deslocado entre tanta vida.
Sobre a barriga pálida e gélida havia outras pequenas criaturas que, embora desnudas, não pareciam realmente nuas. A própria floresta lhes servia de veste. Algumas traziam saias tecidas com folhas secas presas por cipós tão finos quanto fios de cabelo; outras pareciam cobertas por pétalas translúcidas que caíam dos ombros como delicados mantos. Musgos, flores e líquens pareciam brotar da própria pele, como se floresta e corpo tivessem nascido da mesma matéria
As asas variavam tanto quanto as flores que as cercavam. Havia as largas e aveludadas, semelhantes às das mariposas, e outras transparentes como as das libélulas, atravessadas por delicadas nervuras que cintilavam sob a luz filtrada entre as copas.
Nenhuma escondia o próprio corpo; ao contrário, exibiam-no com a mesma naturalidade com que as árvores sustentavam as folhas ou as flores ofereciam suas pétalas ao sol. Naquele pequeno povo, beleza e vaidade pareciam tão naturais quanto respirar, e cada ornamento dava a impressão de ter brotado da própria carne.
Moviam-se em silêncio, cruzando-se umas pelas outras numa dança lenta e perfeitamente sincronizada. Não havia tropeços, choques ou hesitação; cada passo parecia conhecido de antemão pelas demais, como se todas obedecessem ao mesmo ritmo invisível que fazia a água correr entre as pedras.
Entre elas, porém, havia uma única figura que destoava discretamente das demais. O rosto permanecia oculto sob um fino véu formado por pétalas escuras, enquanto a veste, marcada por faixas negras e douradas, lembrava o corpo de uma abelha. Ainda assim, nada chamava mais atenção do que seus olhos. Tão negros que, ao receberem a luz da manhã, pareciam devolvê-la em vez de simplesmente refletir o brilho do sol.
Era para o cadáver que esses olhos permaneciam voltados, imóveis e atentos. A expressão daquela fada não revelava ansiedade nem curiosidade, apenas a serenidade de quem aguardava um acontecimento inevitável.
Foi então que, entre os lábios entreabertos do morto, surgiu um brilho tão discreto que, por um instante, pareceu apenas um reflexo da luz da manhã sobre a umidade da boca. Tão tênue a princípio que parecia apenas um reflexo da luz da manhã sobre a umidade da boca, o clarão pouco a pouco ganhou forma, transformando-se num fino filamento luminoso que se desprendeu do corpo e começou a subir lentamente pelo ar, ondulando ao sabor da brisa.
Nenhuma das pequenas criaturas interrompeu a dança. Limitavam-se a acompanhar a lenta ascensão daquele fio luminoso com o rosto levemente erguido, enquanto o canto que ecoava entre as pedras tornava-se um pouco mais intenso. O filamento permaneceu suspenso por um breve instante acima delas e, pouco a pouco, foi perdendo o brilho até desaparecer completamente, como se jamais tivesse existido.
Logo outro começou a surgir entre os lábios do cadáver, repetindo o mesmo percurso silencioso, enquanto as fadas continuavam girando ao redor do corpo com a tranquilidade de quem apenas assistia ao curso natural da floresta.
Passado algum tempo, as pequenas criaturas que dançavam sobre a barriga do cadáver interromperam o ritual quase ao mesmo tempo. Uma após a outra, abriram as asas e elevaram-se até os galhos mais baixos das árvores, deixando livre a pele pálida que, por instantes, voltara a ficar visível.
O espaço vazio, porém, permaneceu assim apenas por um breve momento. De todos os lados surgiram outras fadas, menores e muito mais simples que as primeiras. Não traziam pétalas, musgos ou coroas de flores; seus corpos eram cobertos apenas pelos longos cabelos cintilantes que lhes desciam até as pernas.
Aproximavam-se em silêncio e pousavam delicadamente sobre o ventre do morto, sempre aguardando a que vinha adiante antes de ocupar o próprio lugar. Cada uma inclinava levemente a cabeça ao passar diante da fada de olhos negros, num gesto de respeito tão espontâneo que dispensava qualquer explicação.
Em questão de segundos, o corpo desapareceu sob aquela multidão de pequenas figuras. Restavam visíveis apenas alguns fios de pele entre centenas de asas que vibravam lentamente ao ritmo do canto, transformando o cadáver numa estranha colina viva de flores, cabelos e luz.
A fada de olhos negros esperou que a última delas encontrasse seu lugar. Só então ergueu o rosto e, com uma voz surpreendentemente firme para alguém de tamanho tão diminuto, rompeu a melodia que até então dominava a clareira:
— Libertem este corpo... em nome do Tenebroso.
As palavras da líder foram repetidas por todas as fadas como uma antiga liturgia que nenhuma ousava esquecer. A melodia que antes se espalhava suavemente pela clareira deu lugar a um coro perfeitamente sincronizado, fazendo com que dezenas de pequenas vozes parecessem apenas uma.
Então, uma a uma, as menores aproximaram-se do cadáver. Não havia pressa nem violência em seus movimentos. Pousavam sobre a pele com a leveza de pétalas carregadas pelo vento e deslizavam as pequenas mãos por braços, peito e ventre como quem procurasse algo invisível escondido sob a carne. Outras apenas inclinavam o rosto sobre o corpo, permanecendo imóveis por alguns instantes antes de seguir adiante.
Em poucos instantes, já não era possível distinguir onde terminava o cadáver e onde começava aquela multidão de pequenas criaturas. Centenas de asas vibravam lentamente umas contra as outras, produzindo um som tão suave que lembrava folhas agitadas pela brisa.
Sob aquele emaranhado de pequenas criaturas, a pele do morto perdia lentamente o brilho, enquanto a palidez se espalhava pelo corpo como a névoa que cobre o rio nas primeiras horas da manhã.
Quando voltaram a levantar voo, o cadáver permanecia exatamente onde estivera desde o início. Os braços continuavam ao lado do corpo, o rosto voltado para o céu e a pele intacta, sem qualquer marca que denunciasse o que acabara de acontecer.
A fada de olhos negros observou-o por um instante, satisfeita. Em seguida, aproximou-se de outra criatura, pousou delicadamente a mão sobre seu ombro e disse em voz baixa:
— Encontre minha irmã. Precisamos partir antes da chegada do caçador.